REPRODUÇÃO O ANTAGONISTA

A descoberta de quase 1.500 documentos internos de uma unidade de inteligência russa expôs a dimensão de uma rede global de desinformação operada pelo Kremlin. Os arquivos, analisados pelos jornalistas Léa Peruchon e Eloïse Layan, e publicados pela plataforma Forbidden Stories, descrevem como a organização conhecida como “A Companhia” atuou em pelo menos 30 países entre janeiro e outubro de 2024, com um orçamento total de US$ 7,3 milhões – cerca de US$ 750 mil por mês.

A estrutura foi criada por Yevgeny Prigozhin, ex-chefe do Grupo Wagner e figura próxima ao ditador Vladimir Putin. Após a morte de Prigozhin, em agosto de 2023, a organização passou ao controle direto do Serviço de Inteligência Exterior russo (SVR) e continuou operando com cerca de 90 agentes especializados.

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Dinheiro, artigos e bandeiras em estádios

Os documentos detalham os valores pagos em cada operação. Em agosto de 2024, US$ 340 mil foram destinados ao projeto antiocidental chamado “Magadán”. Artigos jornalísticos chegaram a custar US$ 10 mil por texto – caso de uma publicação sobre a Líbia. Na Argentina, a rede pagou até US$ 2.500 a jornalistas que não foram identificados nos arquivos.

Também em agosto de 2024, a organização assumiu internamente a responsabilidade por uma ação específica no país: a exibição de uma faixa contra o apoio à Ucrânia durante uma partida de futebol no estádio Libertadores de América. A iniciativa integrava uma série 

de campanhas voltadas a retratar a Ucrânia como um Estado que “apoia terroristas na África”.

Na Bolívia, após a crise política de 2024, a rede enviou especialistas a La Paz para controlar a narrativa em torno do governo do então presidente Luis Arce. O agente Sergei Vasilievich Mashkevich é apontado nos documentos como o responsável por coordenar a chegada desses profissionais e por definir as estratégias de contenção política e midiática.

África como campo de testes

A República Centro-Africana funcionou como laboratório para os métodos da organização. Um dossiê interno datado de agosto de 2023, denominado “Confederação da Independência”, afirma: “Perder o controle da situação na República Centro-Africana enfraquece a autoridade da Rússia em todo o continente”.

O modelo testado ali foi replicado em países como Mali, Burkina Faso e Níger – três nações que passaram por golpes militares acompanhados de retórica antiocidental. Os arquivos indicam que a organização se atribui papel determinante na formação da Aliança dos Estados do Sahel, criada em setembro de 2023.

As ações incluíram o bloqueio de veículos de imprensa europeus, a expulsão de organizações não governamentais e o encerramento de acordos de cooperação técnico-militar com países ocidentais.

Na Namíbia, antes das eleições de 2024, agentes difundiram uma carta falsa atribuída ao Reino Unido, acusando a oposição de receber financiamento estrangeiro em troca de concessões no setor de petróleo. O conteúdo alcançou 1,7 milhão de pessoas nas redes sociais, segundo os relatórios internos da própria rede.

No Senegal, documentos de agosto de 2023 descrevem um plano para instalar um governo favorável ao Kremlin, com pedido formal de apoio do SVR às forças armadas locais. O objetivo declarado era “suprimir ou estimular protestos civis, conforme o cenário selecionado”.

Estrutura que sobreviveu ao seu criador

Com a morte de Prigozhin, a organização se rearticulou sem interromper suas atividades. Sergei Sergeyevich Klyukin, responsável por 34 analistas que monitoram 15 países, e Artem Vitalyevich Gorny, encarregado das finanças, seguem operando a rede a partir de escritórios em São Petersburgo e em campo, com deslocamentos documentados para cidades como Bamako, Johannesburgo e Dubai.

Os documentos registram até detalhes simbólicos: em 23 de agosto de 2024, a organização adquiriu 245 cravos por 12.347 rublos (cerca de US$ 160) para uma homenagem a Prigozhin no primeiro aniversário de sua morte.

Os arquivos apresentam, porém, uma limitação metodológica relevante: seus autores tendem a superestimar resultados e a se atribuir conquistas que podem não ter relação direta com suas ações. Não há como verificar, de forma independente, a extensão real de cada operação descrita.
Com informações de O ANTAGONISTA

Fonte: Diário Do Brasil

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Dossiê Expõe Rede de Fake News Financiada pelo Kremlin