O Chanceler de Taiwan, Joseph Wu, numa entrevista ao podcast de Hugh Hewitt, declarou algo que pode ser resumido desta forma e que ilustra perfeitamente o objetivo desse assedio chinês ao sistema educacional de elite do Reino Unido:
“A sabedoria tradicional chinesa diz que quando surge uma crise doméstica que ameaça a manutenção do poder – referindo-se a crise que ameaçou o poder de Xi em 2018 – os impérios tendem a provocar crises fora de suas fronteiras, ou provocar guerras entre outros países. Então, o Império se apresenta como solucionador do problema causado por ele mesmo; uma forma artificial de obter uma grande vitória, uma demonstração de poder para manter-se no controle dentro de seu país e, de quebra, enfraquecer e dominar os países adversários”.
E esta semana surgiu uma denúncia feita por Nigel Farage, político britânico que foi um dos líderes mais influentes do Partido de Independência do Reino Unido, e pelo jornal britânico Daily Mail confirmando que o Partido Comunista de Xi Jinping está numa nova etapa, mais agressiva, em sua expansão sobre o Ocidente: a China está comprando escolas privadas no Reino Unido e inserindo suas pautas políticas nas disciplinas.
Desde o início da crise sanitária, iniciada em 2019, que a ditadura chinesa colocou o pé no acelerador em sua política conhecida como “Um Cinturão, Uma Rota” – também chamada de Nova Rota da Seda – que, apesar dos esforços de Pequim em amenizar a situação como “uma tentativa de melhorar a conectividade regional e abraçar um futuro mais brilhante”, trata-se de uma série de projetos de investimento e infraestrutura para garantir o domínio chinês num novo ordenamento econômico e social global.
Nem economias fortes, como a britânica, sobreviveram ao caos gerado pelos incessantes lockdowns e confinamentos. Um dos setores mais afetados no Reino Unido foi o de escolas privadas; em média, os recebimentos tiveram uma queda de 35%, enquanto o custo por aluno subiu 20% com as necessidades de criar todo um sistema que fornecesse aulas online e possibilidade de teletrabalho para alguns funcionários.
Como se não fosse o bastante, as escolas privadas não puderam utilizar todo o aparato de auxílios e empréstimos fornecidos pelo governo de Boris Johnson, pois só faziam jus a tais facilidades os estabelecimentos que estivessem, literalmente, de portas fechadas. As escolas privadas afirmaram não poder encerrar totalmente suas estruturas físicas, pois precisavam manter-se abertas para garantir o apoio presencial a filhos de funcionários essenciais e fornecer condições para os professores darem as aulas online.
Com a crise e possibilidade de falência de vários desses estabelecimentos, em 2020 iniciou-se o assédio de grupos chineses, comprando os colégios em crise. Um dos líderes nesse cenário foi o grupo Bright Scholar, que já havia comprado algumas faculdades britânicas em 2019, incluindo as importantes Bournemouth Collegiate School, a Saint Michael’s School em Llanelli, Carmarthanshire.
O Bright Scholar pertence a Yang Huiyan, que tem uma fortuna estimada em 20 bilhões de libras, o que a torna a mulher mais rica da Ásia. O grupo foi fundado por seu pai, Yang Guoqiang, um membro do escalão mais alto do Partido Comunista Chinês.
Outro grupo chinês que também investiu pesadamente no setor educacional britânico é o Wanda Group, que foi fundado por Wang Jianlin, um ex-membro das Forças Armadas Chinesas e que tem uma fortuna de aproximadamente 10 bilhões de libras. Wang também é membro do conselho do Partido Comunista Chinês.
Nem a tradicional Riddlesworth Hall Preparatory School em Norfolk, que tem a Princesa Diana no seu rol de alunos célebres, escapou dos planos chineses. Riddlesworth foi comprada pelo Confucius International Education Group e seu site faz questão de se vangloriar que eles agora são donos de um dos melhores colégios ingleses, relacionando-o diretamente com a finada Diana.
Outro grupo chinês, o Ray Education – agora donos do Adcote School for Girls e do Myddelton College – não faz qualquer questão de esconder seus planos de usar suas escolas britânicas para ajudar o governo chinês a expandir a estratégia do “Um Cinturão, Uma Rota” de Xi Jinping. O CEO da Ray Education, James Hu, é secretário do comitê distrital de Hongkou do Partido Comunista Chinês.
Ao total, já são 17 escolas privadas britânicas que agora pertencem a conglomerados chineses. Tais escolas são todas tradicionais, pois estão entre as que preparam e formaram muitos dos intelectuais, políticos, nobres, militares de alto escalão e grandes economistas, advogados e artistas britânicos. São os colégios preparatórios privados no Reino Unido que educam os filhos da elite britânica e mesmo filhos de estrangeiros ricos que enviam seus filhos para lá.
Nigel Farage, em um texto para o Daily Mail, disse que as escolas estão usando ferramentas educacionais para ensinar às crianças uma visão pouco realista da China: “…seus alunos aprendem uma versão altamente higienizada da história e da política chinesa. Nenhuma menção é feita à situação dos muçulmanos uigur ou à erradicação da democracia em Hong Kong.”
De fato, em vários destes colégios há vários relatos trazidos pela edição de 21 de fevereiro do Daily Mail que afirmam haver até aplicativos para smartphone utilizados como ferramenta de ensino que trazem coisas bizarras, como o app “Chinese Buddy” (Amigo chinês, em tradução livre) que exibe vídeos com o desenho do Presidente Xi Jinping dançando de forma amigável, como um “guia online” para os alunos.
Outra ferramenta de aprendizagem popular é o “Chairman’s Bao”, um serviço de notícias para crianças que inclui artigos sobre como turistas se surpreendem e aproveitam as viagens à China, notadamente para a região onde a minoria uigur é perseguida pelo governo chinês.
Nigel Farage ainda afirmou: “O mundo está sendo dominado furtivamente pelo Partido Comunista Chinês. Sob um projeto neocolonial, o presidente Xi Jinping espera alcançar a dominação econômica global por meio de investimentos internacionais maciços (…) Existe uma dimensão cultural que cheira a propaganda e doutrinação”.
Farage escreveu que o processo começou em 2014, de forma discreta, quando uma rede de empresas chinesas passou a assediar e comprar discretamente estabelecimentos em dificuldades financeiras, mas agora os investimentos estão cada vez mais explícitos e maiores.
Um dos resultados tragicamente irônicos disso é a Thetford Grammar School, em Norfolk, alma mater do filósofo Thomas Paine, que agora é comandada por membros do Partido Comunista Chinês. Paine foi o autor de Rights Of Man, e sua obra e crenças ajudaram a estabelecer os Estados Unidos da América.
Dominic Raab, Secretário de assuntos estrangeiros do Reino Unido, disse no mês passado que o governo está revisando o papel do Confucius International Education Group e isso também está sob escrutínio em outros países ocidentais. Porém, até o momento a impressão geral é de que o governo de Boris Johnson está realmente de mãos dadas com Pequim e pouco disposto a intervir no assunto.
No início da pandemia do Covid-19, o governo taiwanês fez declarações de que o governo chinês não só havia provocado essa crise sanitária, mas que a fizeram intencionalmente para utilizá-la para se recuperar das pressões que Xi Jinping sofria no Partido e ainda fortalecer sua imagem perante o mundo.

Crise Covid-19: China compra 17 escolas tradicionais  do Reino Unido e insere pautas políticas na educação