
*Por Ricardo Maravalhas
A proteção de dados no Brasil deixou de ser uma discussão jurídica para se tornar uma questão de estratégia empresarial. Ainda assim, muitas organizações seguem tratando a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) como um checklist burocrático, quando, na prática, ela impõe um novo modelo de governança corporativa. Nesse sentido, existe uma verdade simples, porém incômoda: se a sua empresa não sabe exatamente onde estão os dados pessoais que coleta, ela já está fora da LGPD, mesmo que nunca tenha sofrido um vazamento
A lei não exige apenas consentimentos genéricos e políticas de privacidade no rodapé do site. Ela exige controle, rastreabilidade e responsabilidade sobre todo o ciclo de vida da informação. E isso começa com uma pergunta básica que muitas empresas não conseguem responder: onde, afinal, estão os dados?
A relevância dessa pergunta fica evidente quando observamos os incidentes recentes no Brasil. Em 2023, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) aplicou a primeira multa administrativa da LGPD contra a Telekall Infoservice por tratar dados sem base legal, não indicar encarregado de dados e dificultar a fiscalização. O valor foi de R$14.400, o que acabou impactando na empresa, não só em termos financeiros, mas em credibilidade. O fato é que o recado foi claro: não importa o porte da empresa, a lei vale para todos.

“A frase que define esta década é simples: empresas que não sabem onde estão seus dados não estão apenas vulneráveis, elas estão fora da lei e fora do futuro. A LGPD não é um obstáculo à inovação. É o mapa para inovar sem destruir a confiança”, explica Maravalhas
No mesmo período, a ANPD aplicou sanções ao Instituto de Assistência Médica dos Servidores Públicos Estaduais (IAMSPE) por falhas de segurança e atraso na comunicação de um incidente que expôs dados de servidores públicos, exigindo medidas corretivas e relatórios de conformidade. Casos semelhantes ocorreram na Secretaria de Saúde de Santa Catarina, que foi advertida por falhas na proteção de dados e ausência de relatórios de impacto. Esses episódios mostram que o setor público e o privado estão sob vulnerabilidade crescente.
Em 2024, a ANPD também determinou a suspensão do uso de dados de brasileiros pela Meta para treinar modelos de inteligência artificial, com ameaça de multa diária de R$50 mil em caso de descumprimento, sinalizando que até gigantes globais estão sujeitos à lei brasileira. Esses casos ilustram um ponto central: a LGPD não pune apenas vazamentos. Ela pune desorganização, ausência de base legal, falhas de segurança, falta de transparência e governança inexistente.
O problema é que muitas empresas ainda operam com uma visão fragmentada de dados. Informações pessoais estão espalhadas em CRMs, planilhas internas, ferramentas de marketing, sistemas legados, fornecedores terceirizados, backups e ambientes de nuvem. Sem um inventário completo, não há como cumprir princípios básicos da LGPD, como finalidade, necessidade, segurança e prestação de contas. O dado vira um ativo invisível e, por isso mesmo, incontrolável.
Esse cenário é especialmente crítico porque dados pessoais deixaram de ser apenas ativos estratégicos e passaram a ser passivos regulatórios. A própria LGPD prevê multas de até 2% do faturamento, limitadas a R$50 milhões por infração, além de sanções como bloqueio, eliminação de dados ou suspensão de atividades de tratamento. Ou seja, o risco não é apenas reputacional, mas também operacional.
Na prática, a maioria dos incidentes de segurança não decorre de ataques sofisticados, mas de falhas básicas de governança: armazenamentos na nuvem mal configurados, acessos excessivos, fornecedores sem controle e planilhas compartilhadas indevidamente. Quando uma organização não sabe onde seus dados estão, ela também não sabe quem acessa, por quanto tempo retém, nem como responder a um incidente. Isso não é apenas uma falha técnica: é uma violação estrutural da LGPD.
O mercado já começa a precificar essa realidade. Investidores, parceiros e seguradoras analisam a maturidade em privacidade como critério de risco. Empresas que acumulam dados sem governança estão, na prática, acumulando passivos ocultos. Nesse contexto, privacidade deixa de ser um tema jurídico e passa a ser um tema de estratégia de negócios, confiança e valor de marca.
O novo mínimo aceitável para qualquer empresa em 2026 não é ter uma política de privacidade no site, mas conhecer profundamente o fluxo de dados, mapear sistemas e fornecedores, definir políticas de retenção, implementar controles de acesso e testar planos de resposta a incidentes. Governança de dados não é custo: é infraestrutura essencial para a economia digital
A frase que define esta década é simples: empresas que não sabem onde estão seus dados não estão apenas vulneráveis, elas estão fora da lei e fora do futuro. A LGPD não é um obstáculo à inovação. É o mapa para inovar sem destruir a confiança. E, em um mundo em que confiança virou vantagem competitiva, ignorar a governança de dados é uma estratégia de alto risco. A sua empresa está preparada para a nova era?
Ricardo Maravalhas é fundador e CEO da DPOnet, empresa com mais de 5.000 clientes, que nasceu com o propósito de democratizar, automatizar e simplificar a jornada de conformidade com a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) por meio de uma plataforma SaaS completa de Gestão de Privacidade, Segurança e Governança de Dados, com serviço de DPO embarcado, atendimento de titulares, que utiliza o conceito de Business Process Outsourcing (BPO) e IA integrada (DPO Artificial Intelligence).
