
Lulinha e o Careca do INSS (Nelson Almeida/AFP | Carlos Moura/Agência Senado)
Responsável por abrir portas em diferentes repartições a quem a contrata e antiga parceria de negócios do notório Careca do INSS, a lobista Roberta Luchsinger é um arquivo vivo capaz de revelar as engrenagens do esquema bilionário de fraudes e descontos ilegais de aposentados e pensionistas no país. Mais do que isso: ela é também um arquivo vivo sobre o verdadeiro papel de Fábio Luis Lula da Silva, o Lulinha, no governo do pai presidente. A empresária teve o sigilo telemático quebrado por ordem do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o que se descobriu é devastador. No acervo de mensagens, revelados com exclusividade por VEJA na edição que chegou nesta quinta-feira, 20, às bancas e plataformas digitais, foram encontradas referências ao presidente da República, a um ministro de Estado, a um ex-ministro do governo Dilma Rousseff, a antigos funcionários da confiança de Lula, a rascunhos de contratos, a autarquias alvo da cobiça do grupo e muitos, muitos diálogos sobre o dia a dia e o modus operandi de Lulinha, de quem ela é amiga.
A maior parte das conversas sensíveis de Roberta com seus interlocutores havia sido apagada, mas os policiais conseguiram recuperar todas elas, uma a uma. A partir de áudios, mensagens de texto e documentos descobertos dentro do celular, a Polícia Federal concluiu que a lobista mantinha uma sociedade oculta com Fabio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e com o empresário Fernando Bittar em que prospectavam negócios no governo e distribuíam favores e mimos a quem pudesse abrir as portas da administração pública para os interesses do grupo. Para Roberta, as negociações que fazia eram lobby legítimo. Para a PF, um crime – ou vários. No relatório da polícia encaminhado à PF, as descobertas são tratadas como evidências de corrupção, organização criminosa, tráfico de influência, advocacia administrativa e exploração de prestígio. A um empresário interessado em usufruir dos benefícios do grupo, a lobista resumiu a alma do negócio: “eu sou o Fábio”.
A sociedade oculta de Lulinha, Roberta e Fernando Bittar
A PF descobriu que Roberta Luchsinger mantinha uma sociedade informal com o filho mais velho do presidente e com o empresário Fernando Bittar, antigo parceiro de negócios de Lulinha. A aliança era tão profícua que Roberta dizia ter ouvido do próprio Lula a oferta para que escolhesse “onde queria ficar” no governo. Em uma mensagem encaminhada em janeiro de 2024 a um empresário, escreveu: “sabe, fui das poucas pessoas q o Lula chamou e perguntou: escolhe onde vc quer ficar. (…) Eu disse: aonde eu tô. Na minha sociedade com Fábio e Fernando”. “Tô em cargo nenhum e ando onde quero”, completou. Para evitar riscos desnecessários, a orientação era evitar expor Lulinha, que “só entra em campo qdo [quando] precisa. Tem q se preservar”.
De acordo com os investigadores, pelo conteúdo do celular da lobista, é possível concluir que a atividade desempenhada por ela, Bittar e o filho do presidente “consistia em fazer interlocução junto a agentes e órgãos governamentais com o objetivo de defender interesses privados”. Quando discutiu a partilha de honorários certa vez, resumiu assim a destinatário dos valores: “eu e meus dois gordinhos”, em referência a Lulinha e Bittar.
Lulinha, aliás, foi usado para abrir portas do Ministério da Saúde, cujo número dois era Swedenberger Barbosa, petista de carteirinha. O plano do grupo é pressioná-lo para comprar medicamentos à base de canabidiol. “Temos q colocar o Fábio em cima do berge rsrs”, disse Roberta a um interlocutor em uma mensagem apreendida pela PF. Em outra, indica que Lulinha também monitorava a situação: “Fabio quer saber se Berger confirmou amanhã”.
Ex-sócio de Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, e o primeiro a apontar para as traficâncias do empresário e o vínculo dele com Lulinha, Edson Claro disse em depoimento, também anexado no inquérito sigiloso a que VEJA teve acesso, que “havia também a figura de ROBERTA, secretária de FÁBIO (vulgo “LULINHA”), a qual atuava como intermediária entre ANTÔNIO, FÁBIO e GUSTAVO GASPAR; QUE ouviu do próprio ANTÔNIO que ROBERTA teria sido assessora do Presidente LULA; QUE ANTÔNIO afirmava que ROBERTA era responsável por realizar o lobby junto ao Ministério da Saúde”. Embora as funções de cada personagem não sejam exatamente essas, a oitiva é considerada pela PF como reveladora do acesso que a lobista dizia ter no governo do presidente Lula.
Em 10 de maio de 2024, por exemplo, Roberta encaminhou ao então chefe de gabinete do presidente Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, o rascunho de um termo de referência que envolve dispensa de licitação para a compra de materiais derivados do canabidiol. Dias depois, registrou a Polícia Federal, ela “confessa que tem esperanças de que Fabio articule logo o negócio do canabidiol”. Meses antes, a um empresário, a lobista já havia invocado por linhas tortas o nome de Lulinha, concluiu a PF. “Eu sou quem vc sabe”, disse na ocasião.
Os inquéritos em poder do STF mostram em detalhes a atuação de Lulinha e Roberta Luchsinger junto ao governo para regulamentar o uso de canabidiol no país e, por consequência, beneficiar o Careca do INSS, um dos principais interessados em lucrar com o insumo. A um empresário, Roberta relatou as pressões do Careca e disse que ele temia cobrar resultados diretamente de Lulinha. “Amor, combinei com Antônio de revisar o contrato qdo eu chegar. Ele tá pressionando. [Contra] O Fábio ele não tem coragem”, disse em janeiro de 2025. O Careca do INSS, indicou a PF, considerava que suas demandas dependiam da intervenção de Lulinha. “Fábio ficou p… que Antônio tava me pressionando”, afirmou Roberta em mensagem no mês seguinte.
Com informações de VEJA
Fonte: Diário Do Brasil
