
Reprodução/UFSC/ND Mais
A previsão do NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) de que um ‘Super El Niño’ deve atingir o Brasil nos próximos meses tem deixado as autoridades em alerta. Uma cientista de Santa Catarina, no entanto, chamou a atenção para um indicador ainda mais preocupante, o fim dos “anos neutros”, períodos em que não há a ocorrência de eventos extremos.
Pesquisadora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e integrante da coordenadoria de Oceanografia, Regina Rodrigues acompanha há décadas os impactos do El Niño e da La Niña.
A pesquisadora, que atua na liderança de grupos ligados à Organização Meteorológica Mundial, foi orientada no pós-doutorado pelo cientista Michael McPhaden, da NOAA, considerado uma das principais autoridades sobre o tema no mundo.
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Segundo Regina, embora El Niño e La Niña sejam fenômenos naturais, a intensidade e a frequência observadas nos últimos anos é anormal e têm relação direta com as mudanças climáticas provocadas pela ação humana.
“Estamos saindo do equilíbrio energético e esse fenômeno, que é um fenômeno natural, está começando a tentar reagir a essa falta de equilíbrio”, apontou.
El Niño provoca temporais e enchentesEl Niño provoca temporais e enchentesFoto: Canva/ND Mais
Enquanto episódios de El Niño costumam provocar enchentes e temporais no Sul do Brasil, a La Niña favorece estiagens severas. De acordo com a pesquisadora, a ação humana está gerando um intervalo cada vez menor entre períodos de excesso (El Niño) e escassez de chuva (La Niña).
“Desde 2014, só tivemos um ano neutro, mais de uma década que a gente tem múltiplas La Niñas. Então, o Sul do país fica seco com o La Niña, isso tem um impacto muito grande na agricultura, e de repente vem um El Niño forte e causa uma devastação com chuvas extremas”, explicou.
Para a cientista, a ocorrência de dois eventos fortes em um intervalo inferior a dois anos é algo nunca registrado antes. “É inédito ter dois eventos fortes em menos de dois anos. Isso é um efeito das mudanças climáticas e do desequilíbrio energético do planeta”, diz.
El Niño deve ser de forte intensidade
A pesquisadora explica que as previsões da NOAA, que monitoram o fenômeno, começaram a indicar um possível El Niño de moderado a forte ainda em março. Desde então, modelos climáticos internacionais vêm reforçando a tendência, embora ainda exista incerteza sobre a intensidade final do fenômeno.
NOAA aponta que condições neutras devem continuar até junho Foto: NOAA/Reprodução/ND MaisNOAA aponta que condições neutras devem continuar até junho Foto: NOAA/Reprodução/ND Mais
Segundo Regina, existe uma barreira de previsibilidade nesta época do ano, durante a primavera do Emisfério Norte e outono no Emisfério Sul. As projeções mais recentes da NOAA, agência climática dos Estados Unidos, já indicam um cenário mais consistente para o desenvolvimento do fenômeno ao longo do segundo semestre.
Se até o final de maio os modelos continuarem apontando o mesmo cenário, a probabilidade de um El Niño forte aumenta.
Segundo Regina, porém, a intensidade do El Niño não é o único fator determinante para os impactos no Brasil. A posição das águas mais quentes no Oceano Pacífico também interfere diretamente na formação dos sistemas atmosféricos que provocam chuva no Sul do país.
“Por exemplo, as chuvas no Sul são frequentemente causadas por um bloqueio atmosférico no Sudeste, que impede a passagem de frentes frias, concentrando a chuva em uma única região. Isso ocorreu em 1983 no Vale do Itajaí e em 2024 no Rio Grande do Sul”, explica Regina.
Ao contrário do El Niño, La Niña provoca ondas de calorAo contrário do El Niño, La Niña provoca ondas de calorFoto: Reprodução/ND
Ainda segundo a pesquisadora, a localização exata das áreas mais aquecidas do Pacífico só deve ficar mais clara nos próximos meses, à medida que o fenômeno evoluir.
“O El Niño normalmente começa a ganhar força entre julho e agosto, atinge o pico entre novembro e janeiro e depois perde intensidade ao longo do ano seguinte”, explica.
A diferença entre El Niño e La Niña
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Como o Pacífico ocupa cerca de metade do planeta em extensão, alterações na temperatura dessa região acabam provocando impactos climáticos em diferentes partes do mundo.
“O El Niño é marcado pelo enfraquecimento dos ventos alísios, o que faz com que a água quente se mova um pouco para leste. Isso altera todo o sistema climático, pois na região tropical os oceanos desempenham um papel crucial na atmosfera”, explica Regina.
Enquanto El Niño costuma provocar enchentes e temporais no Sul do Brasil, a La Niña favorece estiagens severasEnquanto El Niño costuma provocar enchentes e temporais no Sul do Brasil, a La Niña favorece estiagens severasFoto: Reprodução/ND
Segundo a pesquisadora, o deslocamento da água quente interfere diretamente na formação de nuvens e na circulação atmosférica global. Esse processo modifica os padrões de chuva, temperatura e formação de frentes frias, afetando especialmente a América do Sul. “Esse fenômeno é uma interação entre a atmosfera e o oceano”, comenta.
Já a La Niña representa o movimento contrário. O fenômeno ocorre quando os ventos alísios se intensificam, empurrando as águas quentes para longe da costa sul-americana e provocando um resfriamento anormal do Pacífico Equatorial. “Assim como o El Niño, a La Niña também impacta o clima global, mas de forma inversa”.
Para Regina, a população precisa compreender os efeitos desses eventos em um cenário de mudanças climáticas cada vez mais intensas. “A conscientização sobre os impactos das mudanças climáticas e a consideração desses fatores nas decisões políticas, como o planejamento urbano e o desenvolvimento econômico, são fundamentais. Construir mais prédios sem planejamento adequado, por exemplo, pode agravar os problemas”.
Com informações de NDMAIS
