
Imagem criada por Ariana Cohen-Halberstam com foto de Unsplash/Jakub Żerdzicki.
Por Michael Blanding
Com a participação de
Maria P. Roche
Sua próxima grande ideia criativa pode surgir em um parque do bairro, em vez do escritório. Pesquisas de Maria Roche sugerem que passar tempo em espaços verdes públicos pode ser um poderoso catalisador para a inovação.
Uma caminhada em um parque do bairro durante o expediente pode proporcionar mais do que apenas respirar ar fresco. Pesquisas mostram que contemplar um ambiente verde pode servir como fonte de inovação, abrindo a mente para novas ideias e potencialmente desencadeando descobertas criativas.
Por um lado, um grupo diversificado de visitantes tende a frequentar esses espaços públicos compartilhados, muitas vezes em busca de atividades de lazer informais, desde crianças brincando em parquinhos até adultos relaxando em bancos.
Essa exposição a pessoas fora de nossos círculos profissionais e sociais típicos pode inspirar novas maneiras de pensar e resolver problemas, afirma Maria Roche, professora assistente da Harvard Business School.
Todo mundo vai ao parque — não importa quanto dinheiro você ganhe, qual seja sua idade, qual religião ou partido político, nada disso importa.
“Todo mundo vai ao parque — não importa quanto dinheiro você ganhe, sua idade, sua religião ou partido político, nada disso importa”, diz Roche, que tem predileção por parques perto dos lugares onde morou, desde El Retiro em Madri até o Piedmont Park em Atlanta. “É um ótimo espaço de igualdade.”
Além disso, a falta de estrutura pode tornar os espaços verdes locais férteis para o desenvolvimento de novas ideias, especialmente para inventores, que podem observar os desejos e necessidades de outras pessoas e gerar ideias para novos produtos.
“Talvez [alguém] observe um pai dobrando um carrinho de bebê pela primeira vez e perceba que não é nada intuitivo”, levando essa pessoa a desenvolver um novo design, diz Roche.
Interações não planejadas também podem desencadear ideias inovadoras, afirma Roche no artigo ” Parques e Invenção “, atualizado em junho e escrito em conjunto com Luisa Gagliardi, professora assistente da Universidade Bocconi, em Milão, Itália.
No artigo, os pesquisadores observam que Antje Danielson e Robin Chase iniciaram uma conversa espontânea sobre os desafios de transporte no bairro enquanto observavam seus filhos brincando no parque — o que levou as duas a criarem a empresa de compartilhamento de viagens Zipcar.
As conclusões podem ser especialmente relevantes, visto que os horários de trabalho híbridos e remotos reduzem o tempo gasto em escritórios tradicionais, tornando os bairros e o ambiente cotidiano dos funcionários fontes de inspiração mais importantes.
A proximidade de parques influencia a criatividade
Tanto Gagliardi quanto Roche já estudaram o impacto do ambiente na inovação e no empreendedorismo. Roche, por exemplo, examinou como o layout dos escritórios e as
comodidades do bairro afetam a inovação, descobrindo que a proximidade física e as oportunidades de interação informal podem influenciar o compartilhamento de conhecimento e o desempenho da empresa.
Para investigar se os parques estimulam a criatividade, os pesquisadores examinaram dados sobre inventores que vivem em grandes cidades do Reino Unido, incluindo seus endereços residenciais, proximidade a parques e o número e tipos de patentes que obtiveram.
Além disso, os pesquisadores analisaram os resultados de uma pesquisa que perguntava aos inventores onde eles buscavam inspiração. Ao criar um conjunto de dados com quase 80.000 invenções em grandes cidades inglesas ao longo de mais de 40 anos, entre 1977 e 2018, os pesquisadores descobriram:
• A distância até o parque mais próximo não influenciou o número médio de invenções por inventor, que se manteve estável em cerca de 1,38 por ano.
• Por outro lado, a proximidade de parques pareceu influenciar a criatividade dessas invenções.
A inovação disruptiva diminui à medida que a distância dos parques aumenta.
Pesquisadores avaliaram patentes de 1977 a 2018 para entender a proximidade entre a residência de inventores em áreas urbanas e parques.
Os pesquisadores utilizaram uma medida de inovação conhecida como índice de disruptividade, que essencialmente demonstra o quanto a invenção difere do conjunto de tecnologias existentes na mesma área. Eles descobriram:
• Os inventores que se encontravam nos 5% melhores da amostra, que viviam em média a meio quilômetro de um parque, foram 21% mais disruptivos com suas invenções do que aqueles que se encontravam nos 5% piores, que viviam em média a quase 8 quilômetros de distância.
• Os inventores que moravam mais perto de parques tinham maior probabilidade de ter suas patentes citadas por outros inventores, o que demonstra a importância de suas invenções.
“Você pode inventar algo totalmente fora do comum, mas ninguém se importa”, diz Roche. “Mas se as pessoas estão citando a invenção, isso indica o quão útil e importante ela é.”
Criar produtos voltados para visitantes de parques
Além disso, os pesquisadores descobriram que os inventores localizados mais perto de parques estavam criando produtos e serviços voltados principalmente para crianças e jovens adultos — grupos que tendem a se reunir em parques, mas que muitas vezes são mal atendidos pelos inventores, afirma Roche.
Entre as invenções criadas por quem mora perto de parques, estão: uma patente para um carro de controle remoto equipado com uma câmera que envia imagens de realidade aumentada para uma tela portátil; uma cadeirinha de carro inovadora que pode ser travada e destravada da base para transportar uma criança para fora do carro; um novo modelo de mamadeira; e um novo sorvete de chocolate.
Sair e ver os problemas enfrentados por pessoas reais pode mostrar uma nova demanda por produtos que não existia antes, o que pode lhe dar uma vantagem.
Os pesquisadores encontraram mais evidências da influência dos parques nos resultados de uma pesquisa que mostrou que os inventores que moravam mais perto de parques eram mais propensos a dizer que suas invenções surgiram durante o “tempo de lazer”.
Essencialmente, diz Roche, os resultados mostram que os parques parecem funcionar como uma “infraestrutura de conscientização”, aumentando a exposição dos inventores a diversos usuários e problemas cotidianos que, de outra forma, poderiam estar fora de seu campo de visão.
Como as empresas podem incentivar a inovação
Como os resultados sugerem que a inovação é influenciada não apenas pelo local de trabalho, mas também pelo que as pessoas observam em seus ambientes cotidianos, a Roche afirma que os líderes empresariais podem tomar as seguintes medidas para impulsionar o pensamento criativo:
Considere o acesso ambiental nas estratégias de talento e localização.
As empresas podem querer considerar comodidades residenciais, como acesso a parques, ao oferecerem apoio na localização ou benefícios habitacionais a candidatos a emprego, especialmente para trabalhadores envolvidos em inovação exploratória ou em estágio inicial. As empresas também podem considerar a localização em bairros que já possuem fácil acesso a parques, principalmente ao escolher onde instalar centros de P&D ou para dar suporte a equipes remotas, visto que a infraestrutura social e verde pode ser tão estimulante quanto outros fatores, como universidades e polos industriais.
Incentive a prática de respirar ar fresco para obter inspiração.
Com muita frequência, as pessoas se esforçam demais em suas mesas, pensando que, se trabalharem mais, terão novas ideias — mas ignoram o valor de sair por uma ou duas horas para deixar sua criatividade fluir, diz Roche.
Considere adicionar espaços verdes de convivência perto dos escritórios.
Grandes empresas como Google, Apple e Walmart têm construído cada vez mais campus corporativos gigantescos, com seus próprios parques. Embora o estudo se concentre na proximidade residencial aos parques, Roche afirma que esses espaços, especialmente se forem abertos ao público, também podem contribuir para o bem-estar dos funcionários e criar oportunidades para interação informal.
Faça pausas tecnológicas
Tecnologias online, como a inteligência artificial, são ferramentas poderosas para exploração, mas também tendem a convergir para as mesmas ideias, em vez de introduzir novas. “Isso acontece porque elas são treinadas com base no que já existe”, diz Roche. “Sair e observar os problemas enfrentados por pessoas reais pode revelar uma nova demanda por produtos que não existia antes, o que pode lhe dar uma vantagem.”
Fonte: Harvard Business School
