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A “marçalização” da eleição presidencial, sobretudo diante da perspectiva de uma delação premiada arrasa-quarteirão do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, é um cenário improvável, mas não impossível. Há demanda para isso no eleitorado. O que não há é oferta.
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Um recorte até agora não divulgado da pesquisa Genial/Quaest realizada na semana passada indica a brecha para a nacionalização do quadro da eleição municipal de São Paulo em 2024. Naquela ocasião, a eleição para prefeito começou polarizada entre Ricardo Nunes (MDB) e Guilherme Boulos (Psol) e terminou no primeiro turno com um virtual empate triplo dos dois, que foram ao segundo turno, com o terceiro colocado, Pablo Marçal, então no PRTB, hoje no União Brasil, e até o momento inelegível.
De acordo com o levantamento realizado entre 6 e 9 de março, somente 30% dos eleitores afirmam que o melhor resultado para o Brasil seria a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (que obteve 37% de intenção de voto no cenário-base) e 26% diz que o ideal seria a volta da família Bolsonaro ao poder (o senador Flávio Bolsonaro, do PL fluminense, teve quatro pontos percentuais a mais de intenção de voto). Outros 38% não querem isso. Para 22%, o ideal seria um outsider fora da polarização. E para 16% um moderado de terceira via.
Quase dois em cada cinco brasileiros — 38% — acham que seria melhor quebrar a polarização, vontade que, se fosse manifestada em intenção de voto, deixaria um cenário aberto sobre quem iria ao segundo turno. Mas os que escolhem Ratinho Júnior (PSD), Romeu Zema (Novo), Aldo Rebelo (DC) ou Renan Santos (Missão) somam 12% , ou pouco mais de um em cada dez eleitores. É menos da metade do que os 28% que Lula e Flávio conseguem, somados, na espontânea. O eleitor se sente desconfortável com o binarismo nacional, mas parece descartar as alternativas. A eleição presidencial de 2026 pode consagrar o conformismo.
O eleitor potencial que considera um outsider o melhor para o Brasil tem perfil nítido: está na classe média baixa (de dois a cinco salários mínimos de renda ) da região Sul. Nesses segmentos, a crença de que a vitória de um candidato assim seria o ideal representa a maior parcela.
O outsider encontra terreno também na região Sudeste e, curiosamente, entre eleitores apenas com ensino fundamental. Nesse segmento, o otimismo com um outsider supera respectivamente a esperança na reeleição de Lula e a volta da família Bolsonaro. A vitória de um outsider como cenário ideal também ganha tração entre evangélicos, superando os que se sentem melhor com a continuidade do lulismo.
O entusiasmo com a ascensão de um presidente moderado fora da polarização é muito menor. O eleitor típico que vê com mais otimismo esse cenário é o de renda mais alta, com ensino superior completo, das regiões Centro-Oeste e Norte. Mas essa hipótese não lidera em nenhum segmento.
A pesquisa divulgada na semana passada mostra que o principal problema que o eleitor vê no Brasil continua sendo a violência, mas há uma queda desse indicador depois da comoção provocada pela operação nos complexos do Alemão e da Penha, em outubro do ano passado. Voltou ao nível de agosto de 2025, com os 27% registrados em fevereiro e março. A segurança pública é o carro-chefe do discurso de Flávio Bolsonaro, ao lado da anistia ao próprio pai, mas não é uma preocupação em alta para o eleitorado. Os problemas sociais do país sensibilizam entre 18% e 20% do eleitorado, há dez rodadas. Essa é a zona de conforto para Lula, e também não evolui.
Delação de Vorcaro
A preocupação que está em alta para o eleitor não é bandeira de nenhum dos dois, por ora. Pelo contrário, trata-se de assunto potencialmente constrangedor para os dois polos nacionais. E esta é a chave que torna a pesquisa Genial/Quaest inquietante. A corrupção estava no patamar de 13% em novembro, passou para 15% em dezembro , 17% em janeiro e fevereiro e agora foi para 20%. Produto direto do escândalo do Banco Master, deflagrado com a primeira prisão de Vorcaro, no dia 18 de novembro. Para onde vai esse percentual se sair a delação premiada do antigo controlador da instituição financeira?
Na pesquisa Datafolha feita há exatos dez anos, entre 17 e 18 de março de 2016, a corrupção era apontada como principal problema do país por 37% do eleitorado, 16 pontos percentuais acima do registrado um ano antes.
No dia 17 de março de 2016, vazou da Operação Lava-Jato o fatídico diálogo entre a então presidente Dilma Rousseff e o à época ministro indicado para a Casa Civil, Luiz Inácio Lula da Silva, em que ela avisava que mandaria o “Bessias” com o decreto de nomeação do antecessor. Cinco dias depois o país foi informado que o empreiteiro Marcelo Odebrecht havia decidido fazer a sua delação do fim do mundo.
O país vivia um transe a cada dia, e a hipérbole do fim do mundo contempla esse quadro. O livro do Apocalipse na Bíblia também ensina que o Fim do Mundo manda sinais. Segundo descreve João, sete selos de um livro são quebrados. Cada quebra desencadeia uma série de eventos. No rompimento do sétimo selo, soam as sete trombetas, sopradas por sete anjos. Cada trombeta soada é o marco para uma série de calamidades. A metáfora da quinta trombeta é poderosa, com a abertura do poço do abismo, de onde sobe uma nuvem de fumaça que escurece o sol. Há uma sequência dramática, um gradualismo até o desfecho. Os quatro cavalos do Apocalipse, por exemplo, são soltos só na sexta trombeta.
Fins do Mundo no Brasil, contudo, são seletivos e temporários. O apocalipse da década passada representou o fim definitivo do Lulismo durante seis anos. O PSDB, principal referência da oposição, se via como grande beneficiado, mas estava enganado.
Não é possível entender a eleição de 2018 sem conectar as vitórias dos outsiders de então com as consequências do Fim do Mundo de 2016. Além de seletivo e temporário, o Fim do Mundo no Brasil também é cíclico. Há um outro Fim do Mundo em gestação. Se o Sétimo Selo for quebrado, o resultado eleitoral de outubro terá consequências por ora imprevisíveis.
VALOR ECONOMICO
Fonte: Diário Do Brasil
