Por Ana Luiza Figueiredo

Uma vitamina essencial para funções básicas do organismo humano pode ter um papel inesperado na sobrevivência de células cancerígenas.

Pesquisadores da Universidade de Würzburg, na Alemanha, descobriram que a vitamina B2, também conhecida como riboflavina, ajuda tumores a criar uma proteção contra a ferroptose, um tipo de morte celular programada que elimina células danificadas. O estudo foi publicado na revista Nature Cell Biology.

A vitamina B2 participa de diversos processos importantes do corpo, incluindo a manutenção da pele e o metabolismo de gorduras. Segundo os cientistas, a descoberta não significa que ela seja prejudicial ou deva ser evitada. 

A pesquisa indica, na verdade, que entender como células tumorais usam essa vitamina pode abrir caminho para novos tratamentos capazes de enfraquecer tumores sem comprometer células saudáveis.

Como a vitamina B2 atua nas células cancerígenas

A bióloga Vera Skafar, autora do estudo, afirmou que a vitamina exerce um papel central na proteção contra a ferroptose. Esse mecanismo de morte celular ocorre quando há danos nas membranas das células, levando o organismo a descartá-las.

Os pesquisadores identificaram que a vitamina auxilia a atuação da proteína FSP1 (ferroptosis suppressor protein 1), conhecida por impedir a ferroptose. Estudos anteriores já haviam mostrado a importância da FSP1 e da proteína GPX4 nesse processo de proteção celular.

Durante uma triagem envolvendo milhares de genes, a equipe verificou que a FSP1 depende do gene RFK, responsável pelo processamento da vitamina B2 em formas utilizáveis pelo organismo. Testes laboratoriais confirmaram que a riboflavina alimenta a atividade da FSP1 por meio desse gene.

Substância pode interromper proteção dos tumores

Os testes também apontaram o potencial de uma substância chamada roseoflavina. O composto funciona como um imitador da vitamina B2 e parece induzir a ferroptose em células cancerígenas cultivadas em laboratório.

Segundo os pesquisadores, a roseoflavina engana as células tumorais, que passam a absorvê-la no lugar da vitamina B2. Porém, diferentemente da riboflavina, ela não consegue sustentar a atuação da FSP1 nem manter a proteção contra a morte celular.

Os cientistas ressaltam que a pesquisa ainda está em estágio inicial. A proposta não é sugerir que a vitamina B2 seja prejudicial, já que ela é essencial para o funcionamento do corpo humano. 

O desafio agora será encontrar formas de atingir especificamente esse mecanismo em células cancerígenas, sem afetar células saudáveis.

Descoberta pode impactar outras áreas da medicina

A ferroptose é desencadeada por oxidação, um processo químico associado ao desgaste celular ao longo do tempo. Além do câncer, pesquisadores acreditam que ela também esteja ligada a doenças neurodegenerativas, AVCs e danos em tecidos após transplantes de órgãos ou lesões por isquemia e reperfusão.

O biólogo brasileiro, professor da Universidade de Würzburg e coautor do estudo José Pedro Friedmann Angeli afirmou que a ferroptose não é relevante apenas para tumores. 

Segundo ele, evidências crescentes apontam participação desse mecanismo em diferentes processos patológicos.

A equipe acredita que versões futuras de compostos semelhantes à roseoflavina, desenvolvidas especificamente para bloquear o acesso de tumores à vitamina B2, possam contribuir para tratamentos mais eficazes contra o câncer.

Fonte: Olhar Digital 

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