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Dormir pouco já é amplamente reconhecido como um perigo à saúde. A privação de sono está ligada a uma série de problemas, que vão de alterações metabólicas ao aumento do risco cardiovascular. Mas o outro extremo começa a chamar a atenção da ciência: os problemas de dormir demais.

No ano passado, uma metanálise que reuniu 79 estudos mostrou que pessoas que passam mais de nove horas por noite dormindo apresentam maior risco de doenças crônicas e mortalidade, em comparação com aquelas que dormem entre sete e oito horas. Mais recentemente, um estudo publicado na Plos One concluiu que o sono de longa duração pode estar associado a uma maior probabilidade de desenvolver demência. Outra pesquisa recém-publicada, dessa vez na Nature, indicou que dormir menos de seis horas ou mais de oito horas estava relacionado a um envelhecimento precoce de todo o organismo.

Embora as associações sejam consistentes, elas não indicam necessariamente uma relação de causa e efeito. Especialistas em sono explicam que dormir demais pode ser menos um fator de risco isolado e mais um sinal precoce de alterações no organismo. Além disso, o sono muito prolongado costuma aparecer associado a condições como depressão, apneia, inflamação crônica e má qualidade do descanso.

Nesse cenário, o principal desafio é justamente distinguir quando o excesso de sono é um hábito individual e quando ele funciona como um alerta de que algo não vai bem.
O papel do sono
Para entender essa relação, é preciso ter em mente que o sono é fundamental para a regulação de funções essenciais do nosso corpo. “Não é apenas um período de repouso. Ele participa da regulação metabólica, cardiovascular, imunológica, hormonal, cognitiva e emocional”, explica o psiquiatra Alexandre Pinto de Azevedo, coordenador do Programa de Transtornos do Sono do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

De acordo com ele, durante a noite o corpo realiza processos como consolidação da memória, regulação inflamatória e equilíbrio do sistema nervoso, funções que não acontecem da mesma forma durante o período de vigília. Para ter ideia, é durante a noite que o cérebro ativa mecanismos de “limpeza”, eliminando substâncias potencialmente tóxicas associadas a doenças neurodegenerativas. “Esse processo ocorre principalmente durante o sono profundo. Quando o sono é insuficiente ou de má qualidade, esse sistema pode não funcionar adequadamente”, explica o neurologista Lucio Huebra, membro da Academia Brasileira do Sono (ABS).

Essa complexidade ajuda a explicar por que tanto a falta quanto o excesso de sono aparecem associados a piores desfechos de saúde. A literatura descreve uma curva em “U”, em que os riscos aumentam nas duas pontas. “Um sono em duração menor do que o necessário, mas também maior do que o suficiente, está relacionado a maior risco de morbidade e mortalidade. Quando o tempo de sono se prolonga de forma persistente, especialmente com sintomas como cansaço ou sonolência diurna, é preciso investigar”, ressalta Andrea Cecilia Toscanini, presidente do Comitê do Sono da Associação Paulista de Medicina.

Na prática clínica, o sono excessivo, normalmente acima de nove horas, costuma funcionar como um marcador de problemas de saúde já existentes, algumas vezes ainda não diagnosticados. “A necessidade maior de sono pode refletir doenças aparentemente silenciosas, como depressão, apneia do sono ou outros distúrbios. Quando o sono não está bom, o corpo precisa de mais horas para tentar cumprir as funções noturnas”, explica Andrea.
Outro ponto importante é que dormir mais horas não significa, necessariamente, dormir melhor. “Uma pessoa pode dormir nove ou dez horas e, mesmo assim, ter um sono superficial ou não restaurador justamente porque podem existir outros problemas associados”, explica Azevedo.
Existe janela ideal?
Não existe um número mágico de horas de sono ideal. Essa necessidade varia ao longo da vida e também de pessoa para pessoa. De modo geral, crianças e adolescentes precisam dormir mais. Já na vida adulta a chamada “janela ideal” costuma ficar entre sete e oito horas por noite. Por isso, os especialistas reforçam que dormir regularmente mais de nove horas merece atenção, especialmente se houver mudança no padrão habitual, o que pode ajudar a diferenciar um traço individual de um possível sinal de alerta.

“Existe uma condição chamada dormidor longo, que é geneticamente determinada e faz com que as pessoas precisem de mais horas de sono, chegando a nove ou dez horas. Mas, fora esses casos, que geralmente se manifestam desde a infância, dormir mais de nove horas pode ser um sinal de que alguma coisa não está bem. Para diferenciar causa e consequência, é fundamental avaliar a história do paciente, fazer uma boa anamnese e, quando necessário, exames específicos”, frisa Andrea.

Estudos mostram, por exemplo, maior risco de problemas cardiovasculares, diabetes e AVC entre pessoas que dormem mais, mas, como reforçado pelos especialistas, o sentido dessa relação nem sempre é direto. “Em muitos casos, o excesso de sono pode ser consequência, não causa. Uma pessoa com doença cardiovascular, diabetes ou depressão pode dormir mais por fadiga ou baixa energia”, afirma Huebra.

Os especialistas defendem que o equilíbrio continua sendo fundamental: não se trata de dormir o máximo possível, mas de dormir o suficiente e bem. “Em um sono saudável, o objetivo não é dormir mais, mas dormir com qualidade, regularidade e sensação de restauração. Quando o corpo pede horas extras de descanso, o motivo nem sempre é simples e pode ser um sinal de que algo precisa ser investigado, conclui Huebra.
Com informações de ESTADÃO

Fonte: Diário Do Brasil

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