
“Talvez, sem perceber, você não esteja buscando sua melhor versão.
Esteja tentando sobreviver a uma versão impossível de sustentar”, explica a psicóloga Edilene Nassar
* Por Edilene Nassar
“Estou cansada de viver…”
Dizem assim, com a voz mais baixa e um suspiro que parece carregar dias, meses, às vezes anos.
Um desabafo que quase sempre vem acompanhado de um certo constrangimento, como se estivessem falhando por não dar conta da própria vida.
Mas não é, necessariamente, vontade de desistir da vida.
É exaustão de viver desse jeito.
E talvez você também saiba exatamente do que isso se trata.
Vivemos em um tempo que nos ensinou a acreditar que sempre podemos mais.
Mais produtividade.

Mais equilíbrio.
Mais resultado.
Mais controle.
E, no meio disso tudo, uma frase se tornou quase uma obrigação silenciosa:
“Seja a melhor versão de si mesmo.”
Mas… qual é essa versão?
A que nunca para?
A que dá conta de tudo?
A que continua, mesmo quando já está exausta?
Ou aquela que aprendeu a ignorar os próprios limites para não se sentir insuficiente?
Talvez, sem perceber, você não esteja buscando sua melhor versão.
Esteja tentando sobreviver a uma versão impossível de sustentar.
O filósofo Byung-Chul Han descreve esse tempo como a sociedade do desempenho, um modelo em que a cobrança já não vem só de fora, mas passa a morar dentro.
E é justamente esse funcionamento que, como consequência, nos conduz ao que ele chama de sociedade do cansaço, marcada por um esgotamento que não vem da falta, mas do excesso.

Porque agora não é mais alguém exigindo.
É você.
Se cobrando.
Se comparando.
Se exigindo… mesmo quando já está no limite.
E isso cansa de um jeito profundo.
Cansa porque você tenta descansar, mas a mente não desacelera.
Cansa porque você para, mas se sente culpado por parar.
Cansa porque, mesmo fazendo muito, sente que ainda não é suficiente.
E, sem perceber, passamos a viver nesse ciclo contínuo de fazer acontecer fora, enquanto, por dentro, a própria vida desacontece.

Não porque somos fracos,
mas porque aprendemos a funcionar assim.
Pensamentos rápidos, quase invisíveis, vão guiando tudo:
“Eu deveria estar melhor.”
“Não posso falhar.”
“Preciso dar conta.”
E você acredita.
Não porque quer se machucar,
mas porque aprendeu que precisava ser assim.
Por isso, antes de se cobrar mais uma vez, talvez seja hora de fazer diferente.
De olhar para si com um pouco mais de gentileza.
De perceber que essa exaustão não é fraqueza.
É um sinal.

Um pedido silencioso de que algo precisa mudar — não fora, mas dentro.
Voltar para si não é desistir da vida.
É parar de se abandonar nela.
É perceber o pensamento antes de obedecer a ele.
É questionar a cobrança antes de se punir por não alcançar.
Talvez o seu cansaço não venha da vida que você leva, mas da forma como você tem se exigido para viver.
E, às vezes, o que você precisa não é ser melhor.
É ser mais humano consigo mesmo.
*Edilene Nassar
Psicóloga fundadora do Instituto Gestão Mental, criou o método VOLTE. Atua com palestras, treinamentos, atendimentos clínicos e consultoria em empresas. Também é Consteladora familiar, com método próprio de Alinhamento sistêmico em três sessões.
