Foto: Felipe Rau/Estadão

Autor de Brasil no Espelho, livro que traz um raio-X profundo do brasileiro a partir de 10 mil entrevistas lançado no fim do ano passado, Felipe Nunes diz que as mudanças estruturais do mercado de trabalho definirão as próximas eleições. Cientista político e sócio-fundador da Quaest, Nunes afirma que o Partido dos Trabalhadores (PT) do presidente Lula, acostumado a conversar com quem tem carteira assinada, ainda não conseguiu encontrar uma linguagem para falar com o motorista por aplicativo ou o lojista de plataforma de comércio eletrônico, que buscam mais autonomia.

“Quando o governo propõe regulação, jornada de trabalho e carteira assinada como conquistas, está falando para um eleitor que cada vez mais existe em menor proporção — e deixando de falar com uma multidão”, diz ele.

Para Nunes, os bons fundamentos econômicos que o País apresenta colidem com a percepção de que o poder de compra dos brasileiros está menor e contribuem para os resultados negativos do governo, em termos de popularidade. “Macro bom com micro ruim é uma combinação politicamente letal”, afirma. Leia a entrevista, a seguir:

Por que medidas como a isenção de IR para salários de até R$ 5 mil, as discussões sobre a jornada 6×1 ou o Desenrola 2 não têm surtido o efeito esperado na popularidade do governo?

O problema não é a falta de medidas — é a falta de percepção. No caso do Imposto de Renda, houve uma frustração enorme: em outubro de 2025, quando a medida foi anunciada, a pesquisa Genial/Quaest mostrou que 61% dos brasileiros achavam que a isenção ia ter impacto sobre a renda. Na pesquisa de março deste ano, só 31% dos entrevistados admitiam ter sido beneficiados. Ou seja, o governo criou uma expectativa que não se converteu em benefício real para a maioria. Essa distância entre as ações do governo e o que o cidadão sente no bolso é chave para entender por que as medidas não têm maior efeito sobre a popularidade. Com a jornada 6×1 essa distância se evidencia de outra maneira. Além de ser uma mudança que atinge basicamente os trabalhadores formais (e no Brasil a gente vê a informalidade avançar de maneira impressionante), o discurso do governo fala no aumento do período de descanso como principal atrativo. Mas o que a gente vê em pesquisas qualitativas é que boa parte das pessoas usaria esse tempo livre para arranjar um outro trabalho e aumentar a renda, porque o dinheiro não está dando. O que as pessoas percebem de forma concreta é o preço dos alimentos e a inflação do dia a dia.


Essas soluções são inspiradas num modelo mais antigo de política, acostumado às demandas dos movimentos sindicais e dos trabalhadores CLT — a origem do PT?

Sim, e esse é um diagnóstico preciso. O PT foi construído sobre uma visão de mundo centrada no trabalho formal, na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), na organização sindical. O problema é que o Brasil mudou. Pouca gente se deu conta de que a eleição de 2026 vai ser uma eleição sobre o mercado de trabalho. E o mercado de trabalho que vai definir o resultado não é mais o da fábrica ou do funcionalismo — é o dos aplicativos, dos MEIs (microempreendedores individuais), dos autônomos. O PT ainda não encontrou uma linguagem para falar com esse eleitor. Mas pode encontrar, se quiser. Tem legitimidade pra falar sobre trabalho. Só não deveria falar no modelo tradicional. Quando o governo propõe regulação, jornada de trabalho e carteira assinada como conquistas, está falando para um eleitor que cada vez mais existe em menor proporção — e deixando de falar com uma multidão.

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O crescimento dos trabalhadores de plataformas digitais pode ter contribuído para essa falta de retorno em termos de popularidade?

Diretamente — e é importante entender quem é esse eleitor. O que as nossas pesquisas qualitativas mostram é que esses trabalhadores são filhos das classes D e E, jovens em sua maioria, que passaram a ter uma outra visão de mundo. O que une essas pessoas é uma identidade. Eles se enxergam como empreendedores, detestam ser chamados de “precarizados” e dizem que não precisam de carteira assinada nem de proteção do Estado. Quando o governo propõe regulação das plataformas com foco em vínculo empregatício, uma parte relevante desse público lê como ameaça à sua autonomia, não como proteção. O PT ainda não encontrou uma linguagem para falar com esse eleitor — e esse grupo só aumenta. O governo ignorou essa mudança cultural.

Teria sido mais interessante insistir na regulamentação das profissões ligadas a plataformas, em vez de deixá-la para o próximo governo?

A janela era real, mas o desafio é imenso, exatamente pelo que comentei há pouco. Esse é um eleitor que não entende regulação como proteção, e sim como intromissão indevida na sua liberdade. E o governo tem uma visão diametralmente oposta. O ponto central não era apenas regular — era construir uma narrativa de que o governo entende esse novo trabalhador. Acho que se perdeu uma oportunidade aqui. De mostrar que sabia que tinha chance de melhorar sua conexão com esse público. Mas talvez tenha faltado escuta e uma linguagem diferente.

Lembra a música dos Titãs: ‘A gente não quer só comida’. Quando a expectativa não encontra eco na realidade por muito tempo, o resultado é a frustração, que se transforma em ressentimento político.

Felipe Nunes

Há um desencanto geral com a melhoria esperada na qualidade de vida, como, por exemplo, a segurança e o retorno do ensino superior?

Concordo, e os dados sustentam isso. As pessoas da geração que eu chamei de geração .com no meu livro Brasil no Espelho viram políticas públicas beneficiarem suas famílias, tiveram mais acesso ao ensino superior mas não conseguem a ascensão social prometida a partir do esforço individual e do estudo. São pessoas nascidas entre 2000 e 2009, que cresceram nos primeiros governos Lula e têm sua juventude marcada por crise política e baixo crescimento econômico. O Brasil passou por uma expansão enorme do ensino superior — e criou uma geração com diploma e sem perspectiva equivalente ao que esse diploma prometia — tanto em termos de renda quanto em termos de status social, de sonhos de futuro. Isso é uma bomba comportamental. Lembra a música dos Titãs, ‘A gente não quer só comida’. Quando a expectativa não encontra eco na realidade por muito tempo, o resultado é frustração, que se transforma em ressentimento político.

Empresários dizem que a escassez de mão de obra se deve ao Bolsa Família: ninguém quer trabalhar pelos salários oferecidos porque tem o mínimo garantido. O sr. concorda?

Não. Essa é uma narrativa conveniente para quem não quer discutir o próprio salário. O que os dados mostram é algo diferente e mais interessante: 67% dos brasileiros reconhecem impactos positivos do Bolsa Família, mas a maioria acredita que essas políticas são permanentes e não dependem de quem esteja no poder. Ou seja, o programa perdeu sua capacidade de gerar gratidão eleitoral — mas isso não significa que as pessoas estão recusando trabalho por causa dele. O que está acontecendo é que o trabalhador brasileiro, especialmente o mais jovem, está comparando opções. Se o salário oferecido não compensa o esforço em relação ao que ele consegue como autônomo ou entregador, ele vai preferir a autonomia. Isso não é preguiça — é cálculo. E o mercado precisa responder a esse cálculo.

Essa eleição será menos influenciada pelos fundamentos econômicos do que as anteriores, dado que os indicadores macro parecem bons, mas a popularidade do governo não acompanhou?

Essa é uma pergunta muito importante. O que as nossas pesquisas mostram é que o eleitor não vota no PIB (Produto Interno Bruto) — ele vota de acordo com a sua percepção. Fatores como o preço dos alimentos e dos combustíveis e a percepção de que o poder de compra dos brasileiros é menor do que era há um ano contribuem para os resultados negativos do governo. Macro bom com micro ruim é uma combinação politicamente letal. Além disso, 71% dos entrevistados acreditam que o presidente não tem conseguido cumprir suas promessas de campanha. Quando há quebra de confiança, os indicadores econômicos positivos deixam de se converter em aprovação. O eleitor desconfia do narrador, não só da narrativa. Para 2026, o desafio do governo não é econômico — é de credibilidade.
Com informações de ESTADÃO

Fonte: Diário Do Brasil

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