Evitar o fracasso que atinge 95% dos projetos de inteligência artificial requer mudanças radicais na gestão das empresas. Apostar em melhorias pontuais — estratégia comum no início da transformação digital, há cerca de dez anos — já não basta. Para funcionar, a IA exige transformações profundas e fundamentadas no sistema lean, modelo de gestão originário do método Toyota de produção.

O alerta é de Cesar Gon, fundador e CEO da CI&T, multinacional brasileira de tecnologia, há mais de 30 anos atuando no setor, hoje com cerca de 6 mil colaboradores em nove países e que acaba de divulgar uma pesquisa com a MIT Sloan Management Review Brasil que revelou que apenas 5% das iniciativas de IA alcançam os resultados esperados.

Isso ocorre porque, segundo o CEO, o jogo mudou: há cerca de uma década, no auge da digitalização, aplicar “kaizens”, melhorias contínuas e pontuais antes de automatizar processos, já se mostrava suficiente.

No entanto, na atual era dos algoritmos, a necessidade é totalmente outra: agora é preciso fazer o “kaikaku”, ou seja, uma reestruturação radical de todo o fluxo produtivo e de trabalho antes de implementar IA, que é o que a maioria das empresas está bem longe de fazer.

“kaizen” e “kaikaku”, no caso, são conceitos e práticas essenciais do sistema lean, modelo de gestão que, em resumo, visa desenvolver pessoas para que, em tudo o que fazem, eliminem desperdícios, resolvam problemas e aumentem a agregação de valor aos clientes.

É o que explica, na entrevista a seguir, o CEO da CI&T, que também falou sobre o papel das lideranças nessa nova era, a importância de manter o ser humano no centro para, entre outras coisas, evitar a “bajulação algorítmica” e porque a IA é “inescapável” para os trabalhadores do conhecimento.

Além disso, Gon também comemorou aquele que, segundo ele, será o primeiro encontro do mundo de empresas que vão discutir a união necessária entre sistema lean e IA, o “Lean AI Summit 2026”, parceria entre o Lean Institute Brasil (LIB), a CI&T e o Cubo Itaú, em São Paulo (SP), onde o evento vai ocorrer no dia 24 de setembro.

Há cerca de uma década, o “lean digital” ensinou que é preciso otimizar processos antes de digitalizá-los, sob o risco de “digitalizar desperdícios”. Isso se aplica hoje à IA?

Cesar Gon – Isso vale de uma maneira ainda mais radical e necessária para a inteligência artificial. Porque naquela época do “lean digital”, antes de digitalizar um processo de produção era suficiente fazer nele um “kaizen”, ou seja, uma melhoria rápida, específica, pontual e simples. No entanto, com o desenvolvimento e uso da IA, só isso já não é mais suficiente. Agora, a gente precisa fazer um “kaikaku”: deve-se repensar os processos “do zero” sob a ótica das novas possibilidades da inteligência artificial; fazer mudanças profundas e estruturais nos processos antes de aplicar os algoritmos. Porque quem vai executar a maior parte do trabalho não serão mais os humanos, mas os agentes digitais. Então, não faz mais sentido otimizar “pedaços” do fluxo de produção; é necessário repensar, reimaginar todo o fluxo à luz das possibilidades da IA e dessas arquiteturas digitais. E isso significa muito mais “kaikaku” do que “kaizen”.

Isso também explica esses 95% das iniciativas de inteligência artificial nas empresas que hoje fracassam? O sistema lean pode mudar isso?

Cesar Gon – Sim, a falta de “kaikaku” também explica a atual onda de fracassos. O grande desafio da introdução de IA nas empresas é ter uma visão sistêmica sobre todas as perspectivas de mudanças que são necessárias. O sistema lean dá essa visão. Ele nos traz esse arcabouço sistêmico de se pensar em várias dimensões. Primeiro, no propósito da geração de valor, que é o nosso “telhado” da “casa lean”. Também nos dois “pilares” dessa “casa”, com relação à reinvenção necessária de processos para essa introdução radical de uma tecnologia que vai mudar a natureza do trabalho, que deixa de ser exclusivamente humano e se torna uma composição entre humanos e agentes digitais. Depois, com relação às pessoas, às capacidades e habilidades necessárias dos indivíduos, ou seja, o que a “turma” terá de aprender para conseguir jogar o jogo da inteligência artificial. E ainda dentro da “casa lean”, também estão os hábitos de liderança, que é um dos fundamentos do pensamento lean. Finalmente, a mudança de cultura: as premissas que precisam mudar para que a empresa consiga se transformar de verdade para esse mundo que vai ser cada vez mais turbinado pela AI. Eu acho que tudo isso o pensamento lean traz de uma maneira muito estruturada. São princípios já testados e provados sobre como pensar gestão, cadeia e transformação. Essa é a grande contribuição do sistema lean para essa disrupção da AI: a visão sistêmica.

Então, implementar o sistema lean e usar IA são dois processos que precisam seguir sempre juntos nas empresas?

Cesar Gon – Na minha visão, o sistema lean ganha um protagonismo ainda maior no campo da IA. Eu já sou um grande defensor do “lean digital”. Nele, o sistema lean nos ajudou a entender como é que a transformação digital poderia ser orquestrada ao respeitar os pilares de processos, de pessoas, de propósitos… Agora, a gente entra numa transformação ainda mais radical, num segundo capítulo da revolução digital, no qual o sistema lean vai ser mais importante para entender tudo o que está acontecendo, para criar os trilhos dessa nova transformação humana e tecnológica.

Quando você pensa em sistema lean e IA, isso significa utilizar lean para desenvolver ou para usar os algoritmos? Ou ambos os casos?

Cesar Gon – Eu penso no sistema lean como um conjunto de princípios que geram uma expansão da nossa capacidade de resolver problemas para o lado certo, mantendo o ser humano no centro, reforçando a disciplina de resolução de problemas, do “pensamento A3”, da visão sistêmica de cadeia de valor de ponta a ponta… Eu acho que esses são elementos fundamentais para que todas essas novas potencialidades da inteligência artificial não se tornem decepções com relação aos resultados, que é o que mostra nossa pesquisa que apontou que hoje 95% das iniciativas com IA fracassam. Isso porque elas foram pensadas só na dimensão tecnológica, mas não na dimensão humana e nem na sistêmica.

O sistema lean coloca as pessoas no “centro” da gestão, para que analisem processos, revelem causas raízes e resolvam problemas. Assim, a IA, ao substituir o ser humano em várias tarefas, não entra em atrito com essa centralidade humana?

Cesar Gon – Está aí também outro papel fundamental da gestão lean na aplicação da IA. Trata-se da terceirizar tarefas para inteligência artificial, mas mantendo o ser humano no centro: o julgamento e a responsabilidade, a accountability, como a gente diz, são essencialmente humanas e não delegáveis. Isso significa criar um ambiente para gerar esse aprendizado humano, que vai fazer essa transformação acontecer na velocidade em que ela tem de ocorrer. Então, eu acho que, na verdade, o lean é a peça que mantém o ser humano no centro dessa transformação.

A IA hoje tende a “bajular” o usuário. Isso não a torna “anti-lean”, já que essa gestão pressupõe que “não ter problemas é o problema”?

Cesar Gon – Eu acho que a inteligência emocional, no fundo, está a serviço do ser humano. Se você tiver a disciplina crítica e a habilidade de usar a AI para entender problemas, encontrar causas-raízes, fazer diagnósticos de “lado esquerdo de A3”, antes de usar os algoritmos para pensar em soluções e em contramedidas, se você mantiver essa disciplina que vem da mentalidade lean, acho que você escapa da armadilha de achar que tudo que sai da AI está certo, que é a tal da “rendição cognitiva”, um dos grandes problemas do uso indisciplinado de inteligência artificial. Se não for assim, você vai reduzindo o seu senso crítico, achando que tudo que sai dela é a verdade. Aí, eu acho que a disciplina lean e o pensamento científico mantêm você no trilho para manter e aumentar o senso crítico nessa interação com os modelos de linguagem.

Ao usar a gestão lean para melhorar os fluxos de produção antes da aplicação da IA, a empresa pode concluir que a solução nem precisa de tecnologia, mas sim de uma contramedida analógica?

Cesar Gon – Eu acho que não. Eu penso que a inteligência artificial é uma tecnologia de propósito geral tão poderosa que não existe nada ou quase nada dentro do trabalho humano que não possa ser reinventado com IA. Então, eu acho que não dá para fugir disso. Não é uma tecnologia de automação. É algo absolutamente transformador. Tudo que se relaciona com linguagem, que é basicamente a maneira como o ser humano se comunica, pode ou vai ser reinventado pela inteligência artificial. Eu acho isso inevitável e inescapável. Penso que seria uma falsa análise de “lado esquerdo de A3” se você achou algum contexto, no qual a AI não faz sentido. O que acontece é que há uma hierarquia de problemas a serem resolvidos. Trata-se de uma tecnologia tão poderosa que você também tem de ter uma disciplina no uso. E isso também vem do sistema lean para evitar, por exemplo, a abertura de “15 frentes” de IA. Precisa do “work in progress”. Ou seja, priorize os problemas, entenda onde a AI vai gerar mais valor e comece por ali. Esse é o ciclo de geração de valor numa engenharia que vem do pensamento lean.

É importante manter o ser humano no centro para, entre outras coisas, evitar a “bajulação algorítmica” da IA

Então, você defende que não há problemas que a AI não possa resolver melhor do que… sem ela?

Cesar Gon – Sim, mas isso com relação a problemas dos trabalhadores do conhecimento. Claro que se você for um corredor de 100 metros, a IA vai lhe ajudar pouco no ato específico de correr. Aí é com você mesmo. Na preparação, no entanto, talvez ela lhe ajude na alimentação etc. Mas não na sua atividade específica de correr os 100 metros. Agora, se você é um trabalhador do conhecimento, necessariamente você precisa expandir a capacidade de resolver problema com inteligência artificial.

Falando sobre liderança, o que um líder precisa fazer — ou evitar — para que a gestão lean e a IA se potencializem mutuamente?

Cesar Gon – Eu acho que é necessário ter um processo de aprendizagem das lideranças. Eles precisam começar a se conectar a isso por experiências práticas, o “learn by doing” do sistema lean. Não é apenas com conhecimento vindo de livros, de palestras, de conteúdos digitais… Você precisa ter a experiência de começar a conectar os pontos entre as capacidades crescentes da inteligência artificial e os princípios lean. E com isso, você vai criando a sua própria teia de geração de valor e os seus aprendizados. E vai entendendo o que faz sentido, o que você sabia, o que você tem de desaprender e o que está sendo potencializado pela inteligência artificial… Acho que é um processo pessoal de reinvenção que até precede o exercício da liderança. Um líder precisa primeiro se convencer. É muito difícil liderar, criar um centro de propósito em alguma direção, se você não está convencido daquele caminho. Então, eu acho que é mergulhar nesse mundo de cabeça aberta, entender essas conexões, as verdadeiras ligações entre os princípios lean e a inteligência artificial, para depois conseguir transmitir isso para o seu time, criar censo de propósito e clima para a ação.

Qual a importância do Lean AI Summit 2026? É o primeiro encontro do Brasil e do mundo focado em discutir a fusão de lean e IA com profundidade?

Cesar Gon – Eu acho que é um orgulho para a gente, para a CI&T, para o Lean Institute Brasil (LIB) e para o Cubo Itaú serem os protagonistas do primeiro evento sobre lean e IA do mundo. Eu tenho certeza disso. Vai se replicar dentro da rede mundial de institutos e nas comunidades lean. E a gente vai fazer o primeiro. Eu acho que começamos um processo inevitável de conectar todo o arcabouço de aprendizado de décadas do mundo lean com as novidades e as potencialidades da inteligência artificial.

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