
Por Valcelí Leite
Lavar a louça, pagar uma conta, levar o lixo ou fazer uma compra parecem tarefas simples.
Mas, para um casal que convive com o TDAH, essas atividades podem se transformar em motivo constante de discussão.
E uma frase costuma aparecer:
“Eu tenho que pedir tudo.”
Quando a tarefa vira uma discussão
Imagine que a esposa peça ao marido para pagar uma conta.
Ele diz que vai fazer.
Mas esquece.
Ela lembra novamente.
Ele promete que fará depois.
Esquece outra vez.
Depois de algumas situações assim, o problema deixa de ser apenas a conta.
Ela começa a pensar:
“Não posso contar com ele.”
Ele começa a pensar:
“Ela só sabe reclamar de mim.”
A conta ficou para trás.
Agora existe um problema de confiança.
TDAH pode dificultar a execução
Uma pessoa com TDAH pode saber que precisa fazer determinada tarefa e, ainda assim, ter dificuldade para iniciar, organizar ou concluir aquilo que precisa ser feito.
Isso pode acontecer principalmente com atividades repetitivas, pouco estimulantes ou que não apresentam uma consequência imediata.
Por isso, dizer simplesmente:
“É só ter responsabilidade.”
nem sempre resolve.
Mas existe outro ponto igualmente importante:
TDAH também não deve ser usado como desculpa para não assumir responsabilidades.
Quando a esposa vira fiscal
Depois de muitas falhas, é comum que o outro cônjuge comece a controlar a rotina.
“Você já fez?”
“Não esquece.”
“Tem que fazer hoje.”
“Eu já falei isso.”
“Se eu não lembrar, você não faz.”
A intenção pode ser fazer a casa funcionar.
Mas o resultado pode ser outro.
A esposa fica sobrecarregada.
O marido se sente controlado.
Ela aumenta as cobranças.
Ele aumenta a resistência.
E o casamento entra em um ciclo difícil.
Como sair desse ciclo?
Uma alternativa é parar de depender exclusivamente da memória.
Calendários compartilhados, alarmes, listas e lembretes visuais podem ajudar.
Também é importante dividir responsabilidades de maneira clara.
Não apenas:
“Você precisa ajudar mais.”
Mas:
“Essa tarefa é sua. Você será responsável por ela do começo ao fim.”
Assim, cada adulto sabe o que precisa fazer.
O objetivo não é controlar. É organizar.
O casal não precisa funcionar como chefe e funcionário.
Também não precisa esperar que uma pessoa lembre tudo para a outra.
O homem com TDAH precisa assumir responsabilidade pelas próprias estratégias de organização.
A esposa precisa deixar de ocupar permanentemente a posição de fiscal.
O objetivo é construir uma rotina em que os dois possam funcionar como parceiros.
Porque, muitas vezes, a briga pela louça, pela conta ou pelo lixo não é realmente sobre a tarefa.
É sobre a sensação de estar sozinho dentro do casamento.
E quando o casal entende isso, começa a ser possível discutir o problema real — e não apenas a próxima tarefa esquecida.
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Valcelí Leite (@ValceliLeite) é Psicanalista, Teoterapeuta (Terapia Cristã), Terapeuta Familiar Sistêmico e Pastor, atual presidente da ABRATHEO (Associação Brasileira de Teopsicoterapia), com formação em Fisioterapia e pós-graduações em Terapia Familiar Sistêmica, Cognitive Behavioral Therapy – TCC, e MBA em Teoterapia e Competência Emocional. Atua como teopsicoterapeuta com orientação a casais e famílias. Palestrante sobre temas como Educação de Filhos, Internet e Vida Conjugal, Ciência do Bem-estar e Como Evitar a Ansiedade. Ex-superintendente em instituição filantrópica, com gestão em treinamento de liderança, formação de equipes e palestras motivacionais em quatro estados brasileiros e mais de 30 cidades.
