Pedro Ladeira – 11.mar.25/Folhapress

No vídeo gravado em 2016, um homem vestido com uma farda preta usa um terçado para cortar pés de maconha numa plantação no Paraguai. O ceifador é Alexandre de Moraes, hoje ministro do STF, que na época era ministro da Justiça. A filmagem mostrava sua política de guerra às drogas, que, segundo o áudio da peça, envolvia parceria transnacional para “erradicação da maconha”.

Esse modo espetaculoso e radical de atuação também é visto no modo como Moraes trata a questão das redes sociais. Sobra incitação açodada ao poder de polícia e falta compreensão sobre tecnologia e meios de comunicação.

Em entrevista para a revista americana The New Yorker, publicada no dia 7, o magistrado disse que “se Goebbels estivesse vivo e com acesso ao X, os nazistas teriam conquistado o mundo”.


A pobreza da argumentação já começa com a falácia retórica de redução a Hitler. Para piorar, a afirmação não faz sentido.

As redes sociais quebraram o paradigma comunicacional do século 20, segundo o qual uma fonte emissora ativa transmite informações para uma massa de receptores passivos.

Goebbels fechou jornais, censurou os remanescentes e criou a Câmara da Cultura do Reich, que controlava rádio, cinema, imprensa, literatura e artes.

Já num ecossistema midiático em rede, consumidores também são produtores, usuários escolhem caminhos diversos para obter informações e a quantidade de dados é incomensurável. O escrutínio do poder público se fortalece e segredos são mais facilmente revelados.

Goebbels teria censurado o X. Não à toa, a rede social foi banida em países de governos autoritários, como Venezuela, Irã e Rússia. No ano passado, ela ficou bloqueada durante três meses no Brasil por ordem de Moraes.

Assim como a maconha, redes sociais não são inócuas e podem ser reguladas, mas sem sensacionalismo, com debate racional e respeito a princípios do Estado de Direito, como a liberdade de expressão e o devido processo legal —o STF, com concentração de poder nas decisões de Moraes, tem cometido falhas nessa seara.

Fonte: Folha de S. Paulo

Fonte: Diário Do Brasil

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Folha de S. Paulo: Goebbles teria censurado o X, diz ministro