
Algumas crianças parecem sentir tudo com mais intensidade, têm mais dificuldade para lidar com mudanças, demoram mais para se acalmar ou reagem de maneira mais forte diante de frustrações. Outras são mais adaptáveis, tranquilas ou abertas a situações novas. Essas diferenças, que muitas vezes fazem os adultos classificarem uma criança como “difícil”, podem estar relacionadas ao temperamento, ou seja, características individuais que aparecem desde os primeiros anos de vida e influenciam a maneira como cada criança reage e se relaciona com o ambiente.
Um dos maiores estudos internacionais sobre o tema, publicado em 2024 na revista Developmental Psychology, analisou 83.423 avaliações feitas por pais de crianças de 59 países e identificou padrões consistentes em três grandes dimensões que ajudam a descrever diferenças temperamentais entre crianças: afetividade negativa, ou seja, tendência a experimentar emoções negativas com maior frequência ou intensidade, como medo, irritação, tristeza ou desconforto, capacidade de regulação, ou seja, a habilidade de controlar a atenção e o comportamento e modular as próprias reações, e “surgency”, termo que não tem uma tradução exata em português, mas significa ter energia, entusiasmo e buscar por estímulos.
Para a psiquiatra Danielle Admoni, especialista pela ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) e supervisora na residência de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp/EPM), compreender essas diferenças é importante porque o comportamento infantil não pode ser analisado apenas a partir da ideia de obediência ou desobediência.
A ciência tem mostrado também que a interação entre as características da criança e o ambiente em que ela cresce pode ser determinante. Um estudo longitudinal publicado em 2025 no Journal of Family Psychology, com 4.898 crianças, encontrou associação entre maior responsividade dos pais (percebem os sinais da criança e respondem a eles de maneira adequada, sensível) e menos problemas internalizantes, como sintomas de ansiedade e depressão, e observou que essa relação era especialmente relevante entre crianças com níveis moderados ou altos de afetividade negativa.
Assim, uma estratégia que funciona bem com uma criança pode não produzir o mesmo resultado com outra. A questão não é “ceder” ao comportamento infantil, mas entender quais características estão por trás dele e quais habilidades ainda estão em desenvolvimento.
Para os pais, a principal mensagem é que conhecer o temperamento pode ajudar a substituir rótulos por uma compreensão mais precisa do comportamento. Uma criança que se desorganiza diante de mudanças, por exemplo, pode precisar de mais previsibilidade; outra, que reage intensamente à frustração, pode precisar de mais ajuda para desenvolver estratégias de regulação emocional. Isso não elimina a necessidade de limites, mas pode mudar a forma como eles são estabelecidos.
Também é importante diferenciar características temperamentais de sinais de sofrimento ou de alterações que precisam ser investigadas. Quando determinados comportamentos são muito intensos, persistentes, provocam sofrimento ou prejudicam significativamente a vida familiar, escolar ou social, a avaliação de um profissional pode ajudar a compreender o que está acontecendo.
