O Natal de 2020 talvez fique para a história como o dia lúdico e santo, atropelado pelas tensões sociais tão intensas e presentes. Estamos como que assentados numa roda gigante cujo motor disparou e estamos à mercê dos ditames da saúde mundial (aliás, da falta dela) desde março. Isso poderia nos tirar o lado tão mágico e ao mesmo tempo tão significativo do Natal. O Natal sempre foi a festa da comunhão entre amigos, da reconciliação entre inimigos, dos presentes e mimos, dos reencontros de parentes distantes e da mesa farta. Acima de tudo celebramos a manjedoura e o Menino Deus que vem a nós para mudar a história. Vem para viver e morrer pelo ser humano a fim de reconciliá-lo com Deus. Poderia faltar tudo num Natal, mas jamais poderia faltar a motivação verdadeira. Aliás, o Natal é tempo de restauração. Lembro-me de ter lido sobre um dos natais cheio de tensões em razão da 1ª Grande Guerra. Após vários meses de conflitos e muitos mortos, em meio às trincheiras, ao sangue e ao arame farpado, soldados ingleses e alemães se encontram na véspera de Natal… para uma trégua! Trégua não oficial, claro. Após vários meses de conflitos e muitos mortos, em meio às trincheiras, ao sangue e ao arame farpado, soldados ingleses e alemães se encontram na véspera de Natal… Neste dia, os alemães começam um coro de Natal e até montam árvores natalinas, cujas lâmpadas são suas lanternas. De acordo com um informante da imprensa britânica, “suas trincheiras estavam flamejantes com árvores de natal e nossos sentinelas se maravilharam por horas com canções natalinas tradicionais da “Fatherland” (Alemanha). Seus oficiais até expressaram incômodo no dia seguinte, quando algumas das árvores levaram tiros, e insistiram que elas eram quase parte do rito sagrado. Este episódio também é narrado por cartas pelos soldados. E a situação mais inusitada ocorre quando começa uma conversa entre os soldados rivais em suas trincheiras e eles aceitam se encontrar no meio da “terra de ninguém”, isto é, transpõem a distância que separa os dois lados (que podia ser de apenas 30 metros). Ali, trocam presentes (cigarros por queijo, por exemplo), conversam e estendem a trégua não oficial para também poderem enterrar seus mortos. Conta-se, inclusive, que os rivais jogaram futebol… De acordo com um correspondente do jornal Manchester Guardian, o que aconteceu em seguida à trégua foi ainda mais surpreendente: “os soldados franceses e alemães que haviam confraternizado e se recusavam a atirar uns nos outros, tiveram de ser afastados das trincheiras e substituídos por outros homens”. Quando olho para o Congresso Nacional imerso em interesses partidários; governadores politizando a pandemia; duelando com a possibilidade de vacina; Trump esperneando para sair da Casa Branca como um menininho birrento; Síria em escombros; e os quase 190 mil mortos pela Covid na nossa Pátria; continuo a ser otimista. Podemos ter Natal mesmo assim! Podemos celebrar, mesmo enfurnados nas trincheiras da vida. Oro para que tenhamos uma Trégua Natalina para reavaliarmos as tensões da vida e mesmo assim celebrarmos o Cristo que vem a nós na manjedoura. Um Feliz Natal!

Marcos Kopeska – pastor da 3a PI de Marília, pós graduado em Terapia Familiar Sistêmica, capelão da PM, escritor, palestrante

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