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“Minha Santa Edwiges, agracia o pedido que venho fazer a vós, para que este final do mês de abril eu consiga pagar a conta toda no mercado, ou pelo menos consiga pagar uma parte da minha conta que eu estou devendo, para poder fazer outras compras e pagar no final do mês. Amém, amém, que assim seja e a Senhora abençoe e ilumine, amém.”

Essa oração foi compartilhada no início de abril por uma mãe cearense em uma comunidade online dedicada a devotos da santa católica conhecida como protetora dos endividados e dos que enfrentam dificuldades financeiras.

A angústia dessa mãe reflete a realidade de cerca de 80,4% das famílias brasileiras, que estavam endividadas em março, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) desde 2010. O levantamento aponta ainda que 29,6% das famílias tinham contas em atraso no período, enquanto 12,3% afirmavam não ter condições de quitar essas dívidas. O comprometimento da renda com débitos chegava a quase um terço do orçamento familiar.

Entre os principais tipos de dívida estão o cartão de crédito, presente em 84,9% dos casos, seguido pelos crediários do varejo (16%) e empréstimos pessoais (12,6%). Outra pesquisa, da Serasa, indica que em fevereiro havia 81,7 milhões de brasileiros negativados, o equivalente a 49,9% da população adulta, com dívida média individual de R$ 6.598,13.

Especialistas apontam três fatores centrais para esse cenário: a expansão do crédito após a pandemia, com mais pessoas integradas ao sistema bancário; as elevadas taxas de juros; e, mais recentemente, o crescimento das plataformas de apostas online, conhecidas como bets.

O alto nível de endividamento também se tornou um desafio político para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em ano eleitoral. A avaliação dentro do governo é de que o peso das dívidas esconde os efeitos positivos da renda maior e do desemprego baixo, contribuindo para uma percepção negativa da economia, mesmo com inflação controlada e crescimento do PIB.

Como resposta, o governo estuda lançar uma nova versão do programa de renegociação de dívidas, o Desenrola. Entre as medidas analisadas está a possibilidade de liberar recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para pagamento de dívidas, podendo alcançar até R$ 7 bilhões, segundo estimativas preliminares.

Também estão em discussão ações para reduzir o impacto das apostas online no endividamento das famílias. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o novo programa deve atender tanto pessoas físicas quanto empresas.

“Recebo 20 ligações de cobrança por dia”

“Que bom que você avisou que ia ligar, porque senão o DDD 11 eu não atenderia normalmente”, relata a catarinense Bárbara Helena da Silva, de 31 anos, ao atender a reportagem da BBC News Brasil.

Ela conta que recebe cerca de 20 ligações de cobrança diariamente e afirma que até familiares próximos passaram a ser acionados por causa de suas dívidas. “Fiquei triste, porque esse é um problema meu, não queria que respingasse em outras pessoas.”

As dívidas de Bárbara estão entre as mais comuns no país: três cartões de crédito a levaram à inadimplência. Ela estima um débito atual superior a R$ 20 mil — valor que era de aproximadamente R$ 10 mil, mas dobrou em seis meses devido aos juros elevados.

Segundo o Banco Central, a taxa média de juros do crédito rotativo do cartão chegou a 435,9% ao ano em fevereiro. Esse tipo de crédito é acionado quando o consumidor não paga o valor total da fatura até o vencimento.

Desde 2024, uma regra estabelece um limite para o crescimento da dívida no cartão, restringindo o aumento ao dobro do valor original.

Uma pesquisa do Datafolha, divulgada em abril, mostra que 27% dos brasileiros usam o crédito rotativo com alguma frequência. O levantamento também aponta que 67% da população possui algum tipo de dívida e 21% estão com parcelas em atraso.

Bárbara, que trabalha como psicóloga autônoma, afirma sentir diretamente os efeitos da crise financeira dos clientes, já que gastos com saúde mental costumam ser reduzidos primeiro em momentos de aperto.

“Fui perdendo clientes, e minha renda caiu bastante. Aí tive que escolher entre pagar o aluguel e as contas de casa ou o cartão de crédito, que tinha várias compras parceladas. Foi inevitável”, relata.

Entre as compras parceladas, ela cita itens de trabalho como computador, cadeira de escritório e ar-condicionado. “São coisas pequenas, mas que não conseguimos comprar à vista. Vai parcelando e vira uma bola de neve.”

Uma sociedade estruturada no crédito

O geógrafo Kauê Lopes dos Santos, autor do livro Parcelado (Editora Fósforo) e professor da Unicamp, analisa que o Brasil consolidou uma cultura de consumo baseada no parcelamento.

“Do ponto de vista estrutural, temos no Brasil uma sociedade que consome via crédito, via parcelamento”, afirma.

Segundo ele, esse comportamento se intensificou nas últimas três décadas, especialmente a partir dos anos 2000. O parcelamento vai desde bens de alto valor, como imóveis, até itens básicos do dia a dia, como alimentos.

“O espectro do endividamento e do parcelamento é muito amplo”, explica.

A partir de entrevistas com moradores de periferias paulistanas desde 2010, o pesquisador observou que o parcelamento passou a integrar o planejamento financeiro das famílias, assim como a inadimplência.

“Existe até um certo humor, algo como: ‘quem não está parcelando hoje?’”, diz. No entanto, ele ressalta que isso convive com forte pressão financeira, principalmente entre famílias de baixa renda, mais vulneráveis a empregos informais e renda instável.

Para o pesquisador, o parcelamento compromete o futuro financeiro das pessoas. Ele chama esse fenômeno de “alienação do futuro”.

“Você trabalha todo mês para pagar dívidas, e isso limita a possibilidade de planejar o futuro, de mudar de vida ou crescer socialmente”, afirma.

A influência das apostas online

Kauê também destaca o crescimento das bets como fator que agrava o endividamento.

“Isso potencializa a questão do endividamento”, avalia.

Ele explica que pessoas já endividadas acabam recorrendo às apostas na tentativa de ganhar dinheiro rápido, o que frequentemente amplia ainda mais a dívida, levando ao uso de modalidades de crédito com juros mais altos.

“O jogo destruiu minha vida”

Esse foi o caso de Nicole, 21 anos, moradora de uma pequena cidade no interior da Bahia. Ela relata que o vício em apostas comprometeu sua saúde mental e seu casamento.

Hoje, calcula dívidas superiores a R$ 10 mil, todas oriundas de empréstimos feitos para continuar apostando. Por segurança, seu nome verdadeiro foi preservado.

“Tudo começou em 2023. Vi uma influenciadora famosa postar um link de jogo e cliquei. Apostei R$ 10 e ganhei R$ 100, fiquei eufórica. Depois disso não consegui parar”, conta.

Ela afirma estar negativada em cinco bancos e sem condições de pagamento. Sem emprego, depende do Bolsa Família.

“O jogo destruiu minha vida e meu casamento”, diz.

Nicole critica a falta de ações do governo e afirma não ver perspectiva de melhora.

Uma pesquisa Quaest indica que 29% dos brasileiros já apostaram em bets.

Crédito, bancos e responsabilidade

O economista Fabio Bentes, da CNC, aponta que parte do problema está na concessão de crédito sem critérios mais rígidos.

Ele cita o cartão de crédito como exemplo de facilidade excessiva de acesso ao endividamento.

A Febraban, por sua vez, afirma que o sistema bancário segue regras rigorosas do Banco Central e que o crédito rotativo é uma linha emergencial de alto risco, justificando seus juros elevados.

Outro fator relevante é a expansão da bancarização após a pandemia, com crescimento dos bancos digitais e do Pix, ampliando o acesso ao crédito.

Apesar dos avanços, especialistas avaliam que o problema do endividamento é estrutural e não será resolvido apenas com programas de renegociação como o Desenrola, que teria efeito temporário.

Para mudanças duradouras, seriam necessários educação financeira, maior transparência no crédito, controle mais rígido na concessão de empréstimos, redução dos juros e equilíbrio das contas públicas.

O economista alerta ainda que o endividamento pode impactar diretamente o cenário político.

“Um eleitor endividado tende a avaliar o governo de forma mais crítica”, afirma.

Endividamento e política

O mineiro Otávio, 39 anos, também relata ter sido afetado por apostas online. Ele diz ter perdido economias, vendido bens e acumulado dívidas de cerca de R$ 30 mil.

Ele critica a falta de ação do governo e afirma que isso influencia sua escolha eleitoral.

“Acho que vou votar em Flávio Bolsonaro”, diz.

Já Bárbara, mesmo endividada, afirma que continuará apoiando Lula.

“Isso envolve muitos fatores além do governo”, afirma.

Apesar das diferenças, todos os entrevistados desconheciam as medidas em estudo pelo governo.

Após serem informados, avaliaram que o novo Desenrola pode ajudar, mas o desafio maior segue sendo a falta de informação sobre essas políticas entre a população.

Com informações de BBC.

Fonte: Diário Brasil

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