“Isso eu já faço com o ChatGPT.” A frase, ouvida pela equipe da PoliHealth durante um congresso de nutrologia, trouxe uma lição para a startup: quando a inteligência artificial já faz parte da rotina de muitos médicos, apresentar funcionalidades deixa de ser suficiente. É preciso demonstrar por que o profissional pode confiar na ferramenta.

“Nosso erro foi focar a comunicação nas funcionalidades, e não no que realmente importa para um médico que já tem IA na mão: confiabilidade, segurança e rigor científico”, reconhece Rodrigo Matheucci, CEO da PoliHealth.

A experiência levou a empresa a rever seu discurso e reforçou uma convicção do executivo: em saúde, colocar a IA no centro do produto não significa entregar a ela a decisão clínica. A tecnologia precisa ampliar a capacidade de análise do profissional, com evidências rastreáveis e limites claros de atuação.

IA no centro do produto, médico no centro da decisão

Para Matheucci, ser AI-first vai além de acrescentar inteligência artificial a um produto existente. “Se você tirar a IA de uma empresa AI-First, não sobra o produto com menos um recurso: não sobra produto”, resume.

A PoliHealth nasceu com a proposta de correlacionar dados genéticos, exames laboratoriais, histórico familiar e hábitos de vida para apoiar profissionais de saúde. A IA é parte central dessa análise, mas seu papel tem limites definidos.

“A IA organiza, correlaciona e sugere; o médico julga, decide e assina. A Poli nunca fecha diagnóstico, nunca prescreve e nunca comunica uma decisão ao paciente”, explica.

Segundo o executivo, a plataforma apresenta os dados e as evidências que sustentam cada sugestão. O objetivo é oferecer elementos para a avaliação clínica, sem transformar uma sinalização em comando.

“Uma boa ferramenta treina o médico, mostrando o raciocínio; uma ferramenta ruim o vicia, dando só a resposta. Queremos deixar o raciocínio dele mais rico, não terceirizá-lo”, diz.

Uma experiência pessoal ajuda a explicar a proposta

Ao falar sobre as aplicações da plataforma, Matheucci recorre à própria história. Segundo ele, seu mapeamento genético indica risco elevado para hemocromatose, condição diagnosticada em sua mãe. Isoladamente, os exames não apontavam alterações.

“Foi o cruzamento do dado genético com a evolução dos meus níveis de ferro e ferritina que gerou a sinalização de acompanhamento”, relata.

Para o executivo, o episódio ilustra como a tecnologia pode ajudar a identificar informações relevantes em um grande volume de dados. “Não é substituir o raciocínio, mas trazer à tona o que se perderia num relatório de centenas de páginas que ninguém tem tempo de ler na consulta.”

Outro exemplo vem de uma nutricionista do grupo inicial de usuários. Antes da plataforma, ela cruzava manualmente análises genéticas e exames laboratoriais, caso a caso. Segundo Matheucci, a ferramenta passou a apoiar esse trabalho, reunindo informações que antes precisavam ser examinadas separadamente.

Regulação como parte do produto

O avanço da IA na prática médica também torna mais urgente a discussão sobre responsabilidade. Matheucci aponta a Resolução CFM nº 2.454/2026 como um marco para orientar o uso da tecnologia no setor.

“Até ontem, quem queria construir healthtech com IA operava no escuro regulatório. Agora existe um campo demarcado. Muita gente vai construir, e nem todo mundo vai construir com responsabilidade”, afirma.

Na avaliação do CEO, o desenho da PoliHealth está alinhado aos princípios de uso da IA como apoio à prática médica, preservação da decisão do profissional e transparência com o paciente.

Isso não elimina a tensão entre velocidade de desenvolvimento e rigor. “Seria desonesto fingir que ela não existe”, reconhece. A resposta da empresa, segundo ele, foi incorporar privacidade e limites de atuação à arquitetura do produto desde o início.

“É a diferença entre construir rápido e depois ver se é permitido, e construir rápido dentro do que já se sabe que é permitido”, explica.

Para Matheucci, uma das principais dificuldades está em compreender como se articulam as diferentes exigências aplicáveis ao setor: a proteção de dados pessoais sensíveis pela LGPD, as normas do CFM sobre a prática médica e os critérios da Anvisa para o enquadramento de software como dispositivo médico, previstos na RDC nº 657/2022. A discussão sobre o PL nº 2.338/2023 acrescenta outra dimensão a esse cenário.

“Quem entende as camadas sabe em qual trilho está e consegue ser rápido com segurança”, diz.

Segurança exige validação contínua

Segundo o executivo, a PoliHealth adota três frentes para reduzir riscos de erros, vieses e alucinações: fundamentar as análises em dados do paciente e referências científicas; permitir o rastreamento das sugestões; e manter o profissional de saúde como responsável pela avaliação final.

Essa estrutura inclui, de acordo com Matheucci, literatura de editoras como a Atheneu e regras de correlação desenvolvidas com a bioinformática de parceiros como o Grupo DNA.

“Nenhum sistema está imune a vieses. A validação científica e a diversidade das bases são um trabalho contínuo, e a humildade faz parte da segurança”, pondera.

Foi essa proposta que a empresa passou a enfatizar após o congresso de nutrologia. Diante de médicos que já utilizavam ferramentas como ChatGPT e Claude, a conversa precisava ir além do que a plataforma fazia e explicar como suas análises eram sustentadas.

“Num mundo em que todo mundo tem IA genérica, o diferencial não é fazer IA, é fazer IA em que o profissional pode confiar.”

Os desafios para crescer

Além da confiança, Matheucci aponta a integração de dados como um dos maiores desafios operacionais das healthtechs brasileiras. Laboratórios, clínicas e operadoras trabalham com sistemas e formatos distintos, o que dificulta reunir informações para apoiar o atendimento.

Somam-se a isso o custo da conformidade, proporcionalmente mais pesado para empresas pequenas, e a necessidade de atuar em um mercado no qual grandes organizações influenciam os fluxos de trabalho e os modelos de remuneração.

Para enfrentar esse cenário, o executivo considera indispensáveis três competências: conhecimento clínico e científico, capacidade de desenvolver tecnologia útil na rotina de atendimento e experiência comercial para alcançar os canais adequados de distribuição.

No caso da PoliHealth, ele destaca a experiência ligada ao Grupo DNA e a proximidade entre as equipes de tecnologia e produto, que precisam transformar dados complexos em informações utilizáveis durante uma consulta.

A conformidade, acrescenta, deve fazer parte desse trabalho conjunto. “Quando o clínico, o técnico-produto e o comercial pensam nela juntos, ela vira design. Quando chega depois, vira retrabalho.”

Antes de escalar, conquistar confiança

A quem começa a empreender no setor, Matheucci recomenda partir de um problema concreto de um usuário real, compreender as exigências regulatórias aplicáveis ao produto e validar a proposta com um grupo pequeno antes de buscar escala.

“Dez usuários que confiam profundamente valem mais que mil cadastros rasos”, afirma.

Entre os erros que observa no mercado estão desenvolver uma solução antes de avaliar seu enquadramento regulatório, tratar informações genéticas como dados comuns e prometer resultados clínicos que não foram medidos.

O executivo se diz otimista quanto ao futuro da IA em saúde, desde que a regulação considere as diferentes finalidades e os riscos de cada aplicação. “Ela ajuda, desde que distinga quem se propõe a diagnosticar sozinho de quem apenas apoia o médico, em vez de generalizar.”

Para ele, a lição aprendida no contato com os médicos vale também para a construção do negócio: a tecnologia abre possibilidades, mas a confiança sustenta a adoção.

“O ativo mais valioso que você vai construir não é o algoritmo, que qualquer um copia. É a confiança, que leva anos para ganhar e um erro para perder. A tecnologia em saúde só vale a pena se amplificar o humano: o médico e o paciente.”

Sobre a PoliHealth

A PoliHealth é uma plataforma de apoio à decisão clínica que integra exames laboratoriais, dados genéticos, histórico familiar e hábitos de vida para apoiar profissionais de saúde. Fundada por Rodrigo Faria Matheucci, sócio da DNA Club, a empresa é parceira das marcas do Grupo DNA e tem como meta alcançar 30 mil profissionais usuários em três anos.

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