O corpo definido de Virginia Fonseca virou assunto nas redes, mas foi outra mudança que chamou atenção: sua voz ficou mais grave. A influenciadora contou que havia utilizado um implante hormonal com testosterona e gestrinona e relacionou a alteração ao chamado “chip da beleza”.

Virginia está longe de ser a única famosa a ter aderido. Deborah Secco, Flay, Mariana Goldfarb, Juju Salimeni e Marvvila também já falaram publicamente sobre experiências com implantes hormonais. Enquanto Deborah relatou benefícios, Flay contou ter enfrentado queda de cabelo, irritabilidade e alterações no peso; Mariana Goldfarb relatou acne e posteriormente abandonou o dispositivo.

Os relatos ajudam a contar a história de uma geração apresentada a uma promessa tentadora: usar hormônios não necessariamente para tratar uma doença, mas para construir um corpo mais magro, musculoso e sexualmente disposto.

Para a endocrinologista Patricia Gracitelli, até o apelido contribuiu para banalizar o procedimento.

“Quando chamamos de ‘chip da beleza’, parece que estamos falando de um recurso estético simples. Na realidade, estamos falando de substâncias hormonais capazes de produzir efeitos no organismo inteiro. Hormônio não deveria ser prescrito para atingir um padrão de corpo ou buscar uma promessa genérica de rejuvenescimento. Tratamentos hormonais têm indicações médicas específicas”, explica.

Quando hormônio virou tratamento de beleza

Acne, aumento da oleosidade, pelos, queda de cabelo, alterações menstruais e engrossamento da voz estão entre os efeitos adversos associados a hormônios com ação androgênica. No caso da voz, determinadas alterações podem ser irreversíveis.

Para o Dr. Renato Reis, endocrinologista e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), existe uma fronteira que não deveria ser apagada.

“Uma coisa é utilizar um hormônio diante de uma indicação médica bem estabelecida. Outra completamente diferente é administrar hormônios em uma pessoa saudável com a promessa de reduzir gordura, aumentar massa muscular ou melhorar performance. Quando estética passa a justificar uma intervenção hormonal, precisamos discutir com muita clareza os riscos envolvidos”, afirma.

A questão ganhou relevância suficiente para provocar ações regulatórias. Em 2024, a Anvisa suspendeu a manipulação, comercialização, propaganda e uso de implantes hormonais manipulados para determinadas finalidades; o tema continuou sob regulamentação e alertas de entidades médicas.

Reposição hormonal não é “chip da beleza”

Para o Dr. Vagner Chiapetti, médico com atuação em Endocrinologia e Nutrologia, a discussão também não pode transformar todo tratamento hormonal em vilão.

“Não podemos demonizar os hormônios, porque existem situações em que a reposição tem indicação e pode ser importante para o paciente. O problema é transformar hormônio em produto de beleza. Antes de qualquer tratamento, precisamos saber o que estamos tratando, se existe deficiência ou indicação clínica e quais benefícios e riscos existem para aquela pessoa”, explica.

Talvez o fenômeno do “chip da beleza” revele algo maior do que uma tendência médica. Ele pertence a uma época em que o corpo feminino passou a ser tratado como um projeto de alta performance: precisa ser magro, definido, disposto, jovem e ainda manter a libido em alta.

E, depois de anos olhando apenas para o “antes e depois”, os relatos que começam a aparecer levantam uma pergunta menos sedutora, mas necessária: qual é o preço de transformar hormônios em ferramentas para acompanhar o corpo da vez?

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No momento, você está visualizando De Virginia Fonseca a Deborah Secco: a geração de mulheres seduzidas pelo “chip da beleza”. Mas os relatos de famosas ajudam a revelar o outro lado dessa promessa. Veja