Até onde uma inteligência artificial generativa pode ir na área da saúde? Nos Estados Unidos, viraliza o relato de uma mãe que só conseguiu diagnosticar a doença rara de seu filho — um tipo de malformação congênita — com o apoio do ChatGPT e de um grupo no Facebook. Antes disso, o filho de Courtney passou por 17 médicos e outros profissionais de saúde, como dentistas, sem sucesso, ao longo de 3 anos.

A jornada de Alex para obter um diagnóstico para as suas dores começou aos 4 anos. Naquela época, o menino tomava diariamente ibuprofeno — remédio prescrito como anti-inflamatório e analgésico, vendido sem receita médica.

Ao longo dos anos, a criança apresentou dores de cabeça, cansaço constante, mudanças de personalidade, acessos de raiva e arrastava o pé esquerdo quando caminhava. Além disso, sofria com problemas de crescimento.

Diagnósticos para a criança misteriosamente doente

Após as consultas com os especialistas, Alex recebeu diagnósticos dos mais variados tipos, como bruxismo e Malformação de Arnold-Chiari. Inclusive, um pediatra classificou as alterações relatadas com os efeitos psicossociais impostos pela pandemia da covid-19.

“Passamos por muitos médicos. Acabamos indo ao pronto-socorro em um determinado momento”, conta a mãe para o jornal Today. Quando chegou ao limite, ela recorreu ao chatbot com IA generativa. Lá, ela detalhou tudo o que sabia sobre o caso do filho e os seus sintomas.

Ajuda do ChatGPT na identificação de doença rara

Segundo Courtney, o ChatGPT sugeriu como diagnóstico a síndrome da medula presa, também conhecida como a síndrome da medula ancorada. O interessante é que a doença se intensifica conforme a criança cresce, o que explicava o fato dos sintomas do filho estarem piorando.

Vale apontar que esta “é uma condição neurológica rara em que a medula espinhal está ligada (amarrada) aos tecidos circundantes da coluna vertebral. Isso impede que a medula espinhal se mova para acompanhar o alongamento da coluna à medida que cresce”, explica artigo da Universidade Stanford.

Na maioria das vezes, as crianças relatam dores intensas, mas isso varia de acordo com o grau da condição. Além disso, o quadro está quase sempre associado com espinha bífida, ou seja, um defeito de nascimento da coluna vertebral — a coluna não se fecha por completo.

Grupo de apoio no Facebook foi importante

Após o suposto diagnóstico do ChatGPT, a mãe buscou mais informações sobre a doença rara na internet e encontrou um grupo no Facebook composto por famílias que tinham crianças com essa mesma questão de saúde. Lendo as histórias postadas, Courtney descobriu que a maioria dos pacientes sofriam por não conseguir diagnósticos imediatos da condição.

Munida de novas informações, a criança passou por uma nova consulta com um neurocirurgião — este médico não estava na lista dos anteriormente consultados. Após examinar os exames de ressonância magnética, o médico apontou para o problema da espinha bífida e confirmou o diagnóstico de síndrome da medula ancorada.

Talvez, o grande problema do paciente tenha sido o fato de que o seu caso era atípico, conhecido como espinha bífida oculta. De forma resumida, a espinha de Alex estava aberta, mas a medula espinhal não estava fora do posicionamento normalmente esperado. Por isso, ele não apresentava as marcas características da condição.

Passada essa longa jornada de muitos erros até descobrir o nome e o tratamento específico para a sua doença, o menino foi finalmente operado e se recupera bem do procedimento.

ChatGPT pode diagnosticar doenças?

Após ler sobre esse relato, é tentador afirmar que o ChatGPT pode substituir os médicos e ser usado rotineiramente para o diagnóstico de doenças. No entanto, a realidade não é exatamente essa. Esta função está longe de ser o uso ideal da ferramenta com IA. Por outro lado, pode fornecer valiosos insights, como ocorreu com Courtney, que devem ser confirmados clinicamente.

Inclusive, o uso da IA generativa já é testado na medicina, com inúmeros projetos em fase de desenvolvimento ou de implantação. Por exemplo, no Brasil, uma startup está desenvolvendo um chatbot que irá ajudar médicos a reduzirem a prescrição excessiva de antibióticos.

No oposto, uma recente pesquisa descobriu que, quando solicitado a recomendar tratamentos contra o câncer, o ChatGPT ainda induz a muitos erros. Mais perigoso, a ferramenta pode gerar alucinações, ou seja, sugerir coisas que não existem, o que pode ser um grande problema na área médica.

O que é necessário para melhorar a tecnologia?

Dentro do atual cenário, incluindo o relato da mãe à imprensa, Jesse M. Ehrenfeld, o presidente da Associação Médica Americana (AMA), afirma que é impossível descartar os potenciais usos dessa tecnologia na área médica. Só que ela ainda precisa ser aperfeiçoada antes de chegar aos consultórios médicos.

Por isso, Ehrenfeld defende: “Assim como exigimos provas de que os novos medicamentos e produtos biológicos são seguros e eficazes, também devemos exigir a obtenção de evidências clínicas sobre a segurança e a eficácia das novas aplicações de saúde baseadas na IA”, como os chatbots.

Compartilhar matéria no
No momento, você está visualizando ChatGPT fecha diagnóstico de doença rara após criança consultar 17 médicos americanos