
O desmantelamento silencioso dos Comités Locales de Abastecimiento y Producción (CLAP) sob o governo interino de Delcy Rodríguez encerra uma década em que a fome dos venezuelanos deixou de ser apenas uma tragédia humanitária e passou a funcionar como peça central de um narcoestado híbrido: ao mesmo tempo instrumento de controle social, máquina de lavagem de dinheiro e renda paralela para grupos criminosos aliados ao chavismo.
O programa nasceu em 2016, no auge da crise econômica e da escassez de alimentos no governo de Nicolás Maduro. Durante dez anos, caixas com feijão, massa e óleo circulavam pelo país como a principal, e muitas vezes única, rede de assistência alimentar para milhões de famílias.
A partir de agosto de 2025, segundo moradores, fornecedores e reportagens locais, as entregas começaram a atrasar de forma crescente. No início de 2026, simplesmente pararam. Não houve comunicado oficial. Em paralelo, a administração Rodríguez passou a testar lojas de alimentos a preços reduzidos, como substituto discreto.
Comida como negócio e lavagem
O CLAP nunca foi só um programa social. Funcionários chavistas e empresários com acesso ao poder o transformaram em esquema de enriquecimento e lavagem de dinheiro.
A figura mais emblemática é o colombiano Alex Saab, apontado como testa de ferro de Maduro e acusado nos Estados Unidos de lavagem de recursos ligados ao programa.
Com o sócio Álvaro Enrique Pulido Vargas, o esquema comprava alimentos e montava as caixas no exterior, sobretudo no México, e as revendia a empresas estatais venezuelanas a preços inflados. Parte do dinheiro alimentava propinas e comissões em cadeia.
Investigacões do siteArmando.infomostraram o outro lado da operação: produtos frequentemente imprestáveis para consumo, com composição diferente da anunciada no rótulo.
A fome era cobrada duas vezes, no preço pago pelo Estado e na qualidade entregue à população.
O Estado que terceiriza programa de ajuda para o crime
O regime também entregou a distribuição a grupos armados aliados. O ELN usou as caixas do CLAP como ferramenta política na fronteira com a Colômbia: em 2018, a ONG Fundación Redes denunciou que a guerrilha controlava a entrega em municípios fronteiriços e colava adesivos com mensagens pró-ELN nos pacotes.
Outras organizações criminosas fizeram o mesmo por lucro. O Tren de Aragua, segundo Transparencia Venezuela, chegou a controlar pelo menos 66 pontos de distribuição por meio da Fundação Somos al Barrio JK.
Em vez de vender a preço subsidiado, cobrava mais. A estrutura de Carlos Capa, que por anos dominou os Valles del Tuy, também operou no mesmo circuito.
Os colectivos, grupos armados pró-regime, usaram o programa com dupla finalidade: renda e coerção eleitoral.
Durante votações, posicionavam a distribuição de alimentos ao lado das urnas, nos chamados “puntos rojos”, onde o venezuelano precisava renovar o Carnet de la Patria para ter direito à caixa do CLAP.
O regime terceirizava a chantagem política e transformava a fome em voto.

O que o fim do CLAP muda e o que não muda
Muitas das organizações criminosas que lucravam com a distribuição já foram desarticuladas ou enfraquecidas. O ELN tem renda diversificada, ouro ilegal, tráfico e extorsão, e não depende do programa.
Os colectivos, historicamente mais atados aos recursos do Estado, são os que mais sentem o corte. A tendência, aponta o InSight Crime, é que compensem a perda com mais extorsão e outras fontes ilícitas.
O silêncio oficial sobre o fim do CLAP é coerente com o que o programa sempre foi: um mecanismo opaco, sem prestação de contas, que misturou assistência, corrupção e poder territorial.
Substituí-lo por mercearias com desconto pode aliviar a imagem de abandono, mas não apaga o modelo que, por dez anos, transformou a necessidade básica de comer em instrumento de uma ditadura que governava também pelo crime.
