
CENOGRAFIA – Marcelo Checon é dono de empresa que organiza eventos (Reprodução/Reprodução)
Além do notório Careca do INSS, há outra amizade de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Lula, que pode se transformar numa nova fonte de constrangimento para o governo. Marcelo Checon é dono da MChecon Design e Cenografia, empresa que atua no ramo de eventos. Conhecida no mercado, ela tem em seu portfólio obras no Rock In Rio, no Lollapalooza e nos carnavais do Rio de Janeiro e de Salvador. A partir de 2023, a empresa deu um salto em seus negócios ao expandir sua área de atuação para Brasília. O crescimento chamou a atenção pela velocidade e por uma coincidência.
Antes da posse de Lula, a MChecon tinha um único contrato com o governo federal no valor de módicos 197 mil reais. Nos últimos três anos, ela conquistou 13 novos contratos, faturando 63 milhões de reais, ampliando o faturamento em 323 vezes. A empresa presta serviços ao Palácio do Planalto e aos ministérios da Fazenda, Educação, Cultura, Trabalho, Assistência Social, Turismo e Desenvolvimento Agrário. A coincidência: a ascensão meteórica se deu ao mesmo tempo em que Checon, o dono, consolidou laços com o primogênito do presidente da República.
Lulinha e Checon se conheceram em 2023 por intermédio de Fernando Bittar, sócio do filho do petista numa empresa de games que esteve no centro de uma investigação por suspeita de tráfico de influência durante o primeiro governo do pai. A empatia imediata, e os dois passaram a se encontrar com frequência no eixo São Paulo-Brasília. Em 2024, viajaram juntos para Portugal, onde comemoraram, num camarote do Rock in Rio Lisboa, o aniversário de Renata Moreira, mulher do primogênito. Checon também fez várias visitas ao amigo em Madri, onde Lulinha mora com a família atualmente.
No ano passado, passearam pelo Japão e pela China, onde, entre outras atividades, curtiram juntos um almoço servido no topo da Grande Muralha – um dos pontos turísticos mais conhecidos do mundo. A expedição ocorreu na mesma data de uma visita oficial de Lula aos mesmos dois países do continente asiático. Nos meios empresariais comenta-se que essa relação impulsionou o crescimento da empresa. Uma executiva que atua há mais de duas décadas na área de eventos em Brasília disse a VEJA, sob a condição de anonimato, que, no mercado, “todo mundo sabe que Lulinha abriu as portas do governo para a MChecon”.
A entrada da empresa no governo petista se deu pela Presidência da República oito meses depois da posse. A empresa venceu uma licitação promovida pela Secretaria de Comunicação (Secom). O grande salto veio na sequência. No final de 2023, o Ministério da Cultura realizou um pregão para contratar uma empresa de eventos. O certame, vencido pela MChecon, foi questionado por uma das firmas derrotadas, que acionou o Tribunal de Contas da União (TCU), alegando irregularidades no certame.
A autora da representação sustentou, entre outras coisas, que houve irregularidades no leilão, que vencedora não tinha a expertise exigida no edital para prestar o serviço e que o resultado teria gerado um prejuízo superior a 6 milhões de reais aos cofres públicos. Os ministros da Corte reconheceram parcialmente os argumentos, mas mantiveram o pregão, recomendando ao governo que adotasse medidas para evitar a repetição dos problemas apontados.
A partir daí, com base na ata de preços do Ministério da Cultura, a MChecon passou a ser contratada por outros ministérios sem precisar passar por uma nova licitação. Marcelo conquistou a notoriedade que lhe faltava no mercado e também acesso aos lugares mais reservados de Brasília.
O Gabinete de Segurança Institucional (GSI) catalogou 39 registros de entrada de Checon no Palácio do Planalto entre 2023 e 2025 – algumas delas no mesmo dia, na parte da manhã e à noite. O órgão afirma não ter controle sobre o local exato de destino dos visitantes. Em uma dessas ocasiões, o empresário estava ao lado de sua mulher, a influenciadora Samara Checon, que fez questão de divulgar fotos nas redes sociais. “Uma tarde em Brasília”, escreveu ela em uma das publicações na qual aparece no segundo andar do Palácio do Planalto.
A imagem, aliás, foi feita em setembro de 2023 – um mês depois de a MChecon firmar o primeiro contrato com a Presidência da República, no valor de 4,9 milhões de reais. No mesmo período, o GSI também registrou 14 entradas de Lulinha no Palácio – duas delas no mesmo dia em que Checon também esteve no local.
Uma outra curiosidade: os dados do GSI mostram que as entradas de Checon e Lulinha no Planalto também coincidem com datas das visitas de Roberta Luchsinger, lobista parceira do filho do presidente em negócios que estão sendo investigados pela Polícia Federal.
Outros lados
Lulinha mora com a família desde o ano passado em Madrid, na Espanha, num condomínio de alto padrão na zona La Moraleja, em Alcobendas. O complexo tem mais de 180 apartamentos, oferece confortos como piscina, academia, sauna e espaços de convivência. Uma unidade custa em média e 1 milhão de euros, o equivalente a 6 milhões de reais. O aluguel gira em torno de não é inferior a 5 mil euros, cerca de 30.000 reais. Procurado, o filho do presidente não foi localizado. O advogado dele, Marco Aurélio Carvalho disse que a defesa de Fábio não tem nada a manifestar sobre a relação do filho do presidente com o empresário.
Marcelo Checon também foi procurado. O advogado dele, Bruno Teixeira, confirmou a amizade do empresário com Lulinha, mas negou que isso tenha relação com o sucesso da empresa no governo Lula. “Fábio nunca ajudou Checon a ganhar nenhum contrato. Quem ganhou foi a MChecon, líder nesse mercado”, disse.
Com informações de VEJA
