Cientistas registraram pela primeira vez faíscas elétricas emitidas por folhas de árvores durante tempestades

Raios são o fenômeno elétrico mais visível durante uma tempestade, mas podem não ser os únicos a atingir as florestas. Pela primeira vez, cientistas registraram folhas de árvores emitindo pequenas descargas elétricas enquanto nuvens carregadas passavam por cima, revelando que copas inteiras podem liberar correntes quase imperceptíveis no ar.
O fenômeno, conhecido como descarga corona, ocorre quando a carga elétrica acumulada na atmosfera encontra pontos afiados, como as extremidades das folhas. Em vez de um único relâmpago, a floresta pode experimentar milhares de microdescargas simultâneas, formando um tipo de “cintilação” elétrica invisível a olho nu.
A descoberta foi feita com a ajuda de um telescópio sensível à luz ultravioleta montado em uma van. O equipamento permitiu que pesquisadores detectassem clarões que normalmente passariam despercebidos sob o céu carregado. Em um dos registros mais detalhados, durante uma tempestade de verão, a câmera permaneceu apontada por 90 minutos para três galhos de uma árvore chamada liquidâmbar. Nesse intervalo, foram identificadas 41 descargas distintas partindo das pontas das folhas.
Alguns desses pulsos duraram até três segundos. O brilho saltava de uma folha para outra conforme a distribuição de carga variava nas nuvens acima.
Segundo o meteorologista Patrick McFarland, da Universidade Estadual da Pensilvânia, o fenômeno foi observado em diferentes tempestades e espécies de árvores, indicando que pode ser mais comum do que se imaginava.

Explicação física dos ‘minirraios’
A explicação física começa nas nuvens de tempestade, onde cargas positivas e negativas se separam. O solo abaixo passa a acumular carga oposta, que se propaga pelas raízes e pelo tronco das árvores até alcançar os pontos mais altos da copa. Nas extremidades afiadas das folhas, essa energia se concentra e pode ionizar o ar ao redor, produzindo a corona – um brilho fraco e frio, muito menos intenso que um raio tradicional.
Embora não quebre galhos nem cause incêndios, a descarga pode afetar o tecido vegetal. Em experimentos de laboratório, as coronas danificaram a cutícula (camada cerosa que protege a folha contra a perda de água) e deixaram pequenas marcas de queimadura.
Uma única ocorrência pode gerar efeitos mínimos, mas a repetição ao longo de várias tempestades pode ampliar os danos. Ainda não está claro como diferentes espécies reagem ao longo do tempo ou se há impacto significativo na fotossíntese.
Para medir a intensidade do fenômeno, os pesquisadores converteram o brilho ultravioleta em estimativas de corrente elétrica. Os valores registrados indicaram fluxos da ordem de um milionésimo de ampère por galho. Apesar de pequenos, esses pulsos representam energia suficiente para provocar alterações químicas locais.
Além de possíveis efeitos sobre as folhas, as descargas também podem modificar a composição do ar nas copas. Estudos anteriores sugerem que a corona pode estimular a formação de substâncias reativas, como o radical hidroxila, que participa da degradação de poluentes atmosféricos. Esse processo pode influenciar temporariamente níveis de ozônio e partículas, embora o impacto tenda a ser localizado e dissipado rapidamente por vento e chuva.
Observar o fenômeno, no entanto, não é simples. O vento constante durante tempestades altera o ângulo das folhas, o que muda a intensidade da descarga. Superfícies molhadas também redirecionam a corrente, fazendo com que o brilho salte entre diferentes pontas. Folhas sobrepostas podem bloquear a visão da câmera, e descargas mais fracas provavelmente ficaram fora do registro, o que sugere que a atividade real pode ser ainda maior do que a detectada.

Próximos passos
Mesmo com essas limitações, sinais semelhantes foram identificados em outras quatro tempestades monitoradas entre a Flórida e a Pensilvânia. A equipe agora pretende expandir o mapeamento para diferentes tipos de florestas e combinar imagens ultravioleta com análises detalhadas das folhas após eventos climáticos intensos.
A instalação de sensores de qualidade do ar próximos às copas também pode ajudar a quantificar o impacto químico dessas microdescargas. Segundo os pesquisadores, compreender esse processo pode aprimorar modelos de saúde florestal e de qualidade do ar, além de revelar uma nova dimensão da interação entre vegetação e clima.
O estudo foi publicado na revista Geophysical Research Letters.
Fonte: Olhar Digital
