Os ministros Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes durante cerimônia — Foto: Rosinei Coutinho/STF/22-08-2024

A estratégia do grupo do ministro Alexandre de Moraes de concentrar em Kassio Nunes Marques a artilharia na guerra do STF tem razões estratégicas que vão bem além de provocar uma necessária apuração sobre as mensagens que mostram pagamentos de diárias de hotel e até garota de programa e contratos com advogados próximos que podem render até R$ 427 milhões – revelações que vieram à tona com os vazamentos do conteúdo do celular do banqueiro Daniel Vorcaro. Neste momento, o principal objetivo do grupo não é abrir uma investigação sobre Nunes Marques, e sim colocar em xeque a liderança no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e preservar a linha sucessória do STF.

O cálculo dos aliados de Moraes leva em consideração que, pelo esquema de rodízio por antiguidade da Corte, ele deve ser o próximo a assumir a presidência do tribunal em setembro do ano que vem, mas seu vice deve ser justamente Nunes Marques.

Isso significa que, caso a nova composição do Senado após as eleições de outubro tenha uma maioria anti-Supremo, a blindagem garantida por Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) pode cair e levar à abertura de um dos 55 pedidos de impeachment contra Moraes que o presidente do Senado guarda na gaveta.

Não é um cenário improvável. A expectativa, tanto no STF quanto no Senado, é a de que a tropa de choque bolsonarista amplie o número de cadeiras no Congresso e tente evitar a reeleição de Alcolumbre

“O grupo do Moraes quer implodir a possibilidade de pularem o Alexandre [na linha sucessória do STF] e trabalha para inviabilizar o Kassio de toda maneira”, diz uma fonte que acompanha de perto as movimentações nos bastidores. “Quanto mais ministros enrolados no caso Master, melhor fica a posição do Moraes.”

A tumultuada sessão do STF no último dia 15, encerrada sem qualquer decisão sobre a abertura de uma investigação para apurar a relação de Moraes e Vorcaro, foi uma mostra disso. O julgamento acabou interrompido por um pedido de vista de Dino, o que deve empurrar o desfecho do caso para dezembro, após as eleições.

Escândalo do Master atinge ministros

Moraes tem sido associado ao governo Lula, que conta com a boa vontade do Supremo para manter a governabilidade. Já Nunes Marques foi indicado ao tribunal por Jair Bolsonaro em 2020 e, nos julgamentos da Segunda Turma do Supremo relacionados ao Master, vinha votando alinhado aos ministros André Mendonça e Luiz Fux, impondo reveses para os alvos da investigação.

Mesmo assim, Nunes Marques acabou se declarando impedido e não participou do caótico julgamento do último dia 15. Pressionado pela ala de Moraes, o ministro alegou que na condição de presidente do TSE, não se sentia “confortável” para participar da análise do caso.

Já Moraes, principal interessado no julgamento que poderia resultar na abertura de investigação, participou normalmente da sessão.

Tanto Moraes quanto Nunes Marques foram tragados pelo escândalo do Banco Master.

No relatório da PF que identificou 52 mensagens trocadas entre Moraes e Vorcaro, consta uma conversa de 15 de novembro de 2025, quando o ex-banqueiro questiona Moraes: “Acha que segunda já tenho que estar fora?” Dois dias depois, numa segunda-feira, Vorcaro foi preso no aeroporto de Guarulhos tentando embarcar para Dubai, sob a suspeita de fugir do país. A PF também investiga a suspeita de vazamento da ordem de prisão.

Conforme revelou o blog, o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, fechou um contrato que previa o pagamento de R$ 3,6 milhões ao longo de três anos – e previa a atuação dela em quatro órgãos do Executivo: o Banco Central, o Cade, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional e a Receita. Em todos eles, no entanto, a atividade de Viviane é desconhecida.

Já Nunes Marques foi arrastado para o epicentro do escândalo após o Metrópoles e a Folha de S. Paulo revelarem que o ex-banqueiro teria pago R$ 10 mil para que uma garota de programa dormisse com ministro. Vorcaro também teria discutido com o então diretor jurídico do Master, Luiz Rennó, sobre um pagamento mensal de R$ 500 mil a Kevin de Carvalho Marques, filho de 25 anos do ministro que é advogado e tem ganhado crescente influência no Judiciário.

Nesta segunda-feira (21), o Metrópoles mostrou ainda que um escritório de advocacia ao qual Vorcaro e seus executivos se referiam como a “Turma do KN”, em referência às iniciais de Nunes Marques, fechou com o Master um contrato para a liberação de precatórios que poderia render até R$ 427 milhões em honorários.

Em outra frente de batalha, Gilmar Mendes também avançou contra Nunes Marques no último sábado (19), quando foi às redes sociais criticar a “politização da Justiça Eleitoral” e cobrar imparcialidade do TSE, avisando que o STF “continuará a atuar como instância de supervisão”.

“Quem tenta engajar o Tribunal em proselitismo partidário deve avaliar se reúne condições de nele permanecer. E os partidos políticos e o Ministério Público Eleitoral devem fiscalizar atentamente se essas condições estão presentes, arguindo a suspeição nos casos em que ela se configure”, escreveu Gilmar, em tom intimidatório.

Segundo aliados do grupo, a ideia é justificar eventuais interferências do STF em decisões tomadas pelo TSE com o argumento de que o processo eleitoral não poderia ser manchado pela suspeita em torno de seu presidente.

No limite, caso Nunes Marques se afaste do tribunal, o que é improvável, a presidência ficaria nas mãos do atual vice-presidente, André Mendonça, maior adversário de Moraes no STF, mas Gilmar voltaria a compor a Corte eleitoral.

A guerra contra Nunes Marques já movimentava os bastidores do Supremo antes mesmo de o caso Banco Master vir à tona.

Em 2023, aliados de Moraes discutiram nos bastidores uma forma de impedir que Nunes Marques assumisse a vaga de ministro titular no TSE. Em geral, essa decisão é tomada em uma votação protocolar já que a tradição é os ministros do STF escolherem os colegas que vão atuar na Corte Eleitoral pelo critério de antiguidade.

Naquele momento, porém, a ala pró-Moraes tentou impedir que Nunes Marques participasse do julgamento de Jair Bolsonaro por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação nas eleições de 2022. De quebra, ainda o afastariam da tarefa de conduzir o processo eleitoral de 2026.

A manobra não foi adiante e Nunes Marques participou do julgamento de Bolsonaro. Votou contra condenar o ex-presidente à inelegibilidade no caso dos ataques às urnas proferidos durante reunião com embaixadores no Palácio da Alvorada.
Com informações de O GLOBO

Fonte: Diário Do Brasil

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