Prevenção da violência, implementação da política nacional de cuidados e enfrentamento à crise climática são alguns dos desafios que precisam ser endereçados pelos candidatos e candidatas às eleições 2026 (Paulo Pinto/Agência Brasil)

Na reta final da campanha, todos os candidatos têm buscado falar com as mulheres atrás de voto. Segundo as estatísticas mais recentes do TSE, 53% do eleitorado é feminino. E no recorte específico detalhado pelo Instituto Datafolha para a pesquisa espontânea, 26% das mulheres ainda não sabiam em quem votar. Entre os homens, o percentual era de 14%.

“Sem dúvida, existe hoje uma consciência muito maior sobre a importância do voto das mulheres. Estamos falando de mais da metade do eleitorado. São elas, ao final, que, talvez, decidam quem vai ser eleito”, diz Gallianne Palayret, representante da ONU Mulheres no Brasil.

Muito além das promessas e discursos, é importante avaliar a consistência das propostas dos candidatos e candidatas. “Compromisso sem meta, orçamento e prazo dificilmente se transforma em política pública concreta”, pontua Palayret, que é graduada em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Políticos – Science Po (França) e mestre em Direitos Humanos e Democratização.

“No Brasil, a violência e as desigualdades de gênero e raça ainda limitam o acesso das mulheres ao poder, à renda, ao cuidado, à proteção social e às respostas à crise climática”, aponta documento da ONU Mulheres recém-lançado com 10 propostas dirigidas às candidatas e aos candidatos, aos partidos e a toda a sociedade.

ENTRAVES PARA A IMPLEMENTAÇÃO DE POLÍTICAS PARA AS MULHERES

A maior parte das propostas listadas no documento aponta o financiamento como um entrave importante para a implementação de políticas. “A questão não é apenas se há recursos. Precisamos saber se esses recursos são previsíveis e, sobretudo, se são efetivamente executados. Muitas vezes, estão anunciados, mas depois você não sabe se foram ou não executados”, afirma a representante da ONU Mulheres.

O Brasil já deu um primeiro passo ao incorporar uma agenda transversal para as mulheres no planejamento plurianual do governo federal. Apesar do avanço, ainda não sabemos, segundo ela, quanto o poder público, nos diferentes níveis, destina e executa efetivamente para políticas que promovam igualdade de gênero, por exemplo. Políticas como a de cuidado, enfrentamento à violência e autonomia econômica estão distribuídas entre diferentes ministérios e também entre a União, estados e municípios, o que torna o cálculo complexo.

“Uma das propostas é justamente avançar para um orçamento com mecanismos que permitam identificar, acompanhar e tornar público quanto está sendo destinado e efetivamente executado nessas políticas porque não basta ter um recurso autorizado no papel”, defende. “Para manter uma creche, uma casa de acolhimento para vítimas de violência e um serviço de atendimento que funcione, você precisa de um financiamento previsível e contínuo. É isso que ainda hoje é um problema.”

PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES

Outra questão importante trazida pelo documento é a prevenção da violência contra as mulheres. “São pelo menos quatro mulheres mortas por dia. Não podemos atuar somente depois que a violência aconteceu. Precisamos investir de forma consistente para evitar que ela aconteça”, alerta Palayret, que chama a atenção também para a questão da raça. “Quando falamos em mulheres, como se fosse um grupo homogêneo, deixamos de enxergar desigualdades que são muito importantes no Brasil. Mulheres negras, indígenas e de outros grupos enfrentam barreiras adicionais que precisam aparecer tanto no diagnóstico quanto nas respostas.”

Para Gallianne, a prevenção é o que vai permitir, no longo prazo, a redução da violência contra as mulheres de maneira duradoura. Dada a dimensão – e a escalada – dessa violência, há, no entanto, ações que precisam ser tomadas já. “Primeiro, fazer com que as medidas protetivas funcionem no tempo necessário para proteger uma vida. Isso significa uma concessão rápida dessas medidas, monitoramento efetivo do descumprimento e uma melhor articulação entre polícia, Justiça e rede de atendimento”, enumera.

Segundo ela, também seria importante utilizar as boas práticas que já existem no Brasil em relação à Casa da Mulher Brasileira, um centro integrado que reúne serviços especializados de acolhimento, proteção e Justiça para mulheres em situação de violência doméstica e familiar.

Nem todo o município brasileiro tem um serviço especializado. Garantir uma porta de entrada para as vítimas de violência em todo o território nacional é fundamental, assim como capacitar os serviços que já existem, como a atenção básica de saúde, Cras, Creas, escolas, delegacias, entre outros, para que eles possam ajudar a identificar situações de violência, acolher e encaminhar corretamente essas mulheres e meninas, acrescenta a representante da ONU Mulheres.

IMPLEMENTAÇÃO DA POLÍTICA NACIONAL DE CUIDADOS

Além do direito a uma vida sem violência, o documento da ONU Mulheres chama a atenção para o direito de cuidar e ser cuidada, uma questão que “precisa ganhar mais espaço no debate público”, segundo Palayret. “O cuidado ainda é tratado muitas vezes apenas como uma questão social, até individual, quando também é uma questão econômica, de infraestrutura, de participação das mulheres no mercado de trabalho e na vida pública”, diz.

As brasileiras dedicam, em média, 21,3 horas por semana a afazeres domésticos e cuidados de pessoas; os homens, 11,7. São quase dez horas a mais, que faltam para estudar, trabalhar, descansar e participar da vida pública. Para as mulheres pretas e pardas, a sobrecarga é ainda maior: 1,6 hora acima da média das mulheres brancas.

“O Brasil já tem uma política nacional de cuidados e isso é uma conquista importante. O problema já não é a ausência de um marco normativo”, diz Gallianne Palayret. Mais uma vez, o desafio é garantir recursos previsíveis e a articulação entre diferentes níveis de governo. “Cuidado é um serviço permanente, não um projeto pontual. Sem recursos previsíveis, fica difícil”, afirma, acrescentando que também é importante “olhar para a realidade concreta das famílias”. “Uma creche que fecha às 17h, por exemplo, não resolve o problema de uma mulher que trabalha até as 18h”, exemplifica.

O MACHISMO É UM PROBLEMA PÚBLICO

“Machismo não é um problema individual. Nem uma opinião pessoal. É importante tratá-lo como um problema público”, defende a representante da ONU Mulheres no Brasil. Um enfoque novo e urgente, em tempos de crescimento de movimentos e comunidades online ligados ao que se chama de machosfera.

Levantamento recente realizado pela Ipsos em parceria com o Instituto Global de Liderança Feminina do King’s College London aponta que 31% dos jovens acreditam que a esposa deve sempre obedecer ao marido, mais que o dobro do registrado entre os homens da geração Baby Boomer (nascidos entre 1946 e 1964).

“Esses conteúdos, na maior parte do tempo, não chegam aos jovens de uma forma explícita e, muitas vezes, aparecem primeiro como conteúdo sobre motivação, sucesso, autoajuda e depois, gradualmente, são introduzidos estereótipos rígidos de masculinidade, de misoginia, ideias prejudiciais sobre mulheres e meninas”, alerta.

Para enfrentar esse cenário, não basta, segundo ela, fazer campanha uma vez por ano. “Precisamos de estratégias permanentes de mudanças de normas sociais. Também é necessário envolver escolas, mídias, plataformas digitais, famílias e fundamentalmente, homens e meninos”, defende. A ONU Mulheres lançou, inclusive, junto com o Unicef, um guia de conversa para ajudar as famílias a iniciar esse diálogo.

MULHERES NA AGENDA CLIMÁTICA

Até 2050, a crise climática pode levar 158 milhões de mulheres e meninas à pobreza extrema, 16 milhões a mais do que homens e meninos; 58 milhões de mulheres vivem em áreas rurais na América Latina, mas só 30% têm terra em seu nome.

Esse é outro tema que não pode ser ignorado nestas eleições e também está presente no documento. “Gênero e raça precisam estar incorporados desde o início da formulação das políticas climáticas, inclusive no orçamento e na avaliação dos resultados”, defende Gallianne Palayret. Também é necessário fazer com o que financiamento chegue na ponta. Organizações lideradas por mulheres desempenham um papel fundamental na proteção de territórios, na segurança alimentar e na resiliência climática, mas enfrentam barreiras históricas de acesso a recursos.

Os desafios são muitos e variados. A lista produzida pela ONU Mulheres poderia ter, segundo a representante, mais de 100 medidas. Seu mérito, no entanto, está em elencar prioridades que ajudam a refletir sobre o voto e a cobrar medidas depois. “Uma democracia que não reflete quem a compõe decide pior e para menos gente”, afirma, com razão, o documento. Independentemente das suas escolhas, pense nisso antes de resolver para quem vai dar o seu voto neste domingo (4/10).

Com informações de Veja

Fonte: Diário Do Brasil

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