*Por Ricardo Maravalhas

Durante décadas, uma frase orientou silenciosamente a gestão de dados dentro das empresas: “vamos guardar, porque um dia isso pode ser útil”. A lógica parecia irrefutável. Se armazenar informações estava cada vez mais barato e os dados eram considerados o “novo petróleo”, por que descartar qualquer coisa? O tempo mostrou, no entanto, que esse raciocínio produziu um efeito colateral pouco discutido: organizações passaram a acumular enormes volumes de informações que nunca foram utilizadas, mas que continuam consumindo recursos, ampliando riscos e dificultando a governança.

Esse fenômeno ganhou até um nome no universo da tecnologia: dark data, ou dados obscuros. São informações que as empresas coletam e armazenam, mas que permanecem esquecidas, sem qualquer uso para análises, processos ou tomada de decisão. Segundo uma pesquisa global da Splunk, realizada com mais de 1.300 líderes de negócios e tecnologia, cerca de 55% dos dados mantidos pelas organizações são considerados dark data, ou seja, permanecem armazenados sem que seu valor seja conhecido ou explorado. Em um terço das empresas, esse percentual ultrapassa 75% do volume total de informações disponíveis.

O problema não está apenas no desperdício. Quanto maior o volume de dados sem utilidade conhecida, maiores também são os custos e as responsabilidades associados à sua manutenção. Um estudo da Veritas estima que, em média, apenas 15% dos dados corporativos são considerados críticos para o negócio, enquanto 33% correspondem a informações redundantes, obsoletas ou triviais (ROT) e 52% permanecem sem qualquer classificação, formando um enorme estoque de dados cujo conteúdo muitas empresas sequer conhecem. A mesma pesquisa mostra que 86% dos gestores de tecnologia acreditam que esse excesso de informações aumenta o tempo necessário para responder a um incidente de segurança.

Essa realidade ajuda a explicar um paradoxo vivido pelas organizações. Nunca se investiu tanto em inteligência artificial, análise de dados e transformação digital, mas boa parte das informações armazenadas simplesmente não gera qualquer valor. Em vez de apoiar decisões estratégicas, elas permanecem esquecidas em servidores, bancos de dados, backups e plataformas em nuvem, aumentando despesas com armazenamento, segurança, conformidade regulatória e gestão da informação. 

Parte dessa cultura nasceu porque armazenar dados realmente ficou barato. O custo da infraestrutura diminuiu, a capacidade dos servidores aumentou e a computação em nuvem eliminou muitas das antigas limitações físicas. O que não diminuiu foi o custo de proteger essas informações. Cada dado armazenado precisa ser monitorado, classificado, protegido contra ataques cibernéticos, submetido a políticas de retenção e tratado em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Em outras palavras, guardar um dado pode até ser barato, administrá-lo, definitivamente, não é.

O avanço da inteligência artificial também contribuiu para fortalecer esse comportamento. Muitas organizações passaram a acreditar que quanto maior a quantidade de dados disponível, melhores seriam os resultados obtidos pelos algoritmos. Essa percepção, entretanto, ignora um aspecto fundamental: qualidade vale mais do que quantidade. Dados duplicados, desatualizados, incompletos ou sem contexto comprometem análises, aumentam vieses e dificultam a obtenção de resultados confiáveis.

Não por acaso, um levantamento da Seagate, realizado em parceria com a IDC, concluiu que 68% dos dados disponíveis nas empresas nunca chegam a ser utilizados, apesar de todo o investimento realizado para armazená-los. A LGPD propõe justamente uma ruptura com essa lógica. Ao estabelecer o princípio da necessidade, a legislação determina que o tratamento de dados pessoais deve se limitar ao mínimo necessário para atingir uma finalidade específica. Isso significa substituir uma pergunta que durante anos orientou decisões corporativas “e se um dia isso for útil?”, por outra muito mais estratégica: “esse dado é realmente necessário para o negócio neste momento?”

A mudança parece sutil, mas representa uma transformação profunda na forma como as organizações enxergam seus ativos informacionais. Empresas maduras em governança de dados compreendem que acumular informações sem propósito não amplia seu patrimônio. Ao contrário, aumenta custos, dificulta auditorias, eleva a complexidade operacional e amplia a superfície de exposição para incidentes de segurança. Dados sem finalidade deixam de ser ativos e passam a representar passivos.

Em um ambiente em que as informações se multiplicam em ritmo acelerado, talvez o maior desafio das organizações já não seja produzir mais dados, mas aprender a dizer “não” ao excesso. Isso exige revisar formulários, eliminar campos desnecessários, estabelecer políticas claras de retenção, descartar informações que perderam sua finalidade e abandonar a crença de que armazenar tudo representa uma vantagem competitiva.

No fim das contas, o famoso “um dia isso pode ser útil” tornou-se um dos mitos mais caros da transformação digital. Em tempos de inteligência artificial, ataques cibernéticos e regulamentações cada vez mais rigorosas, a verdadeira maturidade não está em acumular o maior volume possível de informações, mas em saber exatamente quais dados merecem permanecer. Afinal, quanto menor o excesso, maior a capacidade de transformar informação em valor, e menor a chance de transformar dados esquecidos em problemas futuros.


* Ricardo Maravalhas é fundador e CEO da DPOnet, empresa com mais de 5.000 clientes, que nasceu com o propósito de democratizar, automatizar e simplificar a jornada de conformidade com a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) por meio de uma plataforma SaaS completa de Gestão de Privacidade, Segurança e Governança de Dados, com serviço de DPO embarcado, atendimento de titulares, que utiliza o conceito de Business Process Outsourcing (BPO) e IA integrada (DPO Artificial Intelligence)

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