
(Evaristo Sa/AFP)
Por timidez e, na maioria das vezes, por estratégia, o presidente do Congresso costuma manter certa distância dos holofotes. Político tradicional, ele prioriza as articulações de bastidores, faz acordos no fio do bigode, como se diz, e costuma cumprir as promessas. Essas três características combinadas estão na raiz de uma situação que tem provocado as mais diversas especulações em Brasília para tentar explicar o estranho sumiço do senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Nos últimos meses, o parlamentar tem evitado aparecer em público, não concede entrevistas e vem se esquivando de decisões que só ele pode tomar. Resultado: o Parlamento encontra-se praticamente paralisado. A situação chegou a tal ponto que, na última segunda-feira, 23, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça deu 48 horas para que o senador autorizasse a ampliação do prazo de funcionamento da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS. O pedido de prorrogação havia sido apresentado diretamente a Alcolumbre pelo presidente do colegiado mais de 100 dias atrás, mas ele simplesmente ignorou, nunca disse nem que sim nem que não, nunca se pronunciou a respeito e nunca esclareceu o motivo do silêncio. Esse caso é exemplar e explica muito do pretenso mistério.
A CPMI do INSS foi criada em agosto para apurar um dos maiores escândalos de corrupção das últimas décadas. Por anos, sindicatos e associações de classe, mancomunados com lobistas e servidores públicos desonestos, desviaram cerca de 4 bilhões de reais das aposentadorias dos idosos. O grupo falsificava documentos, pagava propina a funcionários do governo para que fechassem os olhos e descontava de maneira ilegal nacos das já minguadas pensões dos mais velhos, que não percebiam o golpe — uma crueldade. A organização criminosa foi desbaratada pela Polícia Federal, o ministro da Previdência perdeu o emprego, alguns dos suspeitos foram presos preventivamente e congressistas colheram assinaturas para instalar a investigação parlamentar. Diante da envergadura do escândalo, do volume de dinheiro desviado e do leque de instituições e pessoas envolvidas na trama, era de supor que revelações surpreendentes surgiriam ao longo dos trabalhos da comissão — e elas realmente surgiram, provocaram um tremendo alvoroço e pararam na antessala do presidente do Congresso.
A primeira: descobriu-se que um dos líderes da quadrilha, o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, tinha uma teia de relações dentro do próprio Congresso. Na sequência, uma reportagem de VEJA revelou que o advogado Paulo Boudens, servidor do Senado, ex-assessor e braço direito de Davi Alcolumbre, havia recebido 3 milhões de reais de uma das empresas da rede do lobista. Não se sabe até hoje o motivo do pagamento e nem o tipo de serviço que teria sido prestado pelo advogado. Buscando alguma pista, a CPMI requisitou os registros de eventuais visitas do lobista aos gabinetes de deputados e senadores, incluindo o do próprio presidente do Congresso. Alcolumbre, justificando que protegia a privacidade dos parlamentares, decidiu manter a informação em sigilo por 100 anos. Ele nunca se manifestou sobre a estranha operação financeira entre o lobista e seu ex-assessor. Boudens é um fantasma que assombra o senador. Em outubro de 2021, uma reportagem de VEJA revelou que Alcolumbre mantinha funcionárias em seu gabinete que devolviam parte dos salários — prática conhecida como “rachadinha”. Na época, Boudens, o então chefe de gabinete, assumiu a responsabilidade pelo crime.
Desde o início das investigações também já se sabia que um dos sindicatos envolvidos no escândalo das aposentadorias tinha como dirigente José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão mais velho do presidente Lula. Depois, descobriu-se que Fábio Luís da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente da República, teria ligações com o Careca do INSS em uma empresa de Cannabis medicinal. A exemplo de Paulo Boudens, Lulinha e Frei Chico nem sequer chegaram a ser instados a se explicar na CPMI. Um acordo entre a bancada governista e aliados do presidente do Congresso garantiu blindagem aos dois grupos.
Essa relação, no entanto, foi abalada por uma série de eventos. No ano passado, o presidente Lula anunciou que pretendia indicar o advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no STF. Alcolumbre se rebelou. Disse a pessoas próximas que havia um acerto anterior com o governo — feito no fio do bigode — de que a vaga na Corte, quando surgisse, seria ocupada pelo senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), aliado de primeira hora. Sentindo-se traído, ameaçou boicotar a indicação. A partir desse momento, a relação do senador com o governo esgarçou. No início de fevereiro, a Polícia Federal bateu à porta do Amapá Previdência (Amprev), fundo comandado por um ex-tesoureiro da campanha de Alcolumbre e que tem como conselheiro um irmão do senador. A instituição, contrariando pareceres técnicos, aplicou 400 milhões de reais em papéis podres do Banco Master. Alcolumbre desconfia que ele é o verdadeiro alvo da operação.
Em novembro do ano passado, chegaram à mesa de Alcolumbre dois pedidos de criação de CPI sobre o caso Master. O chefe do Legislativo os deixou na gaveta. A omissão foi, mais uma vez, parar no STF. A tempestade perfeita que se formou em torno do presidente do Congresso teria levado o parlamentar a tentar se preservar neste momento. “É instinto de sobrevivência”, resume o senador Esperidião Amin (PP-SC). Um interlocutor recorrente do amapaense confirma o momento introspectivo, atribuindo o mergulho e a distância dos holofotes à estratégia que ele costuma usar: recuar antes de reagir. “Neste momento, ele está na alça de mira, com muita espingarda apontada para a cabeça”, diz esse aliado. Preocupado, Alcolumbre telefonou recentemente para Renan Calheiros (MDB-AL), o ex-adversário que já chefiou o Congresso, em busca de conselhos. “Estou apanhando muito”, desabafou. Renan se comprometeu a ajudar. Apesar da aparente fragilidade, o cargo confere ao senador poderes excepcionais. Cabe a ele, entre outras prerrogativas, decidir sobre o andamento de pedidos de impeachment contra ministros do Supremo e marcar as sabatinas de autoridades indicadas para ocupar cargos em tribunais superiores, autarquias, agências reguladoras e embaixadas brasileiras no exterior.
Algumas instituições, por conta da caneta guardada momentaneamente na gaveta de Alcolumbre, estão funcionando de maneira precária. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ), por exemplo, tem três de suas quinze cadeiras vagas. A última sessão do Congresso ocorreu em dezembro. Por conta disso, projetos importantes estão parados e há 77 vetos presidenciais aguardando análise. Alcolumbre também tem adiado reuniões com os líderes de bancadas do Senado para definir um calendário. Parlamentares próximos afirmam que ele está usando a reclusão, o silêncio e os interesses que estão sendo contrariados pela paralisação do Congresso como moeda de troca — e isso vale tanto para o governo quanto para a oposição.
Na terça-feira 24, lideranças do MDB se reuniram com Lula no Palácio do Planalto. Renan Calheiros estava lá. O assunto, claro, era política. O partido deve marchar com o PT em vários estados. Em nível nacional, o grupo mais próximo ao presidente tenta articular o apoio à sua reeleição. Um convite para a vice ajudaria, dizem esses emedebistas. A certa altura, a conversa derivou para a crise que atinge o STF, alguns ministros e os conflitos da Corte com o Legislativo. Lula foi aconselhado a formalizar a indicação de Jorge Messias e ligar para o chefe do Congresso. Um dos presentes garantiu que Davi Alcolumbre não seria mais obstáculo para a aprovação do advogado-geral da União. O senador já estaria, inclusive, aguardando um telefonema do presidente, que se comprometeu a ligar, e se mostrava disposto a restabelecer as boas relações com o governo. O silêncio foi finalmente compreendido. Afinal, em ano eleitoral e diante de tantas turbulências, os dois lados só têm a perder com o afastamento.
Com informações de VEJA
Fonte: Diário Do Brasil
