
Foto: Reprodução
Em 2023, um fundo de investimento fez uma aposta que parecia segura: colocar dinheiro na recuperação do Modevie Boutique Hotel, um 4 estrelas em Gramado com 204 quartos e história de mais de uma década no setor. O hotel vinha sofrendo com a retração do turismo nos anos anteriores, e a proposta era simples — reformar tudo, equipar tudo do zero, e reposicionar o hotel para captar a retomada do turismo na Serra Gaúcha.
O capital entrou. A reforma começou. E a compra foi massiva.
Para os 204 quartos, foram adquiridos — diretamente de fornecedores hospitality-grade, os mesmos que abastecem redes como Fasano e Emiliano — milhares de peças de enxoval novo: lençóis de percal 400 fios, toalhas de fio egípcio, edredons pesados, travesseiros de silicone com densidade controlada, roupões de banho, protetores de colchão impermeáveis e silenciosos, fronhas de algodão, capas protetoras, tapetes de banheiro antiderrapantes. Tudo de fábrica. Tudo embalado. Tudo com etiqueta.
Além do enxoval, cada quarto recebeu TV de 32 polegadas nova, frigobar silencioso novo, secador profissional de parede, chaleira elétrica, cofre digital, Chromecast, abajures de mesa, criados-mudos, cadeira decorativa e cabides de veludo antideslizantes. 204 quartos equipados do zero. Do lençol à TV.
O plano era que o hotel reabriria renovado, captaria a demanda reprimida do turismo e começaria a se pagar. Mas o turismo não veio.
A economia brasileira continuou patinando. As viagens domésticas — que sustentam hotéis como o Modevie — não se recuperaram. A ocupação ficou muito abaixo do necessário. O hotel já operava no vermelho quando, em maio de 2024, as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul atingiram Gramado em cheio.
Rodovias interditadas. Cancelamentos em massa. A temporada de inverno — que seria a última chance de virar o jogo — simplesmente não aconteceu. Para um hotel que já dependia de um turismo que não vinha, o impacto das enchentes foi a sentença final.
O Modevie agonizou por mais de um ano depois disso. No início de 2026, a falência foi oficialmente decretada. Os funcionários foram dispensados. As reservas, canceladas. Os sistemas, desligados.
E dentro dos 204 quartos — a esmagadora maioria dos itens que o fundo comprou permanecia intacta. Nova. Lacrada. Nunca tocada por hóspede nenhum.
Milhões investidos. 204 quartos equipados do zero. Quase nada foi usado
O fundo não economizou. A ordem era clara: o Modevie tinha que competir com os melhores hotéis do Brasil. Para isso, contratou os mesmos fornecedores que abastecem a hotelaria de alto padrão — e encomendou volume para equipar 204 quartos de uma só vez.
Para ter noção da escala: cada quarto de casal recebeu jogo de lençol de percal 400 fios — aquele toque fresco e liso que você sente nos primeiros 3 segundos deitado e percebe que não é um lençol qualquer. Travesseiros de silicone com densidade controlada — aquele apoio firme mas macio que faz você dormir a noite inteira sem precisar empilhar dois, sem acordar com dor no pescoço, sem aquele afundamento que travesseiro de varejo tem depois de 3 meses. Toalhas de fio egípcio pesadas e macias, projetadas para manter a textura por centenas de lavagens. Protetores de colchão impermeáveis e silenciosos — sem aquele barulho de plástico que acorda você toda vez que vira na cama. Roupões de banho densos que envolvem o corpo como um abraço pesado.
São peças de padrão hospitality-grade — fabricadas sob especificações que o varejo simplesmente não atende. Loja de shopping não exige que um lençol sobreviva a 500 ciclos de lavanderia industrial sem desbotar, sem encolher, sem perder o toque. Hotel exige. E o fundo pagou o preço premium por cada peça.
Multiplique cada um desses itens por 204 quartos. São mais de 4.000 toalhas. Mais de 2.000 lençóis. Mais de 800 travesseiros. 204 TVs de 32″. 204 frigobares silenciosos. 204 cofres digitais. 204 secadores profissionais. Milhares de peças que foram compradas de fábrica, entregues lacradas — e nunca chegaram a ser usadas por hóspede nenhum.
Porque o hotel nunca operou com ocupação suficiente para isso. A crise, as enchentes e a falência vieram antes.
O inventário precisa sair — e está saindo
Quando um hotel tem a falência decretada, existe um problema logístico imediato: o que fazer com o conteúdo de 204 quartos? Manter um prédio inteiro com inventário dentro custa dinheiro a cada dia — segurança, seguro, manutenção. A pressão para esvaziar é real. E no caso do Modevie, a situação é ainda mais urgente: a justiça determinou que os ativos sejam liquidados para pagar credores.
O inventário do Modevie Boutique está sendo vendido agora, pela internet, em forma de kits de quarto de hotel. O modelo é diferente de qualquer promoção que você já viu no varejo. Não é um item isolado. O comprador adquire um kit com os itens que foram comprados novos para equipar um quarto do hotel — e escolhe, em três etapas, exatamente o que quer receber.
Primeiro, escolhe o tipo de quarto: Solteiro (R$ 109,90), Casal (R$ 119,90) ou Família (R$ 129,90). Isso define o volume do enxoval e o tamanho das peças.
Depois, define a preferência de enxoval:
Enxoval de Cama — jogo de lençol percal 400 fios, fronhas par, protetor de colchão impermeável silencioso, travesseiros de silicone hospitality-grade, capas protetoras de travesseiro
Enxoval de Banho — toalhas de banho e rosto de fio egípcio, tapete de banheiro antiderrapante, roupão de banho, toalha de piso
Conforto Extra — pillow top, edredom pesado (aquele peso de hotel), manta de microfibra, cobertor, protetor de colchão premium
Por fim, escolhe a categoria complementar:
Utilitários e Decoração — abajures de mesa, criados-mudos, cadeira decorativa, cabides de veludo antideslizantes, organizadores
Eletrônicos e Entretenimento — TV 32″, Chromecast, equipamentos de entretenimento do quarto
Conveniência — frigobar silencioso, secador profissional de parede, chaleira elétrica, cofre digital
Todos os itens passam por conferência de qualidade antes do envio. A esmagadora maioria nunca foi retirada da embalagem original — o hotel simplesmente não operou tempo suficiente com ocupação para utilizar o que o fundo comprou. São itens de fábrica, hospitality-grade, que foram adquiridos para um hotel que mal chegou a funcionar depois da renovação.
Para dar a dimensão do que isso representa em valor: o kit Família — o mais completo — tem valor de tabela listado em R$ 1.090,00. O preço de liquidação é R$ 129,90. Isso é 88% abaixo do valor de tabela.
O kit Solteiro — valor de tabela R$ 599,90 — sai por R$ 109,90. Por esse preço, no varejo tradicional, você mal compra um jogo de cama básico da Buddemeyer. Aqui, vem o quarto inteiro — e novo.
“Escolhi eletrônicos e veio TV 32″ lacrada na caixa e Chromecast. Pelo valor do kit família, só a TV já valeria. O enxoval veio de brinde — tudo com etiqueta.” — Lucas C., comprador verificado
O frete é grátis para todo o Brasil. A garantia é de 30 dias com devolução e reembolso total. E a limitação de 1 kit por CPF reforça o que o contexto já deixa claro: o estoque é finito. Não é promoção recorrente. É liquidação de inventário novo de um hotel que faliu antes de usar o que comprou.
O que os números — e os compradores — confirmam
Até o fechamento desta matéria, a página do inventário registrava números que, segundo a equipe de consumo da redação, são incomuns para uma operação de liquidação:
→ 5.012 compradores que já garantiram seus kits
→ Apenas 74 unidades restantes neste lote
→ Mais de 20.000 visitas na página nas últimas semanas
Mas os números que realmente chamaram a atenção da apuração são outros.
A operação de venda carrega o selo RA 1000 — a certificação máxima do Reclame Aqui, concedida apenas a empresas com nota acima de 8, índice de solução acima de 90% e taxa de recompra elevada. Não é um selo que se compra. É um selo que se conquista com histórico impecável de atendimento ao consumidor. A maioria dos grandes varejistas do país não tem esse selo.
A nota no Reclame Aqui é 5.0 com mais de 300 avaliações. No Google Reviews, 4.6 com 239 avaliações. Em e-commerce, manter nota máxima com centenas de avaliações é tão raro que a redação levou um tempo para confirmar que o dado era real.
Os relatos dos compradores seguem um padrão: surpresa. Um comprador do kit Casal recebeu enxoval completo ainda na embalagem de fábrica, abajur e cabides de veludo — e disse que pagou menos do que pagaria num jogo de cama básico. Outro, do setor hoteleiro, confirmou que as toalhas são de fio egípcio “padrão 5 estrelas, sem dúvida — e claramente novas”. Uma compradora do kit Família relatou que “veio MUITA coisa boa” e “tudo lacrado, com etiqueta”.
“Minha filha casou recentemente e dei o kit casal de presente. Ela chorou quando abriu — disse que parece enxoval de lua de mel. Veio tudo novo, na embalagem. O marido dela agora quer comprar outro pro quarto de hóspedes.” — Carla S., compradora verificada
“Peguei o de conveniência e veio frigobar silencioso lacrado na caixa e secador profissional de parede. Pelo preço que paguei, só o frigobar já valeria 3x o kit inteiro. O enxoval que veio junto é novo de fábrica.” — Fernando V., comprador verificado
Por que esta não é “mais uma liquidação”
Liquidações existem o ano todo. Black Friday, queima de estoque, promoção de aniversário — o varejo brasileiro vive de criar a sensação de urgência. Mas existe uma diferença fundamental entre uma promoção de marketing e a liquidação do inventário novo de um hotel que recebeu milhões em investimento, comprou tudo de fábrica e faliu antes de usar.
Promoção de marketing volta. Inventário novo de hotel falido, não.
Esses itens não foram fabricados para vender barato. Foram comprados por um fundo de investimento que apostou na recuperação de um hotel de alto padrão em Gramado. A seleção foi feita por profissionais de hotelaria, de fornecedores exclusivos, por contratos que o varejo comum não alcança. Quando a economia, as enchentes e a crise do turismo impediram a recuperação, os 204 quartos equipados do zero ficaram praticamente intocados. E agora a justiça determinou que tudo seja vendido para cobrir os credores.
A limitação de 1 kit por CPF não é tática comercial. É consequência de um estoque finito, sem reposição possível. Quando acabar, não volta. Não existe fábrica produzindo mais kits do Modevie Boutique.
A redação investigou a página, conferiu as avaliações públicas, cruzou com os dados disponíveis sobre o encerramento do hotel e a crise hoteleira em Gramado pós-enchentes. O que encontramos foi consistente: o estoque é real, os itens são novos, os compradores estão satisfeitos, e os preços praticados são uma fração do que custaria montar um quarto com produtos equivalentes no varejo tradicional.
Para quem precisa renovar o quarto, montar um quarto novo, equipar um Airbnb, ou simplesmente quer sentir em casa o tipo de conforto que normalmente só existe em hotel de alto padrão — esta é uma daquelas janelas que se fecham sozinhas. Não precisa de countdown. Não precisa de pressão. O estoque se esgota pela demanda, não pelo relógio.
Restam 74 kits no momento desta publicação.
Com informações de g1
Fonte: Diário Do Brasil
