BTG/Nexus: para 43%, governo Lula é ruim ou péssimo; 37% consideram ótimo ou bom e 18% regular Foto: Wilton Junior/Estadão / Estadão

O ex-ministro da Fazenda Delfim Netto, conhecido pelo bom humor e por frases espirituosas sobre a economia brasileira, costumava dizer que o Brasil não tinha competência nem mesmo para se autodestruir. Por isso, segundo ele, o país acabaria sobrevivendo às barbeiragens cometidas por qualquer governo na condução da economia.

A frase, embora carregada de ironia, traduzia uma característica recorrente da economia brasileira: a capacidade de atravessar períodos de forte instabilidade e, mesmo depois de sucessivos erros, encontrar alguma forma de recuperação.

Isso não significa, porém, que o país esteja imune a novas crises. De tempos em tempos, decisões equivocadas, desequilíbrios fiscais e a deterioração das expectativas fazem o Brasil se aproximar perigosamente do abismo.

É justamente esse o cenário que volta a preocupar neste momento. Três sinais claros indicam que o país está novamente se aproximando de uma situação de risco econômico, com efeitos que podem atingir as contas públicas, os investimentos, o consumo e o mercado de trabalho.

O primeiro alerta está relacionado à situação fiscal do governo. O aumento das despesas e a dificuldade de cumprir metas de resultado colocam em dúvida a capacidade do governo de estabilizar a trajetória da dívida pública. Quando o mercado passa a questionar a sustentabilidade das contas, a consequência costuma aparecer na forma de maior pressão sobre os juros e sobre o câmbio.

O segundo sinal está nas expectativas dos agentes econômicos. Empresas e investidores tomam decisões considerando não apenas os indicadores atuais, mas também o que esperam para os próximos meses e anos. Quando cresce a percepção de que o governo terá dificuldades para controlar gastos e preservar o equilíbrio das contas públicas, investimentos podem ser adiados e o ambiente econômico se torna mais cauteloso.

O terceiro ponto de atenção é justamente a combinação entre juros elevados, inflação e perda de confiança. Uma deterioração das expectativas pode dificultar o trabalho do Banco Central, que precisa manter uma política monetária mais restritiva para impedir que a inflação volte a ganhar força. Juros altos, por sua vez, encarecem o crédito para famílias e empresas e reduzem o ritmo da atividade econômica.

Isoladamente, nenhum desses fatores significa que uma nova crise seja inevitável. O problema surge quando eles passam a atuar simultaneamente e se reforçam mutuamente.

Foi justamente em momentos como esse que a economia brasileira demonstrou sua vulnerabilidade. A combinação de desequilíbrio fiscal, inflação, juros elevados e perda de confiança já esteve na origem de algumas das principais crises enfrentadas pelo país.

A diferença entre uma turbulência e uma crise mais profunda, portanto, pode estar na capacidade do governo de reagir antes que os problemas se transformem em um ciclo difícil de interromper.

A velha provocação de Delfim Netto continua atual: o Brasil tem uma impressionante capacidade de sobreviver às próprias barbeiragens. Mas isso não significa que possa desafiar indefinidamente os limites da economia.

Os sinais de alerta estão novamente acesos — e ignorá-los pode tornar muito mais caro o ajuste no futuro.

Fonte: Terra Brasil

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