
Foto: Tiago Queiroz/Estadão
Nos últimos três meses, o motorista Edcarlos Quilelli, de 47 anos, diz não ter descansado um dia sequer. Motorista de aplicativo desde 2018, ele voltou no início do ano a ter um emprego com carteira assinada ao volante de um ônibus urbano em Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo. Nos horários livres, põe o próprio carro para rodar atrás de passageiros. Geralmente trabalha seis dias por semana, das 13h à 1h, mas também é representante comercial de uma empresa de rastreadores veiculares.
Mesmo assim, está difícil fechar o mês no azul. “Minha esposa fez as contas de maio e viu que temos R$ 9 mil em dívidas, para um caixa de R$ 8 mil”, diz Quilelli, pai de quatro filhos. “Nem entrou o mês, e já estamos devendo.” Para ele, a solução é trabalhar ainda mais.
Quilelli, motorista de ônibus, de aplicativo e representante comercial: sem conseguir fechar as contas Foto: Tiago Queiroz/Estadão
Quilelli é um exemplo de profissional que vive um momento de profunda transição — e incertezas — no mercado de trabalho. Segundo Felipe Nunes, cientista político e sócio fundador da empresa de pesquisas Quaest, esse novo trabalhador, mais multifacetado, será decisivo na eleição deste ano.
Quilelli não tem apreço profundo pelo emprego regido pela Consolidação das Leis do Trabalho, a CLT (regras trabalhistas implementadas na década de 1940). Tanto que pensa em pedir demissão. “Antigamente, eu era só motorista de ônibus”, diz ele. “Agora, eu sou motorista e cobrador, num trabalho muito mais tenso e complicado, e o salário continua igual.”
A serviço de usuários de aplicativo, a reclamação é idêntica. Os ganhos dos motoristas na plataforma não são atualizados no mesmo patamar da alta dos combustíveis e do custo de manutenção do carro. “O que eles pagam não é suficiente nem para cobrir despesas”, afirma ele, que reconhece as tentativas do governo na melhoria da vida dos trabalhadores e os entraves para seu andamento causados pela oposição, em sua opinião. Na pele, porém, Quilelli sente mais dificuldades: “Nos últimos anos, parece que tudo piorou”, diz.
Esse mal-estar causado por mudanças gigantescas no mercado de trabalho, que convivem ao mesmo tempo com inflação e endividamento altos, é universal. Uma série de pesquisas feitas mundo afora nos últimos anos relata a “fadiga da mudança” por um lado e um pequeno número de profissionais que acreditam estar prosperando em suas carreiras. Elas foram conduzidas por consultorias tão distintas quanto Gartner, Gallup, Deloitte ou mesmo pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e Organização Internacional do Trabalho (OIT).
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No País, pesquisa feita para o livro Brasil no Espelho, do próprio Nunes, da Quaest, para a qual foram entrevistados 10 mil brasileiros, mostrou que 51% dos entrevistados relatam, espontaneamente, cansaço ou emoções negativas. Há diferentes nuances sobre essa percepção, dependendo da escolaridade, salário, região do País ou gênero.
Porém, a origem dessa exaustão está relacionada principalmente à insatisfação com a vida atual como um todo e com a situação financeira. Nesse grupo, 73% se dizem cansados. Motivo: seis, em cada sete brasileiros, precisam de mais de um trabalho para complementar a renda. Em porcentual, 84% das pessoas têm essa jornada.
A solução vista como saída para essa condição, pela maioria dos entrevistados, é deixar o patrão de lado e ter o próprio negócio. “Esses números apontam para um ‘empreendedorismo de exaustão’: menos CLT e mais CNPJ não apenas por vocação, mas como resposta defensiva ao aperto da renda e à multiplicação de bicos”, escreve Nunes no livro.
O próprio Quilelli, que já foi camelô, também ocupou o papel de empreendedor e chegou a ter três petshops. Foi quando deixou de ser motorista de ônibus pela primeira vez. Diz que os negócios iam bem, até que resolveu mudar de área, para marketing multinível (modelo de venda direta em rede). A iniciativa não deu certo, e ele acabou se tornando motorista de aplicativo. “O CLT não tem possibilidade de crescimento e quem empreende, se acerta o nicho, conquista coisas maiores”, diz ele.
Peso maior vai para indivíduo
Para Nunes, esse desejo de “não ter patrão” mistura busca de autonomia com a percepção de que a regra do jogo empurra o risco para o indivíduo. “O microempreendedor individual (MEI) barateia a porta de entrada, as plataformas reduzem barreiras de acesso, e o crédito digital dá fôlego − mas tudo isso opera com renda volátil, jornada esticada e proteção social limitada”, diz.
Esse novo cenário, dizem especialistas, é um dos motivos que ajudam a explicar o fato de diferentes medidas implementadas em favor do trabalhador, ao longo do governo Lula, não terem se refletido na popularidade como indicam as pesquisas.
Foram várias iniciativas. Entre elas, a isenção no imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil, as renegociações de dívidas promovidas no Desenrola, o consignado para CLT e, agora, os debates em torno da jornada 6×1. Também nas discussões em torno da regulamentação do trabalho via plataformas digitais.
Apesar de a maior parte dessas medidas parecer ter sido criada especificamente para o trabalhador CLT (que somam quase 39 milhões de pessoas no País e cujo número cresceu nos últimos dois anos), elas também atingem de alguma maneira quem trabalha por conta própria.
O motorista por aplicativo, por exemplo, é tributado no imposto de renda, já que as plataformas informam diretamente ao fisco sua remuneração. A isenção em ganhos de até R$ 5 mil o ajuda. Por outro lado, caso implantada, a jornada 5×2 (com cinco dias de trabalho e dois de folga) também permitirá que quem trabalha das duas formas tenha um dia a mais para descansar ou fazer caixa extra.
Há ainda iniciativas de estudos em torno de empréstimos para compra de carros para motoristas de aplicativo. O PT também tem lançado campanhas nas redes sociais para falar com esse trabalhador.
Porém, como se sabe, o alívio tem se refletido pouco na popularidade do governo, mesmo com indicadores macroeconômicos bons — e o motivo pode ser mais profundo. Maurício de Almeida Prado, sócio da empresa de pesquisas Plano CDE, diz que os estudos feitos ao longo dos últimos anos mostram outras ambições por parte dos trabalhadores.
“Há uns dez anos, fizemos uma pesquisa com jovens da periferia, e o que eles almejavam era ‘trabalhar sentado’”, diz Almeida Prado. “Eles não queriam ser auxiliar de limpeza, trabalhar como carregador ou ter uma profissão braçal: queriam ficar na frente do computador.”
Por outro lado, diz ele, houve o estímulo ao ensino superior, ao passo que o técnico jamais ganhou a mesma valorização, apesar de, em algumas carreiras, ser tão ou mais bem remunerado do que quem carrega um diploma universitário. Em 2000, apenas 6,8% dos brasileiros com mais de 25 anos tinham diploma universitário. Em 2024, a parcela da população que concluiu o ensino superior chegou a 20,5%, segundo o Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O ensino técnico cresceu nos últimos anos, mas não na mesma proporção. Enquanto há hoje mais de 10 milhões de alunos matriculados no ensino superior, segundo o Censo da Educação Superior 2024, o ensino técnico tem quase 3,2 milhões de estudantes, de acordo com o Censo Escolar 2025.
“Há alguns anos, prometemos para as pessoas que, se elas fizessem faculdade, se profissionalizassem, a vida melhoraria”, diz Renan Pieri, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), especialista em mercado de trabalho. “Só que a economia cresce devagar, a produtividade aumenta pouco e, com mais gente no mercado de trabalho, significa dividir o mesmo bolo.”
Mais formato, menos contrato
Almeida Prado diz que a discussão do governo deveria ser sobre formato de trabalho (com a possibilidade de ter horas e formatos flexíveis, com a renda variável e menos hierarquia), em vez de contratos de trabalho em si (CLT/ PJ/ informal).
Com as mudanças na natureza do trabalho, diz Pieri, é preciso mais flexibilidade e menos engessamento. “O dono de um restaurante pequeno que, com a reforma trabalhista, conseguiu contratar um garçom por duas horas no almoço, seis dias por semana, vai poder fazer isso caso a jornada passe para 5×2?”, diz ele. “Acho positivo reduzir a jornada, mas o problema de transformar a rigidez da lei é perder especificidade de cada região do País e categoria de trabalho.”
Em termos de aprovação da popularidade do governo, dizem os especialistas, a regulamentação do trabalho por aplicativo talvez tivesse trazido mais resultados. “Faz sentido discutir mudanças na CLT, mas essa é uma categoria que não tem nenhuma segurança, proteção social ou contribuição à seguridade social exigida”, afirma Pieri.
Mão de obra escassa: sem cursos técnicos e com mais alternativas, faltam trabalhadores em diferentes áreas Foto: Wilton Junior/Estadão
Leandro Cruz, presidente do federação dos trabalhadores por aplicativo e do sindicato da categoria em São Paulo, acompanhou de perto as mudanças nesse tipo de função, ao longo da última década. “Para atrair os trabalhadores, a plataforma ficava com com um porcentual menor sobre valor da corrida”, diz ele. “Muitas pessoas saíram do CLT e começaram a trabalhar com aplicativo mas, com o tempo, a remuneração foi caindo.”
Para ele, o trabalho por aplicativo se tornou um emprego CLT, só que sem a carteira assinada. “Temos jornada de trabalho, somos treinados e remunerados por uma empresa”, afirma. “A única diferença é que nosso chefe é um algoritmo.”
A busca, diz ele, é pela criação de uma nova categoria, hoje não prevista em lei que tenha garantias mínimas. Fazer com que o Ministério do Trabalho reconheça uma nova Classificação Brasileira de Ocupações, a dos Motoristas de Transporte de Aplicativos (MTA). “O autônomo não tem direito a nada”, diz ele. “Se a plataforma bloquear, ele fica sem ter como pagar as contas do mês.”
A ideia é encontrar um meio do caminho: esse novo trabalhador não se encaixa na rigidez da CLT, mas não quer ficar totalmente à mercê das intempéries. “Imagine um trabalhador que tenha reunião na escola do filho e precise sair mais cedo: num emprego engessado e que precisa de um grande tempo de deslocamento, essa demanda não é uma realidade”, afirma Almeida Prado. “Esse novo trabalhador não quer muitas regras rígidas, mas não quer ficar totalmente desassistido.”
Essa linha tênue e pouco óbvia a aprovação desse trabalhador não é fácil de ser alcançada. “Não há solução de curto prazo”, diz ele. O crédito a esse novo profissional, por exemplo, é extremamente caro e tem sido oferecido de forma abundante, por meio de cartões digitais e fintechs. “O Desenrola é um tapa-buraco”, afirma Almeida Prado. “Não há uma política pública para esse novo trabalhador.”
Para ele, a comunicação também precisa mudar. As pesquisas feitas pela Plano CDE mostram que esse trabalhador faz a opção por novas formas de trabalho como escolha de vida. Não por serem pessoas sem alternativa, alienados, sem informação ou tomarem decisões erradas e, portanto, precisarem de proteção do Estado.
“Na prática, hoje as pessoas têm mais opções, e a nova geração entendeu que tem alternativa há tempos”, diz. “Para os mais novos, é praticamente um desvio se inscrever numa vaga formal, pensar em deslocamento em transporte público, se vestir para trabalhar, usar uma linguagem mais formal no ambiente de trabalho.”
Nesse novo mundo, dá mais orgulho — e é mais rentável e confortável — ao jovem que saiu do Ensino Médio subir numa moto para fazer entregas. “Não dá para falar que essa pessoa está sendo enganada porque isso é quase uma infantilização do trabalhador”, diz. “Enquanto isso, ele está superorgulhoso porque vive melhor do que os amigos.”
Com informações de O ESTADÃO
