
REPRODUÇÃO FOLHA DE SÃO PAULO
A Coreia do Sul cancelou as visitas que faria a plantas frigoríficas de carne bovina brasileira, afastando a abertura de um dos mercados mais pleiteados pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para compensar as perdas que o Brasil deve sofrer com as cotas de importação impostas pela China no final do ano passado.
A Folha teve acesso ao comunicado que o adido agrícola em Seul, Tiago Charão de Oliveira, enviou a Brasília afirmando que as vistorias foram suspensas e que não há previsão de novas datas. O documento esclarece que o cancelamento ocorreu porque as inspeções técnicas prioritárias do país asiático neste ano estão concentradas em produtos agrícolas.
A reportagem entrou em contato com o Ministério da Agricultura e Pecuária, que não respondeu ao pedido de comentário.
A etapa é vista pelo governo como a mais importante para a concretização da exportação da commodity, uma vez que atesta o cumprimento dos requisitos sanitários e de qualidade necessários para finalizar a negociação.
A notícia causou choque no setor, já que a Coreia do Sul havia enviado o plano de vistoria indicando quais seriam as plantas a ser visitadas em junho. Representantes do setor com familiaridade no tema afirmaram à Folha que um recuo em negociações avançadas, como esta, é incomum.
A abertura do mercado sul-coreano para a carne bovina foi um dos principais motivos da visita de Lula ao país em fevereiro, e o resultado positivo nas tratativas sobre o assunto foi apresentado pelo governo como sua grande conquista naquela agenda. Na ocasião, Seul havia sinalizado que realizaria as inspeções necessárias para liberar as importações.
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O governo Lula, assim como o setor, saiu da viagem otimista, pois acreditava que a etapa seria facilmente transposta, visto que o Brasil é o principal exportador da proteína bovina no mundo e já atende mercados com altas exigências regulatórias, como o chinês.
Conversas sobre a exportação da carne bovina ao país asiático se arrastam há mais de 20 anos, desde o primeiro mandato de Lula. Quando visitou a Coreia do Sul pela primeira vez em exercício, em 2005, o tema foi tratado por sua comitiva.
Em artigo publicado pelo Itamaraty às vésperas daquela visita, por exemplo, a pasta afirmava que o setor havia sido identificado como de “alto potencial para a realização de negócios no mercado local”, como forma de convocar empresários da área para integrar a delegação.
O mercado sul-coreano é um dos alvos prioritários para exportação devido à baixa autossuficiência do país na produção de carne bovina. Entre 2022 e 2024, cerca de 40% do consumo interno foi suprido por produção doméstica, segundo dados do governo local.
Embora as negociações se arrastem por anos, a abertura desse mercado ganhou ainda mais urgência no fim do ano passado, quando a China anunciou medidas de salvaguarda de três anos sobre as importações da commodity, criando uma tarifa de 55% sobre os volumes que ultrapassarem a cota definida pelo país.
O Brasil, principal fornecedor para os chineses, será taxado caso exceda 1,1 milhão de toneladas em 2026. Para se ter uma ideia, em 2025, o total exportado ao país asiático foi de 1,65 milhão de toneladas.
Pequim anunciou neste domingo (10) que o Brasil já atingiu metade da cota estipulada para 2026. Estimativas do setor privado apontam para um número ainda maior, levando em conta a carga que já saiu dos portos brasileiros, mas ainda não chegou ao destino.
A Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes) afirma que nenhum destino é capaz de suprir o vácuo deixado pela China. A entidade projeta queda de cerca de 10% nas exportações de carne bovina brasileira em 2026 em razão das restrições impostas pelos chineses.
Com informações de Folha de São Paulo
