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REPRODUÇÃO MARINHA DO BRASIL/ REUTERS

O porta-aviões Nimitz chegou ao Rio de Janeiro no mesmo dia em que Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump se encontraram na Casa Branca. Se alguém tivesse planejado as duas cenas, não poderia ter feito melhor. A entrada na Baía da Guanabara do mais antigo porta-aviões nuclear em atividade, onde ficou quatro dias ancorado, marcou a retomada dos exercícios conjuntos entre militares brasileiros e americanos, suspensos, em 2025, pelo Ministério da Defesa, no momento mais agudo da crise diplomática entre os dois países.

O porta-avões Nimitz acompanhado pela Fragata Defensora e pelo submarino Humaitá, da marinha do Brasil, durante os exercícios na costa fluminense Foto: Marinha do Brasil
Naqueles dias, Eduardo Bolsonaro comia pork ribs e passeava na Disney enquanto comemorava as tarifas de 50% impostas pelo presidente americano aos produtos brasileiros para impedir o desfecho do processo judicial que ameaçava mandar para cadeia o pai dele, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro defendia os dois e Trump em manifestações na Avenida Paulista que desfraldavam a bandeira americana. Esse era o filme de quem pensava que apanhar dinheiro com banqueiro enrolado é só um negócio entre particulares.

O Ministério da Defesa anunciou ainda em agosto de 2025 o cancelamento da segunda fase da Operação Formosa, dos fuzileiros navais com os americanos, e da CORE, com o Exército dos dois países, depois que o US Southern Command americano cancelara um evento que envolvia a Força Aérea Brasileira (FAB) e o US Space Command, a força aeroespacial americana. Oficialmente, o motivo foi a necessidade de conter gastos. O governo buscava, na verdade, evitar novos dissabores com Washington e os bolsonaristas.

Em conversas reservadas, oficiais das três forças bem como seus colegas americanos, faziam questão de afirmar que a diplomacia militar mantinha seus canais de conversa preservados, que os atritos estavam todos no campo da política dos governos. O Exército não retirou nenhum dos cerca de 120 militares que mantinha nos EUA, nem seus dois generais – um adido em Washington e um oficial no U.S Southern Command. Eles continuaram atuando em escolas, fazendo cursos e cuidando da cooperação com o Exército Americano. A Marinha também manteve cerca de uma centena de militares nos EUA e um adido naval, um contra-almirante.

Fuzileiros navais brasileiros e franceses participaram do exercício de desembarque da Operação Jeanne d’Arc , no Rio, em abril após retomada das manobras com forças estrangeiras Foto: Corpo de Fuzileiros Navais
A medida, então anunciada pelo ministro da Defesa, José Múcio, atingia não apenas os exercícios com os americanos, mas com todas as demais forças estrangeiras, como os mantidos com argentinos e franceses. O degelo começou neste ano pouco antes da chegada do Nimitz à Guanabara. Dele participaram 900 militares da Marinha do Brasil e 800 da marinha e do exército franceses na Operação Jeanne d’Arc, na costa do Rio de Janeiro.

O exercício anfíbio envolveu um porta helicópteros francês, um navio de desembarque de carros de combate do Corpo de Fuzileiros Navais, blindados, helicópteros, duas fragatas e um submarino. O almirante Carlos Chagas Vianna Braga, comandante-geral do Corpo de Fuzileiros Navais, afirmou à coluna que a cooperação do Brasil com a França nas operações anfíbias “representa um caso de grande sucesso e de confiança mútua”.

E ninguém desejava prejudicá-la. A Operação Jeanne d’Arc do ano passado havia ocorrido em Fortaleza, antes da proibição do Ministério da Defesa. Segundo Chagas, os fuzileiros navais do Brasil têm participado de operações na Europa a bordo de navios franceses e os fuzileiros navais franceses têm vindo anualmente ao Brasil para “participar dos nossos treinamentos”.

Desembarque de blindados Clanf do Corpo de Fuzileiros Navais, no Rio: brasileiros e franceses participaram do exercício Jeanne d’Arc Foto: Marinha do Brasil
O cronograma com os franceses para este ano envolve, ainda, segundo o almirante, um pelotão francês em cada um dos principais treinamentos brasileiros: Furnas, Formosa e Uanfex. “A recente operação Jeanne d’Arc 2026, representa, de forma clara, a maturidade da cooperação entre as Marinhas do Brasil e da França. Em função do conflito no Oriente Médio, a França decidiu alterar o roteiro da missão e consultou a Marinha do Brasil sobre a possibilidade de realizar uma operação anfíbia aqui no País”, afirmou.

O passo seguinte da Marinha foi a retomada dos exercícios com os americanos, algo que no nível político se afigurava um pouco mais delicado. E foi assim que o Nimitz participou da 11.ª edição da Operação Southern Seas, o exercício conjunto das marinhas dos dois países. Com cerca de 60 aeronaves embarcadas – caças F/A-18 Super Hornet e EA-18G Growler, para guerra eletrônica – e uma tripulação de cerca de 5 mil homens, o gigante de 330 metros de comprimento havia deixado a costa oeste americana rumo à costa leste e parado, antes, em três países cujos governos são mais afinados com Trump: Equador, Chile e Argentina.

Em todos eles, a embarcação americana e o grupo de navios que o acompanha participaram de exercícios com as marinhas locais. Até a Embaixada dos EUA em Brasília, acostumada nos últimos meses à diplomacia das redes sociais da Era Trump, soltou uma nota neutra, sem nem mesmo mencionar o recente encontro dos dois chefes de Estado: “A missão Southern Seas, realizada desde 2007, demonstra o compromisso contínuo dos EUA com a segurança marítima, a liberdade de navegação e o fortalecimento de parcerias no Hemisfério Ocidental”.

Militares americanos recebem de colegas brasileiros instrução de combate na selva em Belém antes de seguirem para o Amapá para a Operação CORE 23 Foto: Comando Militar do Norte/Divulgação
Esse também foi o desejo do comandante da Marinha, almirante Marcos Sampaio Olsen: deixar de fora do exercício naval quaisquer atritos ou acordos entre os governos. É o que também tem procurado fazer o comandante do Exército, general Tomás Miguel Ribeiro de Paiva ao pregar “silêncio, retidão e prontidão”. Desde que assumiu o comando da Força Terrestre, Tomás tem sido alvo de perseguição da extrema direita que o acusa de não ter cometido um crime: dar um golpe de estado para impedir a posse de Lula ou por “prestar continência a um ladrão”.

O deputado federal Marcel Van Hattem (Novo-RS) é um deles. Ele prepara uma ofensiva contra os três chefes militares para questioná-los agora no Congresso sobre gastos nos programas estratégicos da Defesa. Há quem diga em Brasília que ele está municiado com dados de auditorias feitas nas contas dos programas pelos técnicos do Tribunal de Contas da União (TCU), semelhantes à que foi feita nas compras dos escritórios mantidos pelas três forças em Washington. Divulgada em novembro de 2025, ela revelou o que seriam irregularidades graves.

De acordo com o documento, haviam sido verificados repasses a empresas de fachada, bem como os técnicos do TCU verificaram a suspeita de conluio e de fraudes em licitações, além de uso irregular de cartões de crédito e repasses em dólar a empresas nacionais. O problema para Van Hattem usar esses dados é que as compras foram feitas entre 2018 e 2022, o que, do ponto de vista político, atingiria o período do governo de Jair Bolsonaro. Mas a racionalidade não é a principal preocupação de quem deseja produzir vídeos para as redes sociais…

O submarino Humaitá, da marinha do Brasil, ao lado do porta-aviões Nimitz durante a operação Southern Seas Foto: Marinha do Brasil
À esquerda, Tomás enfrenta ainda as desconfianças de alguns que enxergam nele alguém próximo do general Villas Boas, ex-comandante do Exército, e de seu tuite às vésperas do julgamento no STF do habeas corpus que selou o destino de Luiz Inácio da Silva, encarcerado por 581 dias no Paraná antes de o mesmo Supremo anular tudo, abrindo caminho à volta de Lula à Presidência da República, em 2022. Ou seja, a tarefa para Tomás é mais árdua do que a de Olsen e a do comandante da FAB, brigadeiro Marcelo Damasceno.

A despeito de toda conturbação do mundo político, o Exército se prepara para participar do exercício CORE deste ano, o que deve acontecer nos EUA. Da mesma forma que a Marinha e a FAB, ele procura mostrar que a tempestade das tarifas e os conflitos entre as visões dos dois presidentes sobre a geopolítica mundial não afetaram o relacionamento entre os militares dos dois países. O desenvolvimento autônomo e a procura de novos parceiros ocidentais para essa tarefa não significam o esfriamento das relações Brasil-EUA, apenas a adaptação da defesa dos interesses nacionais ao novo cenário geopolítico global.

Enquanto os ecos da conversa entre Lula e Trump ainda eram discutidos e digeridos por aqui se deslocavam pelas águas do Rio de Janeiro o Nimitz, o destroyer USS Gridley e o navio-tanque USNS Patuxent, da US Navy, ao lado do grupo-tarefa brasileiro composto pela fragata Defensora, pela Corveta Barroso e pelo submarino Humaitá. Ainda que os chefes militares queiram – e devam – separar os dois ambientes, é inegável que o reinício dos exercícios conjuntos é um sinal claro do estágio atual das relações entre os dois governos.
Com informações de ESTADÃO

Fonte: Diário Do Brasil

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