Campanha de conscientização envolve alunos do 2º ano e comunidade da Emef “Professor Olímpio Cruz” de Marília em respeito às mulheres, contra o machismo, misoginia e o feminicídio. Engajamento acontece através de depoimentos de vários meninos que
gravaram vídeo emocionante.

A misoginia, por exemplo, é o ódio contra as mulheres e a raiz de uma sociedade em que homens são valorizados e mulheres são desvalorizadas. Os resultados são diversos: feminicídios, humilhações, objetificação, entre outros. Ninguém é “culpado” sozinho ou sozinha, já que a misoginia é um comportamento social que deve ser combatido.

Tudo começou por iniciativa ao debate sobre os temas, proposto e supervisionado pela professora Daniela Lopes, que resultou nesse primeiro vídeo. A Revista D Marília teve acesso à campanha e conversou com a professora. Confira entrevista e assista ao vídeo !

Revista D Marília:

Como surgiu a ideia dessa campanha. Desse vídeo?

Profª Denise Lopes:

“A proposta desse vídeo é, na verdade, a partir da grande escalada que se teve do feminicídio nos últimos anos no Brasil e em 2025. Sabemos já que é algo gritante no Brasil. Diariamente são mortas muitas mulheres e é um tema delicadíssimo, sério e que a gente precisa debater. E durante o ano eu já faço esse trabalho de conscientização com as crianças, porque as crianças trazem muitas coisas do mundo, muitas dúvidas e até na própria relação entre elas. Então, a todo momento, eu aproveito para abordar todas essas questões. Questões raciais, questões de gênero, questões de violência, tudo aquilo que envolve as relações humanas, que envolve a ética, que envolve a moral, que envolve os direitos humanos.
Então, desde o início do ano passado, com essa turminha do segundo ano, eu já vinha abordando com eles aulas sobre racismo, sobre machismo, inclusive porque vinha muito das questões de interesse deles, que acabam vendo tudo isso em noticiários, por exemplo”.

Revista D Marília:

E os debates junto às crianças, como foram?

Profª Denise Lopes:

Denise Lopes, 48 anos, é formada em Ciências Sociais pela Unesp e professora do ensino fundamental há 27 anos na rede municipal de Marília. Ativista em Direitos Humanos, atuou como Secretária Municipal da Juventude em 2011 e 2012.

“Durante o ano nós fizemos muitas discussões, muitas conversas, eu tirava muitas dúvidas deles e chegou no final do ano e vendo essas notícias tão absurdas, tão terríveis, e as crianças vinham perguntar também e eu me senti na obrigação de fazer algo e daí surgiu a ideia. Fizemos o movimento para lidar com essa questão do feminicídio e pensei:  por que não já começarmos a abordar isso com os nossos pequenos? Então eu expliquei para eles o que era, o que motivava o por que havia isso. Como  o tema já vinha de aulas anteriores, foi mais fácil das crianças entenderem, se sensibilizarem com isso e foi daí que surgiu essa ideia da gente fazer uma campanha.
Inicialmente, a gente tinha pensado em mandar um recado. E veio a ideia de construir o vídeo. Mas depois, refletindo com todos eles, pensamos que seria mais importante inserirmos os meninos nas discussões.
Então eu falava muito isso, e eu tinha alunas meninas que também já traziam um pouco da compreensão do que é a mulher empoderada. Crianças de 7, 8 anos de idade já tinham um pouco dessa compreensão. E isso foi muito gratificante, porque deu para a gente fazer esse debate de uma forma muito clara com eles durante todo esse período de trabalho.”

Revista D Marília:

Pelo vídeo os meninos aceitaram bem a proposta?

Profª Denise Lopes:

“Na hora de formar o grupo eu falei para eles o que achavam de mandarmos esse recado para os homens adultos? E não adianta só as mulheres se engajarem nessa luta. Precisamos que os meninos se engajem também, que os homens se engajem.
E expliquei que como nós temos os meninos, que tal mandarmos o recado na voz de vocês? Porque vocês vão ser aqueles que vão encaminhar uma ideia para os homens de hoje, os adultos de hoje. E vocês também vão se preparar para vocês serem homens melhores lá na frente, quando vocês forem adultos. E eles gostaram muito dessa ideia. E nesse vídeo que a gente produziu, foi um momento que eu deixei eles falarem à vontade. Então eu gravei bastante a fala deles, onde eles iam dizendo tudo que eles sentiam, que eles pensavam. Eu deixei assim de uma forma bem livre. E depois eu fui captando as falas.
E era justamente para a gente poder deixar um recado direto, porque o objetivo desse vídeo, além de ser uma formação para os nossos meninos, de hoje, nossas crianças, é para que eles cresçam com uma compreensão de que as mulheres não sejam subjugadas, elas não devem ser tratadas com violência, que todos nós devemos ter respeito um pelos outros, que o Não é Não, que a gente não pode agir querendo exigir que a mulher faça aquilo que o homem queira.
Além disso, de mostrar que é preciso respeitar, que é preciso entender que os gêneros devem ter a mesma igualdade e tudo mais. A ideia também é de mexer um pouquinho com o emocional da sociedade, é cutucar mesmo, porque eu pensei: o que a gente pode fazer para diminuir isso hoje? Eu sei que é só um vídeo, é um vídeo que eu não sei qual é a abrangência que ele vai ter. Eu sei que ele  vai mexer muito com as minhas crianças, tanto os meninos quanto as meninas, que devem repudiar qualquer tipo de violência no primeiro sinal. Não vamos nos permitir deixar que ninguém venha e nos domine, nos maltrate. Então, apesar de elas serem muito pequenas, já é uma semente. E a minha expectativa é que isso cresça na educação.
Quando a gente fala de educação sexual é justamente isso. É da gente trabalhar com todas essas questões para que as crianças não caiam em contos mentirosos, que elas não sejam enganadas, iludidas, tanto as meninas quanto os meninos. Nós não podemos passar pano para a violência de forma alguma. Que as mulheres têm que receber menos que os homens, que as tarefas domésticas são só para as mulheres. Então, tudo isso a gente debate muito. E a minha esperança é que na Educação a gente consiga fazer isso crescer, que esse debate cresça? E que possamos, de fato, construir uma sociedade que tenha uma outra forma de pensar e romper com o machismo, com a misoginia, com as formas de violência contra as mulheres.

Revista D Marília:

E como foi a aceitação dos pais, da comunidade escolar e as famílias?

Profª Denise Lopes:

“Por ser um assunto muito delicado sabermos que muitas vezes tem gente que interpreta de formas errôneas, que gostam de polemizar, eu tenho total respeito pelas minhas crianças e pelas famílias das minhas crianças. Então eu conversei individualmente com cada pai, com cada mãe, com cada familiar desses meus meninos e todos eles receberam a proposta de uma forma muito positiva, ficaram muito felizes. Eles gostaram muito da ideia e aprovaram logo de cara que realmente eu poderia desenvolver esse projeto e vídeo. Logo em seguida que eu desenvolvi eu comecei a mandar um pouco do material para eles. Com a finalização, enviei primeiramente para eles para pedir autorização novamente. E também por respeito para que eles pudessem ver em primeira mão. Eles viram, ficaram emocionados e estão muito orgulhosos de ver os filhos fazendo parte da campanha e de ver que os filhos deles vão crescer com uma outra visão, com uma outra postura do que é ser homem numa sociedade ainda machista como a nossa. Então é a gente romper mesmo com essa ideia, com essa construção, com essa mentalidade negativa em relação às mulheres, é romper com o machismo estrutural e a gente vencer toda essa violência.” 

Denise Lopes, 48 anos, é formada em Ciências Sociais pela Unesp e professora do ensino fundamental há 27 anos na rede municipal de Marília. Ativista em Direitos Humanos, atuou como Secretária Municipal da Juventude em 2011 e 2012.

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Alunos da Emef “Professor Olímpio Cruz”, de Marília, gravam vídeo emocionante em respeito às mulheres e contra o feminicídio. Campanha de conscientização envolve comunidade com engajamento através de depoimentos. Confira entrevista e assista !