Especialista avalia o mito de que mulheres heterossexuais sofrem com a ‘falta de homens no mercado do amor’ Foto: Freepik

“Se organizar direito todo mundo chora/ Se organizar direito todo mundo cansa/ Mas nem todo mundo transa/ Nem todo mundo goza/ Nem todo mundo chora”. Os versos são de Déjà-Vu Frenesi, música lançada em 2020 por Letrux. Um dos mais sólidos nomes da cena independente no Brasil, nessa faixa ela parece sabotar aquele dito popular que sugere que “se organizar direitinho” – isto é, com planejamento e ética ou mesmo com “jeitinho” – todos podem sair ganhando.

É justamente esse mito que ajuda a sustentar uma ideia muitas vezes manifestada por mulheres em busca de relações heterossexuais: a de que vive-se hoje uma incontornável “falta de homens” no mercado do amor, de modo que “quem casou, casou e quem não casou, não casa mais”.

Em Belo Horizonte, essa percepção ganhou até verniz estatístico quando dados do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2022, apontou uma desproporção: segundo o estudo, para cada 100 mulheres na cidade, há 86,6 homens. A conclusão imediata é que, se os números não mentem, elas estão sobrando e, eles, faltando – o que ajudaria a justificar a frustração feminina quanto aos relacionamentos afetivos.

A explicação, porém, não passa de um engodo. É o que defende a psicóloga Dalcira Ferrão, que enxerga essa “conclusão matemática” como reducionista. “Ela transforma uma informação demográfica em uma explicação simplificada para questões muito mais complexas, como os relacionamentos afetivos. Do ponto de vista psicológico, essa ideia ignora aspectos fundamentais”, examina. 

“Primeiro, nem todas as mulheres estão buscando relações com homens, o que já desmonta a lógica heteronormativa implícita nessa narrativa. Além disso, relações não se formam apenas pela quantidade de pessoas disponíveis, mas por fatores como: valores, expectativas, experiências anteriores, contextos sociais e culturais, desigualdades de gênero, projetos em comum, etc.”, estabelece, inteirando, por fim, que podem existir, inclusive, mulheres que escolhem não ter relacionamentos. 

“Reduzir a dificuldade de se relacionar a uma suposta ‘escassez’ de homens apaga a complexidade das experiências afetivas, e também desresponsabiliza padrões problemáticos nas relações, como desigualdade emocional, falta de compromisso ou violência”, critica.

As reflexões fazem lembrar “A Quadrilha”, poema de Carlos Drummond de Andrade publicado em 1930, que reflete justamente as complexidades das relações. Nele, o itabirano escreve: “João amava Teresa que amava Raimundo/ que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili/ que não amava ninguém./ João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,/ Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,/ Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes/ que não tinha entrado na história”.

Lógica de mercado não funciona para  relações humanas

Além das questões já postas, Dalcira Ferrão acrescenta que olhar para as relações amorosas a partir de uma lógica de “mercado afetivo” é, por si, problemático.

“Essa ideia sugere que pessoas são como produtos, avaliadas em termos de ‘valor’, ‘competição’ e ‘oferta e demanda’. Do ponto de vista psicológico, isso pode gerar vários efeitos, como: a objetificação das pessoas, que passam a ser vistas como substituíveis; ansiedade e insegurança, por comparação constante; baixa autoestima, especialmente entre mulheres, historicamente pressionadas a se adequarem a padrões devido às imposições sociais; dificuldade de construir vínculos genuínos, já que a lógica passa a ser de desempenho, e não de encontro”, situa.

E ela lembra que, por serem historicamente mais cobradas, avaliadas e responsabilizadas pelo sucesso ou fracasso das relações, as mulheres tendem a sofrer mais os impactos desse tipo de visão sobre os relacionamentos. “É como se elas precisassem ‘se ajustar ao mercado’, em vez de questionar as estruturas que produzem relações desiguais”, crava. 

Deslegitimação de outras vivências

No último Carnaval de Belo Horizonte, a ideia de que está “faltando homens” apareceu como piada, com algumas folionas sugeriram mulheres héteros estariam no “mapa da fome” durante a festa – que, vale registrar, tinha uma pessoa que se declarava LGBTQIAPN+ para cada três pessoas que participaram da folia, conforme apontou uma pesquisa da Belotur.

Dado o contexto, Dalcira Ferrão adverte: “Quando essa ideia aparece em espaços marcados pela diversidade, ela pode funcionar como uma forma sutil de deslegitimação dessas vivências. É como se a presença de homens gays, por exemplo, fosse percebida como uma ‘redução de oferta’ para mulheres – o que, simbolicamente, coloca o desejo dessas mulheres como centro e medida de todas as relações. Nesse sentido, podemos sim pensar que há, em alguns casos, traços do que se convencionou chamar de homofobia recreativa: falas que parecem leves, engraçadas ou despretensiosas, mas que carregam pressupostos excludentes e reforçam normas sociais que marginalizam outras formas de existir e desejar”.

A psicóloga ainda argumenta que essa lógica também empobrece a experiência afetiva das próprias mulheres, reduzindo suas possibilidades de relação a um único modelo – como se o valor dos encontros estivesse condicionado à disponibilidade de homens heterossexuais.

Crise do modelo de masculinidade

Falando especificamente sobre as dinâmicas no meio heterossexual, Dalcira Ferrão entende que essa recorrente queixa sobre uma “falta de homens” costuma revelar menos uma escassez real e mais uma insatisfação com os modelos de masculinidade e de relacionamento heterossexual disponíveis hoje. 

“É importante entender que relações não se explicam apenas por números, mas por qualidade dos vínculos. Ou seja, não se trata apenas de haver ou não homens, mas de como esses homens estão se colocando nas relações”, cita, detalhando que muitas mulheres têm nomeado um descompasso importante para se encontrar um parceiro, por exemplo por: dificuldade de diálogo emocional; baixa disponibilidade afetiva; resistência ao compromisso; manutenção de padrões desiguais (cuidado, responsabilidade emocional, etc.). “Esses elementos estão diretamente ligados aos modelos tradicionais de masculinidade, que historicamente reforçam padrões estruturais machistas, misóginos, patriarcais e e muito heteronormativos”, avalia. 

Ela ainda lembra que vivemos um momento de transformação. “Muitas mulheres, impulsionadas por avanços dos feminismos, têm ampliado sua autonomia; revisto expectativas e recusado relações desiguais ou pouco satisfatórias. Enquanto isso, parte dos homens ainda está em processo (ou resistência) de revisão desses papéis. Esse descompasso pode gerar a sensação de ‘falta’, quando, na verdade, há um desencontro de expectativas e modos de se vincular”, estabelece a psicóloga, reforçando que esse movimento das mulheres de “subir a régua”, sendo mais exigentes e criteriosas em suas escolhas, pode ser entendido como um movimento de proteção e afirmação de si – “especialmente em um contexto histórico em que elas foram socializadas para aceitar muito menos do que mereciam nas relações”. 

Mas Dalcira pondera: “Relações afetivas implicam negociação, conflito e limite. Quando a ‘régua’ se torna excessivamente rígida ou baseada em expectativas pouco realistas, pode haver dificuldade de construir vínculos possíveis – não porque “não existam pessoas suficientes”, mas porque há pouco espaço para o encontro com o outro em sua complexidade. 

Autonomia

“É fundamental diferenciar uma escolha genuína por estar só de uma solidão atravessada por sofrimento não passa por um critério externo – tempo, idade ou número de relações –, mas pela qualidade da experiência subjetiva”, alerta Dalcira, acrescentando que estar só pode ser uma escolha saudável quando: não é vivida como falta ou fracasso; há sensação de autonomia e inteireza; a pessoa consegue investir em outras dimensões da vida (amizades, trabalho, interesses); xiste abertura para o vínculo, mesmo que ele não esteja acontecendo naquele momento.

Nesse caso, diz, a solitude é um espaço de cuidado de si, e não de isolamento. Por outro lado, a solidão pode indicar sofrimento quando aparece acompanhada de: repetição de relações frustrantes; sensação de vazio ou desvalor; dificuldade persistente de confiar e se vincular; padrões que se repetem, mesmo com desejo de mudança. “Aqui, não se trata exatamente de ‘querer estar só’, mas de, muitas vezes, não conseguir sustentar vínculos que sejam seguros e recíprocos”, sugere. Ela inteira que é importante também não patologizar o fato de mulheres estarem sozinhas e historicamente, a solidão feminina foi tratada como fracasso.

Com informações de O Tempo.

Fonte: Diário Do Brasil

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