Reprodução Clickpetroleoegas

Salões de beleza coletam cabelo que iria para o lixo e convertem em barreiras que absorvem petróleo no mar e ajudam a proteger praias e vida marinha.

Quando falamos em resíduos com impacto ambiental, pensamos em plástico, pneus, descartáveis, e até em madeira e têxteis. Quase nunca pensamos em cabelo humano. Todos os dias, toneladas de cabelo são varridas de salões e jogadas em sacos pretos, rumo a aterros sanitários. Mas o que parecia apenas lixo urbano vem ganhando uma segunda vida inesperada: o cabelo humano está sendo usado para absorver petróleo e outros hidrocarbonetos no mar, em derramamentos que ameaçam praias, aves, mamíferos marinhos e pescadores costeiros.

Esse uso não é teórico e não é novo — foi documentado pela primeira vez pela NASA nos anos 1980, quando pesquisadores compararam cabelo humano, pelos animais e fibras sintéticas em contatos com óleo. A conclusão foi simples: o cabelo absorve óleo com muita eficiência, por causa de sua estrutura lipofílica (afinidade por gorduras e óleos).

Décadas depois, esse princípio voltou de forma massiva após o acidente da plataforma Deepwater Horizon no Golfo do México, em 2010. Ali, pela primeira vez, grandes organizações começaram a testar “booms absorventes” feitos de cabelo humano e pelos de animais. Hoje esse processo se expandiu para EUA, Canadá, Austrália, Reino Unido, França, Espanha e partes do Sudeste Asiático, com salões se tornando fornecedores regulares de matéria-prima.

O fio de cabelo é composto principalmente por queratina, uma proteína altamente estruturada, com escamas microscópicas que aumentam a área superficial. Além disso, o cabelo possui afinidade natural com lipídeos e óleos, e baixa afinidade com água ou seja, ele “pega” óleo e rejeita água.

  • 1 grama de cabelo humano pode absorver até 5 vezes o seu peso em óleo (dependendo do tipo)
  • Espumas sintéticas absorventes industriais ficam na faixa de 3x a 7x, mas são petroquímicas
  • Barbante, algodão e lã absorvem óleo, mas também absorvem água, o que reduz a eficiência

Esse comportamento técnico permite que barreiras de cabelo funcionem como microfiltros oleofílicos, capturando óleo em suspensão enquanto deixam água passar.

Não se trata de mágica e sim de engenharia com base biológica.

Como funciona o processo completo: da tesoura ao oceano

A cadeia funciona assim:

  • Salon coleta: o salão junta o cabelo cortado em sacos próprios.
  • Triagem: o material chega às centrais, onde é separado por contaminantes (metais, plásticos, pedaços longos, etc.).
  • Compactação: o cabelo é comprimido e transformado em esteiras ou mantas absorventes.
  • Montagem: o material vai para booms absorventes — tubos de malha recheados com cabelo.
  • Aplicação marítima: as barreiras são posicionadas no mar, em praias, mangues ou marinas.

As mantas podem ser usadas para coletar óleo em cais, portos, manguezais, estaleiros, plataformas e áreas de alto risco. Já os booms ficam na linha da água, bloqueando o avanço do óleo ou capturando vazamentos crônicos.

O cabelo humano é apenas uma parte da solução — fibras de animais (lã de ovelha, alpaca, pêlo de cachorro) também funcionam, porém são menos abundantes e mais caras.

Os países que transformaram o cabelo em ferramenta ambiental

Os três maiores programas do mundo hoje são:

Estados Unidos

Nos EUA, centenas de salões participam de programas de coleta. Após o desastre de Deepwater Horizon, a demanda explodiu. 

  • Portos
  • Estaleiros
  • Postos de combustível náutico
  • Reservatórios industriais

Empresas petroquímicas também usam o material em áreas de contenção.

Austrália

A Austrália aplica a tecnologia em:

  • Marinas comerciais
  • Portos de pesca
  • Rios poluídos por escoamento de oficinas e postos

A vantagem australiana é logística: muitas cidades costeiras e grande presença de indústrias de transporte marítimo.

Europa (França, Espanha, Reino Unido)

Na Europa, o uso está crescendo, sobretudo em marinas e áreas turísticas, onde o contato com óleo costuma ser crônico, não catastrófico.

Resultados reais já documentados

Casos recentes ajudaram a consolidar o uso:

  • Mar Mediterrâneo: testes em portos na França reduziram camadas de óleo superficial em horas.
  • Golfo do México: após Deepwater Horizon, mantas absorveram óleo diesel e petróleo cruem áreas costeiras.
  • Marinas urbanas na Califórnia: redução de manchas provenientes de bombas de combustível náutico.

Há três vantagens práticas que vêm sendo reportadas por equipes de campo:

  • Velocidade de absorção: o cabelo captura óleo quase imediatamente.
  • Capacidade: não encharca de água, o que aumenta a eficiência.
  • Baixo custo: é praticamente de graça, comparado a absorventes petroquímicos.

Além disso, o material pode ser prensado após o uso e transformado em combustível sólido (briquetes), evitando descarte inadequado.

Quanto cabelo é produzido e quanto poderia ser usado

O potencial global é gigantesco. Estimativas conservadoras indicam:

  • Mais de 3.500 toneladas de cabelo humano são descartadas anualmente apenas em Estados Unidos, Canadá e Europa.
  • Globalmente, o número pode passar de 20.000 toneladas por ano.

Mesmo que apenas 10% desse volume fosse convertido em barreiras absorventes, seria possível:

  • Produzir milhões de metros de mantas por ano
  • Substituir toneladas de absorventes petroquímicos
  • Reduzir dependência de estoque emergencial para derramamentos

Em vez de lixo urbano de aterro, viraria infraestrutura ambiental costeira permanente.

Por que isso importa para o futuro (e para crises ambientais)

Todo ano acontecem vazamentos de petróleo, mas a maioria não vira notícia.

Os grandes eventos só aparecem quando plataformas explodem ou navios encalham, porém a maior parte da poluição costeira vem de:

  • Portos
  • Fundos de navios
  • Bombeamento irregular
  • Oficinas na beira de rios
  • Postos náuticos
  • Estaleiros

Nesses casos, o derramamento é crônico, não catastrófico. E justamente aí que mantas de cabelo

Além disso, em uma era de crise climática, com:

  • Furacões mais fortes
  • Tempestades costeiras mais frequentes
  • Erosão de praias
  • Colapso de manguezais
  • Águas mais quentes

Ferramentas de baixo custo e alta disponibilidade passam a ser estratégicas, não apenas “curiosas”.

O que ainda limita a expansão dessa tecnologia

  • Escala industrial ainda é limitada — poucas centrais transformam o material globalmente.
  • Legislação ambiental varia muito entre países e portos.
  • Cabelo é um resíduo orgânico, exige triagem e processamento para virar produto técnico.

Com investimento mínimo, porém, o potencial é enorme: salões são milhares; matéria-prima é contínua; custo é quase zero.

Do lixo ao oceano: um final inesperado para um material invisível

A história do cabelo como ferramenta ambiental é um caso raro onde uma solução extremamente simples encosta em problemas extremamente complexos.

  • Não resolve o colapso climático.
  • Não impede derramamentos gigantes.
  • Não substitui protocolos de emergência

Mas funciona tão bem que compra tempo, absorve óleo, protege aves, salva tartarugas, defende praias e ajuda comunidades que vivem da beira da água. Tudo isso com algo que, até o momento final, permanecia invisível, um resíduo que o mundo nunca levou a sério.

Quando um modelo ambiental transforma lixo em escudo, e faz isso com custo quase zero, é difícil não prestar atenção.

com informações de Clickpetroleoegas 

Fonte: Diário Do Brasil

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Como cabelo humano que iria para o lixo está sendo transformado em barreira contra óleo, limpando oceanos, defendendo ecossistemas costeiros e comprando tempo contra desastres ambientais silenciosos; VEJA VÍDEO