(Divulgação/Exame)

A necessidade de promover um forte ajuste fiscal para estabilizar e, posteriormente, reduzir a dívida pública se imporá ao próximo presidente da República – seja quem for o eleito em novembro. Ainda que os interessados tenham até o dia 15 de agosto para registrar suas candidaturas, tudo aponta para uma disputa polarizada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tenta seu quarto mandato, e o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e seu herdeiro político, agora que o pai está inelegível e condenado pelo Supremo Tribunal Federal pela tentativa de golpe.

Para o economista Gesner Oliveira, Flávio estaria mais preparado que o pai para comandar o Brasil e poderia implantar medidas inspiradas no presidente argentino Javier Milei, eleito com uma plataforma ultraliberal, cujo símbolo foi a motosserra que empunhava durante a campanha ao prometer profundos cortes na máquina pública. Se a vitória couber a Lula, Gesner aposta que o instinto de sobrevivência do petista o levaria a ajustar as contas, a fim de não arruinar sua popularidade.

Veja os principais trechos da conversa com o economista, fundador da consultoria GO Associados, professor da Fundação Getulio Vargas e ex-presidente da Sabesp.
Os grandes investidores internacionais reduziram sua exposição aos Estados Unidos e o Brasil se beneficia com isso, apesar de não resolvermos nossos problemas estruturais. O que fazer para que esses dólares que vieram para cá fiquem aqui? Infelizmente, ainda sofremos com problemas crônicos como a falta de competitividade, a insegurança jurídica e a instabilidade política. Mas o Brasil tem uma característica importante: não fazer movimentos muito errados ou totalmente errados. Diferentemente da Argentina, somos um país que não dá guinadas espetaculares, mas somos muito lentos para mudar. A demora para aprovarmos as reformas tributária, trabalhista e da previdência são um exemplo. Como não fizemos reformas estruturais profundas, acredito que pode haver uma grande fuga de capital. Muitos investidores estrangeiros olham com preocupação a evolução da relação dívida/PIB, que subiu cerca de 10 pontos percentuais nos últimos anos. Eles compreendem que o próximo governo herdará uma bomba fiscal.

Tudo aponta para uma disputa entre Flávio Bolsonaro e o presidente Lula na eleição de outubro. Caso vença, Flávio terá condições de fazer uma ampla reforma fiscal? Ele não terá uma postura como a do pai [o ex-presidente Jair Bolsonaro], que delegou a condução da economia totalmente ao ministro Paulo Guedes, o seu “Posto Ipiranga”. Acho que ele está convencido da necessidade de um ajuste fiscal forte. A candidatura de Jair foi pega de surpresa pela vitória. Se Flávio vencer, estará muito mais preparado para governar que o pai. A verdade é que haverá um plano econômico que será inspirado de algum modo no governo de Javier Milei na Argentina. Se ele souber aproveitar o apoio com que contará no início do mandato, haverá espaço para algum tipo de âncora fiscal que contaria com algumas características importantes. Seria difícil, por exemplo, escapar de uma emenda constitucional que desvincule os gastos obrigatórios com educação e saúde, desindexe os gastos previdenciários do salário-mínimo, além de atrelar o reajuste do salário-mínimo a ganhos de produtividade. Isso deveria vir acompanhado de um grande corte de gastos.

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E se Lula vencer? Ele promoveria um forte ajuste, mesmo que a contragosto? Ele ajustaria as contas a contragosto, por uma razão de sobrevivência política. Se o dólar bater nos 8 reais e a inflação disparar, Lula terá que tomar alguma medida. No cenário mais provável, ele será reeleito com uma minoria de fato no Congresso. Mesmo essa base de sustentação que possui hoje, frágil e flutuante, não seria possível. Nessas circunstâncias, só vejo dois caminhos. Se ele se sentir emparedado, ou ele radicaliza como fez João Goulart nos últimos dias de governo, ou ele segue o caminho do primeiro mandato e encontra um novo “Henrique Meirelles” [ex-presidente do Banco Central]. Ele já fez isso e pode fazer de novo.

O Congresso também aumenta as despesas com emendas. Como fazer o ajuste fiscal nessa situação? Quanto mais fraco o governo, maior é o preço político para aprovar suas medidas. Isso vai continuar, mas, em um cenário de crise aguda com a disparada do dólar e da inflação, vai prevalecer o instinto de sobrevivência do Congresso. O Brasil sempre tem esse mínimo senso de responsabilidade de chegar à beira do abismo, mas não pular. Se Lula ganhar, não deixará a economia explodir. Já Flávio Bolsonaro, se contar com uma bolha de credibilidade no início do mandato, poderá deixar o Congresso um pouco mais acuado, porque seria a primeira vez desde 2010 que teríamos um presidente forte, com uma maioria sólida e, portanto, votos suficientes para promover mudanças.

Como o senhor avalia a decisão da Suprema Corte americana de anular o tarifaço de Trump? Essa decisão representa um primeiro contrapeso à gestão Trump. Os contrapesos não funcionam só pela força das instituições, mas também a partir do que o tarifaço entregou até agora. A verdade é que Trump não entregou o que prometeu. O Federal Reserve de Nova York, por exemplo, aponta que os consumidores americanos pagaram grande parte da alta das tarifas. Tenho a impressão de que isso terá um efeito cascata sobre outros assuntos como a política monetária. Depois dessa decisão da Suprema Corte, isso será outra área em que Trump não vai interferir tanto quanto se pensava. Wall Street simplesmente não deixará. Então, acho que o maior impacto da decisão sobre o tarifaço é recolocar uma certa estabilidade nas instituições americanas.

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Trump já mostrou que não acatará a decisão. Quanto isso é prejudicial? É claro que esse confronto chama a atenção e gera incertezas, mas eu acho que em breve, os mercados verão esse ato da Suprema Corte como algo positivo, porque mostra que há um contrapeso ao poder imperial do presidente americano. Isso vai reforçar a noção de que haverá uma redução gradual dos juros e não uma queda imediata como Trump gostaria. Haverá uma longa discussão sobre o ressarcimento das tarifas pagas nesse período, estimadas entre 100 e 200 bilhões de dólares. Mas isso não afetará a economia na prática.

Mas quanto essa fricção entre Trump e as instituições é nociva para a economia americana e mundial? Havia três cenários no início do governo. O primeiro era de que não haveria contrapeso nenhum. Por um tempo, o mundo se chocou com seu poder quase ilimitado, que sustentou algumas decisões absurdas. O outro cenário seria de aquiescência completa das instituições às vontades dele. O terceiro é o da confrontação com outros poderes. A verdade é que a confrontação que imponha algum limite a Trump é melhor do que a que não traga nenhum.
Com informações de VEJA

Fonte: Diário Do Brasil

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REVISTA VEJA: ‘Flávio Bolsonaro está mais preparado que o pai para governar’, diz economista