
Por Renato Pernambucano
O Fórum Econômico Mundial de Davos, que tradicionalmente funciona como vitrine do consenso liberal-globalista, foi tomado em 2026 por um sentimento oposto:
fragmentação, coerção econômica e disputa aberta por poder estratégico.
Ao longo de vários dias, o evento revelou que o sistema internacional baseado em regras, comércio previsível e cooperação multilateral não está apenas sob pressão — ele já está sendo substituído.
No centro dessa transição está o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cuja agenda “America First” passou a estruturar debates sobre comércio, segurança, energia e soberania.
Groenlândia: território, mísseis e o novo xadrez do Ártico
A Groenlândia emergiu como o epicentro geopolítico do encontro. Trump afirmou repetidamente que o território é vital para a segurança dos Estados Unidos e do mundo, não como metáfora política, mas como infraestrutura militar essencial.

Na Suíça, durante o fórum de Davos, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que “a velha ordem” não voltará mais e que a Europa precisa se ajustar à nova ordem que surge. Ela também disse que a soberania da Dinamarca sobre a Groenlândia é “inegociável” e prometeu uma resposta europeia, além de investimentos “massivos” na ilha.
Dentro da UE, a França defende acionar o Instrumento Anticoerção, com medidas para taxar e pressionar os EUA, enquanto outros países pedem cautela e diálogo com Washington
A ilha está posicionada:
─ Na principal rota de mísseis balísticos entre Rússia, China e América do Norte
─ No coração da estratégia de defesa antimísseis conhecida como Golden Dome
─ Em uma região cada vez mais disputada devido ao degelo do Ártico e à abertura de novas rotas marítimas
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, foi explícito ao explicar a lógica da Casa Branca:
“O presidente acredita que a Groenlândia é essencial para o escudo antimísseis Golden Dome. Os Estados Unidos não podem terceirizar sua segurança nacional.” disse Scott Bessent
Trump rejeitou publicamente qualquer solução baseada apenas em tratados, arrendamentos ou presença militar limitada, afirmando que acordos de 50 ou 100 anos não impediriam um conflito futuro.
Europa reage: soberania, tratados e linhas vermelhas
A resposta europeia foi imediata e dura. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, tentou manter um tom diplomático, mas estabeleceu limites claros:
“A soberania da Groenlândia dentro do Reino da Dinamarca é não negociável.” diz
Ursula von der Leyen
Ela também classificou as novas tarifas anunciadas por Trump como “um erro”, lembrando que a União Europeia e os Estados Unidos firmaram um acordo comercial em julho do ano passado:
“Na política, assim como nos negócios, um acordo é um acordo.” falou Ursula von der Leyen
O presidente francês Emmanuel Macron adotou um tom mais confrontacional, alertando que as ações americanas estão corroendo os mecanismos de governança global:
“Estamos destruindo a estrutura que permite resolver desafios comuns. Sem governança coletiva, a cooperação dá lugar à competição implacável.” falou Emmanuel Macron.
Macron foi além ao afirmar que a UE pode recorrer, pela primeira vez, ao Instrumento Anticoerção, criado em 2023 para reagir a chantagens econômicas — inclusive com tarifas retaliatórias ou restrições a empresas americanas no Mercado Único.
Tarifas como arma geopolítica
Trump deixou claro que tarifas não são apenas ferramentas econômicas, mas instrumentos de coerção estratégica.
Antes mesmo de discursar em Davos, anunciou tarifas de 10% contra oito países europeus que se opõem à aquisição da Groenlândia: Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Holanda e Finlândia — todos membros da OTAN.
Em seu discurso no fórum, Trump reforçou a lógica:
─ Produção dentro dos EUA será recompensada
─ Produção fora pagará tarifas
─ Impostos corporativos serão reduzidos drasticamente
─ Aprovações regulatórias serão aceleradas
“Se você não fizer seu produto na América, terá de pagar uma tarifa.” citou Donald Trump
Choque ideológico: Davos versus “America First”
O confronto ideológico ficou explícito. Trump atacou frontalmente as agendas centrais do Fórum Econômico Mundial:
─ Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI)
─ Metas de emissões líquidas zero
─ Expansão do papel regulador do Estado
“A América voltará a ser um país baseado no mérito.” adicionou Donald Trump.
Ele também anunciou medidas internas:
─ Eliminação de programas DEI no governo federal
─ Suspensão de financiamento a escolas com políticas obrigatórias de “diversidade”
─ Reconhecimento oficial de apenas dois gêneros
Klaus Schwab, fundador do Fórum Econômico Mundial, reconheceu o peso político de Trump:
“A importância da liderança americana e da sua liderança pessoal, é fundamental.”
disse Klaus Schwab.
Economia global: crescimento resiliente, riscos crescentes
O Fundo Monetário Internacional apresentou um cenário misto.
Por um lado:
─ Crescimento global projetado em 3,3%
─ Crescimento dos EUA estimado em 2,4%
─ Adaptação das cadeias produtivas às tarifas
─ Boom de investimentos em inteligência artificial.
Por outro, alertou para riscos significativos.
O economista-chefe Pierre-Olivier Gourinchas advertiu:
“Uma correção moderada nas ações de inteligência artificial pode reduzir o crescimento global em 0,4%.”
A combinação de tensões geopolíticas, expectativas infladas e controles de exportação pode transformar um ajuste financeiro em choque econômico sistêmico.
OTAN, Ártico e o fim da complacência estratégica
Trump voltou a pressionar aliados da OTAN a elevar gastos militares para 5% do PIB, argumentando que os Estados Unidos arcam com um peso desproporcional da defesa coletiva.
Von der Leyen tentou mostrar cooperação, citando a venda de quebra-gelos finlandeses aos EUA e prometendo uma nova estratégia europeia para o Ártico.
Ainda assim, a mensagem de Washington permaneceu inequívoca: a segurança americana não será negociada em nome do consenso.
Davos como retrato da nova ordem internacional
Davos 2026 marca um ponto de inflexão. O fórum, criado para promover a agenda globalista, tornou-se o palco onde ficou evidente que o mundo entrou em uma era de poder explícito.
A Groenlândia, um território remoto e pouco povoado, sintetiza essa mudança: deixou de ser periferia geográfica para se tornar ativo central do século XXI, onde comércio, defesa, tecnologia e soberania se cruzam.
O que Davos revelou não foi apenas o estilo de Trump — mas o fato de que o sistema internacional já se reorganiza em torno da força, da dissuasão e do controle de ativos estratégicos.
Nesta nova fase menos previsível, quem se adaptar e agir assertivamente controlará esses ativos, mas a pergunta permanece: qual será o custo?
Fonte: The Epoch Times Brasil
