
Da esquerda para a direita, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Renan Santos (MBL): candidatos e lideranças políticas têm investido em mudanças visuais para transmitir juventude, vitalidade e proximidade com o eleitorado. — Foto: Ricardo Stucker/Vittor Salles/Jorge William/Celio Messias/Cauê Del Valle
É quase um dogma do marketing político que o candidato a um cargo eletivo não pode ter sapatos novos. O desgaste do calçado funciona como prova de humildade e experiência. Com o tempo, porém, novos pilares foram acrescentados neste livro de regras, de forma consciente ou não. Agora, a ideia de juventude, saúde e virilidade se tornaram ativos políticos, com a adoção de procedimentos estéticos ou mudanças estratégicas no guarda-roupa para projetar esse vigor.
Na era das canetas emagrecedoras, dos implantes capilares e das harmonizações faciais, cada vez mais candidatos e líderes políticos, dos mais diversos matizes ideológicos, vêm moldando a própria imagem. No caso das canetas emagrecedoras, a maioria, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o ex-candidato à prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos (PSOL), admite seu uso. Longe de declarações oficiais, o uso é confessado em meio a brincadeiras ou comentado por aliados próximos.
Tarcísio, que vai disputar a reeleição, além de ter emagrecido cerca de 20 quilos ao longo dos últimos meses, também abriu mão dos cabelos grisalhos e passou a pintar os fios de um tom mais escuro. Isso tudo é acompanhado por uma mudança nas redes: desde o ano passado, ele passou a publicar alguns vídeos correndo na esteira ou pedalando.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também não escapa. Grande parte do conteúdo que viraliza nas redes sociais do mandatário é durante a realização de atividades físicas e treinos na academia. Próximo de completar 81 anos, Lula teme ganhar a pecha do ex-presidente americano Joe Biden, que saiu da corrida de 2024 após ganhar o apelido de “Sleepy Joe” (“Joe Dorminhoco”), devido à idade avançada e ao claro cansaço nos eventos de campanha.
Caso seja reeleito ao Planalto, Lula terminará seu quarto mandato com 86 anos de idade. Diante disso, há um esforço para grudar no presidente a imagem de vitalidade e força. Em 2024, Lula também aderiu ao uso de canetas emagrecedoras.
Especialistas em comunicação política e em imagem pessoal ouvidos pelo GLOBO apontam que, historicamente, existe um esforço da classe política de usar elementos visuais, seja no cabelo, no peso, na maquiagem ou no modo de vestir, para passar mensagens, atrair determinada parcela do eleitorado ou criar conexão com o público. Deniza Gurgel, consultora e pesquisadora da imagem na comunicação política, aponta que as imagens dos candidatos circulam antes mesmo do eleitor escutar o que o político está falando — por vezes, o áudio dos vídeos nem importam tanto quanto o que se vê.
— As imagens viram um atalho cognitivo para o cérebro do eleitor começar a tirar conclusões a respeito de quem é essa liderança. E a gente está num momento em que a cultura “wellness”, de praticar atividade física e cuidar da saúde estão em alta. No caso do Lula, começou a haver questionamentos se ele conseguiria cumprir um novo mandato, então ele passou a postar vídeos e fotos fazendo atividade física, usando roupas esportivas. E isso traz a imagem de que tem energia e que a idade é um detalhe — comenta.
Na direita, Flávio Bolsonaro (PL) também vem sutilmente mudando a aparência. No ano passado, ele chegou a usar canetas emagrecedoras e perdeu 15 quilos, segundo a coluna de Lauro Jardim, do GLOBO. Os óculos de grau, antes mais presentes, agora pouco aparecem. Outro artifício visual tem chamado a atenção: camisetas com frases marcantes. Na tentativa de se mostrar mais moderado que seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), já apareceu mais de uma vez em vídeos publicados em suas redes sociais com uma camiseta na qual se lê a frase “pai de menina”.
Nos últimos meses, Flávio tem apostado em discursos e conteúdos voltados às mulheres, na tentativa de reverter a rejeição das mulheres que seu pai enfrentou na disputa eleitoral de 2022. Estampar a frase em seu peito, avaliam os especialistas, é uma forma de fazer um contraponto à fala de Jair Bolsonaro que disse ter dado uma “fraquejada” ao ter uma filha mulher. Em visita ao Rio Grande do Norte e à Paraíba, usou camisas com a frase “Nordeste é solução”. Ao comparecer à Agrishow, em Ribeirão Preto (SP), apostou na frase “orgulho do nosso agro” estampada na roupa.
— E quando ele coloca uma camiseta sobre o Nordeste, está avançando num reduto eleitoral que, em tese, tem predominância muito mais social-democrata do que conservadora. É um caminho para diminuição da rejeição, que vem do pai — avalia Marcelo Vitorino, professor de marketing político da ESPM.
Deniza acrescenta que tem especial significado a marca da camiseta “pai de menina”, da Reserva, por ser uma grife que se conecta com “jovens, de classe média, empreendedores”, um público que Flávio tem tentado alcançar — inclusive com a ajuda do coach Pablo Marçal (União), que lhe ministrou uma espécie de media training com dicas para atrair profissionais liberais, jovens que trabalham com internet e tecnologia e quem quer abrir os próprios negócios.
— Esse modo de vestir do Flávio, além de comunicar jovialidade, informalidade, algo muito presente na narrativa da família Bolsonaro, ao mesmo tempo o diferencia do pai, que usava mais camisa de futebol, bermudão, chinelo. Ele já tem um requinte maior, menos desleixado. A camiseta da Reserva, uma marca jovem, se conecta com jovens de classe média, que têm esse mindset de transformar o país, trabalhar e ao mesmo tempo ser dono do seu próprio tempo, que é algo que está muito presente nos discursos que o próprio Flávio representa — acrescenta Deniza.
Já Ronaldo Caiado (PSD), também candidato à presidência, tem tentado tirar alguns anos das costas, mas de forma mais discreta. O goiano, apesar de não ter emagrecido ou abandonado os cabelos grisalhos, fez um implante capilar no ano passado. O processo de transformação foi compartilhado pela clínica Capilife, responsável pelo implante.
Renan Santos, candidato ao Planalto pelo partido Missão, também trocou os cabelos desgrenhados por um corte de cabelo e barba mais alinhados nos últimos meses. Nos últimos anos, também foi visível as mudanças de visual de Michelle Bolsonaro, hoje candidata ao Senado pelo Distrito Federal. A mudança no modo de vestir passou a ficar mais evidente após ela assumir a presidência do PL Mulher, quando passou a adotar mais ternos e camisas em tons neutros, destoando dos vestidos em tons pastéis que usava quando era primeira-dama.
Mudanças no visual de políticos não são uma novidade. Em 2024, Marçal fez um trabalho de visagismo antes da corrida eleitoral pela prefeitura de São Paulo, mudou o corte de cabelo e da barba, perdeu alguns quilos e passou a apostar mais em ternos e blazers. Já o prefeito de São Paulo Ricardo Nunes (MDB) fez branqueamento nos dentes e mudou o corte de cabelo antes da campanha — e, logo após vencer a disputa pela prefeitura, recorreu a intervenções cirúrgicas para melhorar o semblante, com uma harmonização facial e uma cirurgia de correção de pálpebras.
Alexia Teles, consultora de imagem pessoal com experiência em estratégia de imagem política, afirma que percebe um aumento na procura de políticos pelos seus serviços em períodos pré-eleitorais. Para ela, as escolhas de roupa, estilo do cabelo, apostar na perda de peso ou em um físico atlético não são apenas vaidade e que mudanças sutis são mais estratégicas do que as bruscas, especialmente numa época de superexposição nas redes sociais.
— Hoje a gente vê um movimento mais sutil, principalmente relacionado a esse movimento de saúde, de vitalidade, ou mudanças estéticas interpretadas simbolicamente como saúde. O emagrecimento, o cabelo, que o público interpreta como símbolo de segurança, de capacidade de controlar a sua própria rotina. A inteligência artificial e cortes de vídeos nas redes fazem com que o eleitorado construa várias versões de uma mesma pessoa e, se o político não tiver essa imagem coerente, haverá um problema — pondera.
Com cada vez mais recursos para vender essa ideia de juventude, em um esforço que não se limita a uma ida ao barbeiro ou uma mudança no guarda-roupa, a política tem ficado cada vez mais magra, mais tingida e mais cabeluda.
Com informações de O GLOBO
