
Foto: Ricardo Stuckert/PR, Brenno Carvalho/O Globo e Kent Nishimura/AFP
Até onde se sabe, a pauta do encontro de Lula e Donald Trump, marcado de última hora para hoje, será tomada pelos assuntos “de sempre”: a investigação sobre concorrência desleal envolvendo principalmente o Pix, a exploração das terras-raras e o combate ao crime organizado na América Latina, incluindo o impasse sobre considerar Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital organizações terroristas.
Embora não se saiba ainda ao certo por que se decidiu fazer a reunião agora, nem seja possível antecipar os resultados, é fácil concluir que os dois presidentes procurarão tirar dividendos eleitorais da ocasião.
Ambos enfrentarão eleições neste ano — Trump para Legislativo e governos estaduais, Lula pela reeleição — e precisam dar uma guaribada na imagem. Trump está enfiado no atoleiro que virou a guerra com o Irã e Lula numa crise de governabilidade depois da rejeição de Jorge Messias como ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).
Mas, apesar do otimismo que as assessorias dos dois fizeram questão de espalhar, incluindo o “vazamento” de um “I love you” de Trump a Lula ao telefone, uma sombra surgiu nos últimos dias: o grupo JBS, dos irmãos Batista.
Joesley Batista é hoje um dos maiores empresários dos Estados Unidos e, dos brasileiros, o mais próximo de Trump. Despejou US$ 5 milhões na festa da posse e se tornou próximo de figuras do círculo íntimo do presidente. Foi, ainda, um dos principais artífices da primeira reunião entre Lula e Trump depois do tarifaço, em outubro passado na Malásia, e, segundo reportagens da BBC e da CNN, deu também um empurrãozinho para o encontro de agora acontecer.
Só que, um dia antes de confirmar oficialmente a agenda com Lula, o governo Trump anunciou conduzir uma investigação antitruste contra as quatro maiores produtoras de carne do país, que concentram 85% do mercado. O chefe do Departamento de Justiça (DOJ), Todd Blanche, ofereceu recompensas a quem apresentar evidências de crimes cometidos pelos frigoríficos. E a secretária de Agricultura, Brooke Rollins, citou expressamente as brasileiras Marfrig e JBS como ameaça aos Estados Unidos e à segurança alimentar dos americanos:
“Uma empresa de propriedade brasileira detém cerca de um quarto do mercado e tem histórico documentado de corrupção e atividades ilícitas. A realidade brutal é que essa propriedade estrangeira de frigoríficos tem sido associada não apenas a corrupção, mas também a cartéis e, recentemente, ao trabalho escravo, o que já é ruim por si só, mas também prejudica os grandes fazendeiros e consumidores”.
A inflação da carne é um enorme problema para Trump, e a concentração de mercado no setor tem sido alvo de protestos frequentes dos agricultores — os rednecks, eleitorado tradicional dos republicanos. Desatar esses nós é questão de sobrevivência política, e o anúncio da investigação às vésperas da visita de Lula faz a gente se perguntar se Trump não poderia, num arroubo, aproveitar a reunião para faturar junto ao público interno, atacando os “vilões brasileiros” do momento.
Os diplomatas de Lula não acreditam nessa hipótese, e empresários próximos de Joesley relatam que ele tampouco teme que a investigação vá longe. Aposta, evidentemente, na relação que construiu com Trump e seu entorno. Entendidos em trumpismo tanto nos Estados Unidos quanto aqui também avaliam que a ofensiva contra os frigoríficos pode ser muito mais uma forma de dar satisfação à base indignada do que uma guerra com consequências reais.
Pode ser, mas, tratando-se de Trump, nada é garantido, até porque seu governo está compartimentado em grupos que não se coordenam e muitas vezes se detestam. A investida contra os produtores de carne brasileiros é obra de Peter Navarro, o influente idealizador do tarifaço e um nacionalista ferrenho, obcecado por combater a influência chinesa no mundo.
Além disso, o discurso da secretária de Agricultura mostra que nem ela e nem o pessoal do DOJ esqueceram que, em 2020, o grupo dos Batistas fechou um acordo para pagar US$ 128 milhões à Securities and Exchange Commission, a CVM americana, e ao DOJ para encerrar processos por corrupção, falhas nos controles e registros contábeis e práticas anticoncorrenciais.
Foi só depois disso que Joesley e companhia puderam lançar ações em Wall Street e se tornar uma potência com faturamento de US$ 28 bilhões, 90 fábricas e 70 mil funcionários só nos Estados Unidos. É um poderio capaz de fazer qualquer presidente se curvar, tanto lá como cá, mas que também serviria como um belo pretexto para guerra de narrativas geopolítico-eleitoral — ainda mais no Trumpverso.
Com informações de O GLOBO
Fonte: Diário Brasil
