
Por Renato Pernambucano
Na ilha mediterrânea de Chios, um conflito local sintetiza uma disputa geopolítica crescente: a corrida do Ocidente para reduzir a dependência da China em minerais críticos e garantir cadeias de suprimento estratégicas.
O possível retorno da mineração de antimônio no norte da ilha expõe a colisão entre segurança econômica, transição energética e proteção ambiental — um dilema que tende a se repetir em diversas regiões do mundo.
Antimônio: de obscuro a mineral mundialmente estratégico
O antimônio tornou-se peça-chave na competição tecnológica contemporânea.
O metalóide é utilizado em:
• munições e sistemas de defesa
• sensores infravermelhos e óptica de precisão
• baterias, semicondutores e painéis solares
• aplicações ligadas à inteligência artificial e tecnologias verdes
Durante décadas, a China controlou cerca de 90% da produção global, consolidando posição dominante no processamento e na cadeia de valor.
Com restrições recentes às exportações chinesas, Estados Unidos e Europa passaram a investir bilhões para desenvolver produção doméstica — embora nenhum dos dois possua atualmente minas de grande escala plenamente operacionais.
Chios como nova fronteira mineral europeia
A Grécia surge como candidata natural à expansão da mineração crítica. O país possui reservas relevantes de:
• antimônio
• gálio
• bauxita
• germânio
• potenciais terras raras
Projeções da International Energy Agency indicam que a demanda por minerais críticos pode mais que dobrar até 2030 e triplicar ou quadruplicar até 2050, impulsionada por eletrificação, digitalização e defesa.
Nesse contexto, regiões periféricas como Chios tornam-se palco de novas disputas por recursos.
Incêndios, protestos e uma mina suspensa
O projeto de mineração de antimônio no norte da ilha encontra-se temporariamente suspenso após mobilização comunitária.
Moradores e empresas locais reuniram milhares de assinaturas contra a iniciativa, argumentando riscos ambientais e econômicos.
A tensão aumentou após um incêndio que devastou cerca de 30 mil acres da região — área que coincide amplamente com a zona proposta para mineração e com território protegido pela rede europeia Natura 2000.
Para opositores, o episódio levanta receios de que a degradação ambiental possa facilitar a retomada do projeto.
O dilema grego: potencial econômico versus legado industrial
A história mineral da Grécia ilustra tanto oportunidades quanto riscos. Na Antiguidade, a mineração de prata em Lavrio financiou o poder marítimo ateniense.
Já na era moderna, fracassos industriais deixaram marcas duradouras. A estatal Larco, outrora maior produtora de níquel da Europa, colapsou em 2020 após décadas de dificuldades financeiras, custando bilhões aos contribuintes e recebendo críticas da European Commission por auxílios estatais ilegais.
Esse histórico alimenta cautela diante de novos projetos extrativos.
Europa busca autonomia, mas enfrenta barreiras
A União Europeia vem adotando estratégias para diversificar suprimentos e reduzir dependência externa, mas resultados permanecem limitados.
Relatório recente do European Court of Auditors aponta:
• metas estratégicas pouco fundamentadas
• gargalos em produção e reciclagem
• custos energéticos elevados
• carência tecnológica em processamento
• processos de licenciamento longos e complexos
Projetos estratégicos dificilmente garantirão segurança de abastecimento até 2030, segundo a avaliação.
Antimônio e o custo ambiental da transição verde
Embora essencial para tecnologias limpas e defesa, a mineração de antimônio é considerada altamente poluente.
O mineral é normalmente extraído da estibnita, frequentemente associada a chumbo e arsênio — combinação que pode gerar:
• contaminação de água potável
• bioacumulação em culturas agrícolas
• exposição crônica a metais pesados
• riscos de câncer e distúrbios cardiovasculares e respiratórios
Impactos ambientais persistem por décadas após o encerramento das operações, configurando riscos cumulativos.
Residentes locais lembram que minas antigas da região deixaram histórico de doenças ocupacionais e acidentes fatais entre trabalhadores.
Segurança econômica versus soberania ambiental
A tensão em Chios reflete um padrão global emergente: a transição energética e digital depende de materiais cuja extração gera impactos ambientais significativos.
Para a Europa, a alternativa é um trade-off estratégico:
• aceitar dependência externa, sobretudo da China
• ou expandir mineração doméstica enfrentando oposição social e ambiental
A Eldorado Gold oferece exemplo dessa dinâmica: seu projeto Skouries, no norte da Grécia, enfrentou anos de atrasos e protestos antes de previsão de produção comercial em 2026.
Uma prévia do conflito mineral do século XXI
A disputa em Chios antecipa debates que tendem a intensificar-se globalmente.
O avanço de políticas industriais e de segurança econômica deve ampliar projetos extrativos em regiões sensíveis, onde questões como conservação ambiental, identidade local, turismo, agricultura e autonomia energética passam a competir diretamente.
Assim, a pequena ilha grega não é apenas um caso local, mas um microcosmo da nova geopolítica dos recursos, na qual a busca por soberania tecnológica redefine territórios, economias e comunidades inteiras.
Fonte: The Époch Times e The Époch Times Brasil
