
REPPRDUÇÃO STF/ ESTADÃO
Quatro dias após a remessa do rascunho por Viviane, o banqueiro devolveu o documento à mulher do ministro pelo WhatsApp, com marcas de revisão, segundo a investigação. “Boa noite! Segue o documento preenchido. Foi incluída apenas a cláusula I.3. Por favor, nos indique se está adequada. Caso estejam de acordo, combinamos a assinatura! Um abraço”, escreveu Vorcaro em 15 de janeiro de 2024, às 21h22.
Esses trechos da interlocução entre Viviane e Vorcaro foram extraídos do celular do banqueiro, apreendido em novembro de 2025 na primeira fase da Operação Compliance Zero.
A versão do contrato, devolvida por Vorcaro a Viviane, de acordo com os metadados do arquivo, foi aberta e modificada no sistema Office 365 utilizado pelo ministro do STF. O perfil que alterou o documento, segundo os metadados do contrato, é intitulado “Ministro Alexandre de Moraes”.
Os dados do arquivo foram examinados a partir das informações armazenadas no próprio contrato. Na aba “Propriedades” de documentos atrelados ao Office 365, sistema da Microsoft utilizado para abrir e editar arquivos, ficam registrados dados técnicos e descritivos, como autor, título e informações sobre datas e horários em que alterações foram realizadas no documento.
O armazenamento desses registros no arquivo do contrato permitiu a identificação da edição atribuída ao ministro às 23h04 de 15 de janeiro de 2024, cerca de 1 hora e 40 minutos após a devolução do documento por Vorcaro a Viviane.
Na versão analisada, Guilherme de Toledo Benazzi, administrador do escritório Barci de Moraes, aparece como “autor” do documento.
O contrato entre Vorcaro e o escritório da mulher do ministro do STF previa o pagamento de pró-labore em 36 parcelas mensais e sucessivas de R$ 3 milhões líquidos cada, totalizando R$ 108 milhões.
A 11ª cláusula do acordo deixa expresso que o valor das parcelas é livre de impostos, com valor bruto de R$ 3.646.529,77 por parcela, a serem depositados até o quinto dia útil de cada mês. Em valores brutos, Vorcaro iria desembolsar R$ 131.274.351,72 para honrar o contrato firmado com o Barci de Moraes.
Os pagamentos foram interrompidos após a prisão do banqueiro, em 17 de novembro de 2025, no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, durante a primeira fase da Operação Compliance Zero. Ele estava na iminência de embarcar para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
A declaração de Imposto de Renda do Master, enviada em abril à CPI do Crime Organizado, do Senado, revelou que o escritório de Viviane recebeu da instituição financeira R$ 80.223.653,84 entre 2024 e 2025.
À época, o escritório declarou que “não confirma essas informações incorretas e vazadas ilicitamente, lembrando que todos os dados fiscais são sigilosos”.
Segundo os documentos obtidos pela CPI, o Master fez 22 pagamentos de R$ 3.646.529,72, entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, quando o Banco Central decretou a liquidação do banco de Vorcaro.
‘Envelope lacrado e confidencial’
Antes da edição e revisão do contrato atribuída a Moraes, as modificações feitas pela equipe jurídica de Daniel Vorcaro foram conduzidas por Leonardo Palhares, advogado do banqueiro e alvo da terceira fase da Operação Compliance Zero, em março deste ano, sob suspeita de pagar propina aos diretores do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza e Belinne Santana – ambos negam ilícitos.
Em 17 de janeiro de 2024, Viviane de Moraes retornou ao banqueiro a versão final do contrato, mantendo o prazo acordado de 36 parcelas mensais e sucessivas, no valor fixo de R$ 3 milhões líquidos cada. “Bom dia! Segue a minuta do contrato. Abraço”, escreveu às 10h09 “Vivi Moraes”, nome do contato salvo no celular do banqueiro.
A resposta de Vorcaro à mulher do ministro foi enviada cinco dias depois, em 22 de janeiro, e acompanhada de um questionamento sobre a forma de assinatura do contrato no valor de R$ 131 milhões brutos. “Oi, tudo bem? Como podemos proceder na assinatura? Prefere eletronicamente ou mando as vias físicas assinadas?”, escreveu Vorcaro, às 11h09.
No dia seguinte, 23 de janeiro, às 7h54, Viviane informou que estava fora do Brasil e pediu que as vias físicas assinadas fossem enviadas para Guilherme Benazzi, administrador do escritório e autor original do documento, segundo os metadados do arquivo analisado.
“Bom dia, tudo bem. Espero que esteja bem, também. Estou fora do Brasil essa semana, mas pode enviar as vias físicas assinadas para o Guilherme Benazzi (administrador do escritório), que assinará e devolverá a sua via.”
A mulher do ministro revelou preocupação com eventual vazamento do negócio e pediu ao banqueiro. “Por favor, mande em um envelope lacrado e confidencial. Obrigada.”
Às 11h17, Vorcaro respondeu: “Oi, tudo bem? Combinado, farei isso! Pode me passar o endereço?”.
“Rua Campos Bicudo, 98, Itaim Bibi”, informou Viviane.
O contrato foi assinado por Vorcaro no mesmo dia, 23 de janeiro, às 15h15. A versão com as assinaturas do controlador do Banco Master foi enviada ao banqueiro por Fabiano Zettel – homem de confiança de Vorcaro, casado com Natalia Vorcaro, irmã do banqueiro.
Fabiano Zettel está preso desde março, alvo da terceira fase da Operação Compliance Zero. Ele nega envolvimento nas fraudes.
No dia seguinte, 24 de janeiro de 2024, Viviane de Moraes pediu que Vorcaro enviasse o contrato assinado digitalmente para os endereços de e-mail informados pela mulher do ministro.
“Daniel, boa tarde. Por favor, você consegue me enviar o contrato assinado digitalmente?”, perguntou Viviane.
“Oi, tudo bem? Consigo, sim.”
“Ótimo! Obrigada.”
“Enviamos ao endereço as vias físicas com nossa assinatura digital. Você prefere que mandemos via assinatura eletrônica para vocês?”, questionou o banqueiro.
“Sim, por favor, para que possamos assinar no mesmo documento”, concluiu Viviane.
O que diz o escritório Barci de Moraes
“Em virtude da abrangência do pedido de contratação de prestação de serviços advocatícios pelo Banco Master ao BARCI DE MORAES, o setor de compliance do escritório, como faz em outros casos semelhantes, solicitou informações ao Ministro Alexandre de Moraes, na condição de marido da sócia diretora do referido escritório, sobre a eventual existência de impedimentos legais para a contratação nos termos propostos na minuta contratual, tais como ações no STF sobre sua relatoria ou mesmo participação em julgamentos de interesse do possível cliente. Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o Ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados”.
Com informações de ESTADÃO
Fonte: Diário Do Brasil
