
Foto: Ricardo Stuckert / PR
Após encontro com Donald Trump, Lula adotou tom de quem saiu da reunião com vantagem política. Em discurso, o petista afirmou que Brasil e Estados Unidos têm papel central como “as duas maiores democracias do hemisfério” e defendeu que a relação entre os países deve servir de exemplo ao mundo.
Mas o ponto que chamou atenção foi o tom professoral usado por Lula ao falar de comércio, China, América Latina e crime organizado. O presidente disse ter escrito a Trump para lembrar que os EUA perderam espaço comercial para a China a partir de 2008 e reclamou que empresas americanas deixaram de disputar obras no Brasil, como rodovias e ferrovias.
Lula também aproveitou para criticar a política de tarifas de Trump, chamando-a de prática unilateralista, e defendeu acordos do Mercosul com União Europeia, Canadá, Japão e Singapura como resposta em defesa do multilateralismo.
Na parte mais polêmica, Lula disse ter tratado com Trump da questão das drogas e do crime organizado. Em vez de defender uma linha dura imediata contra narcotráfico e facções, o presidente brasileiro afirmou que o caminho seria criar alternativas econômicas para países produtores de drogas, dizendo que não adianta pedir que deixem de plantar coca sem oferecer outro produto capaz de gerar renda.
O discurso soou, para críticos, como uma tentativa de Lula posar como líder regional capaz de “ensinar” Trump sobre América Latina, comércio internacional e até combate às drogas. Depois do encontro, o petista pareceu se gabar de ter conduzido a conversa em seus próprios termos, tentando vender a imagem de que colocou Trump no bolso — ainda que, na prática, os Estados Unidos sigam defendendo uma política muito mais dura contra o crime organizado internacional.
A fala revela a estratégia de Lula: transformar uma reunião diplomática em palco político interno, apresentando-se como estadista global enquanto critica o unilateralismo americano e tenta reposicionar o Brasil como porta-voz da América Latina.
POR JUNIOR MELO
