
*Por Juliana Zellauy
Muita gente acredita que tomar boas decisões é uma espécie de dom, que ou a pessoa “nasceu com isso” ou está condenada a escolher mal. Contudo, a neurociência e a psicologia cognitiva mostram o contrário, que decidir bem não depende apenas de inteligência ou sorte, mas é uma habilidade treinável.
Um dos aspectos mais intrigantes é que, muitas vezes, seu cérebro decide antes de você saber. Parte da atividade neural envolvida na escolha acontece antes de ela chegar à consciência. Isso não elimina nossa liberdade, mas revela que decidir é resultado de processos complexos, muitos deles automáticos, que antecedem a nossa percepção consciente.
Além disso, a tomada de decisão não é uma função isolada. Ela é fruto da integração de várias funções executivas como atenção, controle inibitório, regulação emocional, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva. Ou seja, decidir bem exige foco, contenção de impulsos, organização de informações, avaliação de cenários e capacidade de ajuste.
Daniel Kahneman ajuda a compreender esse processo ao descrever dois modos de pensar. O Sistema 1 é rápido, intuitivo e econômico, útil em situações familiares ou que exigem agilidade, mas suscetível a vieses. O Sistema 2 é mais lento, analítico e deliberado, essencial para decisões complexas, embora mais custoso em termos de energia mental. Boas decisões pedem discernimento para saber quando confiar na agilidade do Sistema 1 e quando e como acionar a profundidade do Sistema 2.

Também é um erro imaginar que decidir bem seja escolher “pela razão” e excluir as emoções. Emoções não são inimigas da lucidez, visto que elas trazem informações valiosas. O problema surge quando dominam completamente o processo ou quando são ignoradas. Boas decisões exigem, portanto, equilíbrio entre razão e emoção.
O mesmo vale para instinto e intuição. O instinto é mais primário, ligado à sobrevivência. Já a intuição costuma vir da experiência e da leitura sutil de padrões. Ambos podem ajudar, mas não devem substituir a análise criteriosa em decisões complexas.
Mas veja, tão importante quanto saber decidir é saber quando não decidir. Cansaço, estresse, fome, prazos curtos ou excesso de informação comprometem a qualidade das escolhas, levando o cérebro a buscar alívio imediato ao invés de boas decisões. Por isso, também é essencial buscar dados confiáveis, reconhecer vieses inconscientes, alinhar a decisão aos seus valores e objetivos de longo prazo e considerar seu impacto no coletivo. Afinal, decidir nunca é um ato neutro e as nossas escolhas individuais também reverberam nos outros.
Tomar uma boa decisão não é um processo simples. Por isso mesmo em meu livro “Neurociência Positiva”, dedico todo um capítulo a essa tão importante Função Executiva e apresento um fluxograma de tomada de decisão não para dar respostas prontas, mas para estimular perguntas melhores. Porque a qualidade da decisão depende menos de certezas imediatas e mais de clareza. Treinar essa habilidade é treinar a forma como conduzimos a própria vida.
* Juliana Zellauy é especialista em Neurociência e Comportamento, com formação em Psicologia Positiva e em Mindfulness, autora de “Neurociência Positiva – Uma rota prática para cultivar o equilíbrio, desenvolver clareza mental e viver com mais leveza”.
