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(Getty Images)

Os efeitos da política monetária restritiva do Banco Central começam a aparecer com maior intensidade na economia brasileira, em meio ao aumento da inadimplência e dos pedidos de recuperação judicial. Um dos casos mais recentes é o da Casas Bahia, que recorreu à Justiça com cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas.

Mesmo após quatro reduções, que levaram a taxa Selic de 15% para 14% ao ano desde março, o nível dos juros continua considerado elevado. Para economistas, a falta de um ajuste fiscal mais consistente também dificulta uma redução mais rápida dos juros e aumenta a possibilidade de uma desaceleração mais forte em 2027.

Adauto Lima, economista para o Brasil da Franklin Templeton, avalia que o impacto da política de juros demorou a aparecer, mas já começa a ser percebido. Segundo ele, empresas, famílias e governo apresentam elevado nível de alavancagem.

Lima estima em aproximadamente 20% a possibilidade de uma recessão em 2027, embora seu cenário principal ainda considere crescimento de 1,5% do PIB. Mesmo nesse cenário, ele não descarta períodos de retração da atividade.

O economista, porém, não prevê uma queda semelhante à registrada em 2015 e 2016, durante o governo de Dilma Rousseff. Para ele, uma eventual deterioração seria mais concentrada, com um ou dois meses de crescimento negativo ou próximo de zero.

Mercado de crédito perde força

Um dos motivos que retardaram os efeitos dos juros elevados foi a expansão do mercado de capitais como fonte de financiamento para as empresas. Segundo Lima, incentivos fiscais, custos relativamente menores, crescimento dos cartões, novas modalidades de crédito consignado e expansão dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) ajudaram a ampliar a oferta de recursos.

Esse cenário, contudo, começa a perder intensidade.

Até julho, a emissão de debêntures acumulava queda de 28,7% no ano. As captações por meio de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) recuaram 23,5%, enquanto as de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) tiveram redução de 57,5%.

Para Lima, o aumento das recuperações judiciais e da inadimplência das famílias já demonstra os efeitos do processo de desalavancagem. O principal risco para 2027, segundo ele, é que a economia chegue ao próximo ano com menor ritmo de crescimento e, ao mesmo tempo, com a política monetária ainda restritiva por causa da inflação.

O Citi também avalia que os índices de inadimplência podem continuar avançando. Em relatório, o banco afirmou que o aumento das transferências sociais e os programas de auxílio do governo não foram suficientes para interromper a trajetória de crescimento dos atrasos.

Atividade econômica deve perder ritmo

A expectativa de desaceleração ganhou força entre economistas. Lima avalia que a atividade já demonstra perda de fôlego no terceiro trimestre e projeta um segundo semestre mais fraco.

Na avaliação dele, a combinação de menor oferta de crédito, elevado endividamento e dificuldade para reduzir os juros poderia provocar uma retração temporária do Produto Interno Bruto (PIB).

Rodolfo Margato, economista da XP Investimentos, também não descarta períodos de crescimento negativo, mas afirma que uma recessão prolongada não faz parte do cenário principal da instituição.

A XP projeta expansão de 2% do PIB em 2026, seguida por crescimento de 1% em 2027. A previsão considera a redução dos estímulos fiscais e parafiscais e a manutenção de uma política monetária contracionista, embora menos intensa.

A instituição estima uma Selic de 14% no final de 2026 e de 11,5% no encerramento de 2027.

As projeções da XP são mais conservadoras que a mediana registrada pelo boletim Focus, que aponta Selic de 13,75% em dezembro de 2026 e crescimento de 1,57% do PIB em 2027.

Margato também cita o elevado endividamento de empresas e famílias como um obstáculo à retomada mais consistente da atividade. Entre outros fatores mencionados estão possíveis impactos do El Niño sobre o agronegócio, a reforma tributária e as mudanças em discussão sobre a escala de trabalho 6×1.

Setor varejista monitora possibilidade de recessão

A possibilidade de uma desaceleração mais intensa também esteve entre os assuntos discutidos por investidores e executivos do varejo em evento realizado pela XP, no Rio de Janeiro.

Segundo os analistas Danniela Eiger, Pedro Caravina e Laryssa Sumer, as empresas demonstraram preocupação com a evolução do consumo no segundo semestre de 2026.

O cenário mais difícil tem levado companhias a adotar uma postura mais defensiva, com maior atenção à capacidade de resistência de cada modelo de negócio.

Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, avalia que 2027 pode ser particularmente difícil para a economia brasileira. Para ele, o país se aproxima de um limite para a expansão dos gastos públicos, enquanto empresas e famílias permanecem bastante endividadas.

Ajuste fiscal é apontado como fator decisivo

Para os economistas, a condução das contas públicas terá papel importante na trajetória da economia nos próximos anos.

Margato considera que um eventual choque de confiança relacionado à política fiscal poderia elevar o prêmio de risco, afetando investidores, empresas e consumidores.

Nesse cenário, uma combinação de atividade mais fraca, valorização do dólar e maior pressão sobre a inflação poderia resultar em um quadro de estagflação.

O ajuste fiscal também é apontado por Lima como elemento capaz de facilitar uma redução mais rápida dos juros. Na avaliação do economista, uma mudança considerada confiável na trajetória das contas públicas poderia permitir ao Banco Central reduzir a taxa básica em ritmo maior.

Ele cita como exemplo o período posterior à criação do teto de gastos, em 2016, quando houve queda dos juros de longo prazo e redução da Selic para 6,5%.

Para Perri, um cenário considerado mais favorável dependeria de uma sinalização antecipada dos candidatos sobre a disposição de promover mudanças nas contas públicas, ainda que medidas de contenção de gastos possam produzir efeitos negativos sobre a atividade no curto prazo.

Matheus Jaconeli, analista de investimentos e portfólio da ZIIN, plataforma de investimentos da Unicred, afirma que as projeções do mercado estão mais concentradas em uma desaceleração do que em uma recessão.

O analista também destaca a importância da agenda fiscal e avalia que o início de um novo mandato pode representar uma janela para a implementação de ajustes, antes que o governo concentre esforços em medidas de maior apelo popular.

Segundo Jaconeli, um avanço nessa agenda poderia melhorar as perspectivas para o mercado acionário.

Fonte: Terra Brasil

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