
Imagem de satélite, fornecida pela Planet Labs PBC e captada em 10 de outubro de 2026 — analisada pela AFP —, mostra duas aeronaves no pátio que, por suas dimensões e formato, são compatíveis com modelos V-22 Osprey; a imagem foi registrada na base aérea militar equatoriana de Taura, perto de Guayaquil, no Equador — Foto: 2026 PLANET LABS PBC / AFP
Uma investigação da agência France-Presse (AFP) identificou voos de aeronaves militares dos Estados Unidos para a base aérea de Taura, no Equador, além de obras de ampliação da instalação. A movimentação ocorre em meio ao fortalecimento da cooperação entre Washington e Quito no combate ao narcotráfico e levanta questionamentos sobre os limites legais da presença militar estrangeira no país.
Segundo a investigação, baseada em registros de tráfego aéreo, imagens de satélite, documentos militares e depoimentos, foram identificados cerca de 20 voos envolvendo aproximadamente dez aeronaves da Força Aérea e do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA desde junho.
Entre os modelos identificados estão aviões de transporte C-17 Globemaster e C-130 Hercules, aeronaves híbridas V-22 Osprey e helicópteros Black Hawk.
Imagens mostram obras e novas estruturas
Segundo informações divulgadas pelo O Globo nesta terça-feira (27), imagens de satélite analisadas pela AFP registraram mudanças na base a partir de julho e agosto. Entre elas estão a remoção de vegetação em áreas próximas à pista e às vias de circulação, a instalação de dezenas de tendas e a construção de uma estrutura com cerca de 40 metros de comprimento por 20 metros de largura, que pode ser utilizada para manutenção de aeronaves.
A investigação também identificou a movimentação de caminhões de construção nas proximidades da instalação, que permanece sob vigilância militar.
Localizada a aproximadamente uma hora de Guayaquil, Taura é uma instalação exclusivamente militar e possui uma pista com mais de três mil metros de extensão. Segundo a AFP, as mudanças podem estar relacionadas à preparação da base para receber equipamentos e pessoal, embora a finalidade de todas as estruturas não tenha sido confirmada oficialmente.
Cooperação entre Equador e Estados Unidos
A ampliação ocorre durante a aproximação entre os governos do presidente equatoriano Daniel Noboa e do presidente americano Donald Trump.
Em setembro, Noboa afirmou que trabalhava com os Estados Unidos, o Brasil e a União Europeia para concentrar em Taura diferentes formas de cooperação internacional. O objetivo, segundo ele, seria melhorar as pistas para permitir operações conjuntas.
Em agosto, o ministro da Defesa equatoriano anunciou que os Estados Unidos enviariam três helicópteros Black Hawk ao país. No mês seguinte, Noboa declarou que o Equador colocaria em operação dois drones MQ-9 Reaper, utilizados pelos americanos em missões de vigilância e ataque.
O Equador também integra o Escudo das Américas, iniciativa de cooperação em segurança e combate ao narcotráfico promovida pelo governo Trump.
Questionamentos sobre a legalidade da presença militar
A presença americana em Taura levantou dúvidas sobre o fundamento jurídico para receber militares estrangeiros, uma vez que os equatorianos rejeitaram, em referendo realizado no ano anterior, a possibilidade de instalação de bases militares estrangeiras no país.
Segundo a AFP, uma carta datada do início de setembro e atribuída ao então comandante da Força Aérea equatoriana, Mauricio Salazar, solicitava esclarecimentos sobre o marco legal para receber militares estrangeiros sem violar a Constituição. Posteriormente, o general foi afastado do comando e designado para outra função.
A sequência dos acontecimentos, contudo, não demonstra que a mudança de função tenha ocorrido em consequência direta do questionamento jurídico.
Procurado pela AFP, o Pentágono encaminhou as perguntas ao Comando Sul dos Estados Unidos, que não havia respondido imediatamente. A Força Aérea equatoriana também não havia se pronunciado até a publicação da reportagem.
Antecedente da base americana em Manta
Os Estados Unidos já mantiveram uma instalação militar em Manta, no litoral equatoriano, por cerca de dez anos. O acordo terminou em 2009, durante o governo de Rafael Correa, depois de o país decidir não renovar a autorização para a presença militar americana.
A retomada da cooperação ocorre em meio à intensificação das operações americanas contra redes de narcotráfico na América Latina e no Caribe.
Moradores têm opiniões diferentes
A poucos quilômetros da base fica o povoado de Taura, onde vivem mais de 9,4 mil pessoas. A região enfrenta problemas de infraestrutura e violência. No ano anterior, o caso de quatro crianças torturadas, assassinadas e carbonizadas na localidade abalou o país e envolveu militares.
Moradores relataram diferentes percepções sobre a ampliação da instalação. Alma Goya, comerciante de 40 anos, lamentou que o centro médico localizado dentro da base tenha deixado de atender o público, situação que atribuiu ao estado de exceção.
Outros habitantes, por sua vez, demonstraram apoio à chegada de militares estrangeiros, na expectativa de que a cooperação contribua para enfrentar a criminalidade.
A investigação da AFP documenta a movimentação de aeronaves e as mudanças físicas em Taura, mas a extensão da presença militar americana, a finalidade de todas as obras e o enquadramento jurídico das atividades dependem de esclarecimentos oficiais.
Fonte: Terra Brasil
