
REPRODUÇÃO ABRIL
Não é de hoje que se sabe que, para envelhecer mantendo a mente afiada e o raciocínio rápido, é preciso investir em um cotidiano saudável. Ainda assim, muita gente acredita que afastar o declínio cognitivo é questão de sorte ou apenas genética.
Pois bem: pode guardar o amuleto. Embora os genes tenham, sim, papel importante, um dos maiores estudos já feitos na América Latina sobre o tema revelou que ajustar quatro pilares da rotina pode melhorar em 55% a cognição global de idosos com risco de demência.
É o ensaio LatAm-FINGERS, publicado na prestigiada revista científica The Lancet, neste domingo, 12, e apresentado na Conferência Internacional da Associação de Alzheimer, em Londres.
Os cientistas acompanharam de perto mais de 1,7 mil voluntários entre 60 e 77 anos, espalhados por 12 países da América Latina — incluindo o Brasil.
O resultado mostrou que quem participou de um programa intensivo de dois anos focado em mexer o corpo, desafiar a mente, comer bem e cuidar do coração viu o cérebro ganhar um fôlego totalmente novo.
Para ficar por dentro desses achados, a seguir, confira como foi realizado o estudo e quais estratégias fizeram parte da intervenção.
Como o estudo foi feito
Para a pesquisa, foram selecionados idosos com fatores de risco cardiovasculares, desempenho cognitivo abaixo do esperado e maior risco de demência, mas ainda sem a doença, bem como longe do diagnóstico de distúrbios psiquiátricos graves.
Os pesquisadores, então, dividiram os participantes em dois grupos bem diferentes.
Um deles foi a turma superfocada, o que eles chamaram de “intervenção sistemática”. Dentro desse time, as pessoas passaram por um programa com um protocolo padronizado e acompanhado de perto por especialistas ao longo dos dois anos.
O grupo foi dividido em conjuntos de 10 pessoas, teve 38 encontros com a equipe de saúde e recebeu 26 ligações telefônicas de reforço, além de ter passado por visitas para avaliações médicas a cada seis meses.
Já a outra turma foi mais autônoma (ou de “intervenção flexível”). Eles receberam orientações em apenas quatro encontros ao longo do mesmo período e tiveram de seguir as mudanças por conta própria no dia a dia.
Assim, o que a trupe recebeu foram encontros educativos com orientações sobre atividade física, alimentação saudável, estímulo cognitivo e controle dos fatores de risco cardiovascular.
Ao longo dos meses, exames de saúde foram realizados para avaliar a evolução de cada grupo.
A fórmula ideal para um cérebro jovem
Para o grupo que recebeu a intervenção sistemática multimodal, os pesquisadores estabeleceram metas específicas para cada um dos pilares da saúde. Na prática, as estratégias que ajudaram a preservar e melhorar a função cerebral dos voluntários incluíram:
1- Exercícios
Os idosos suavam a camisa quatro vezes por semana com treinos supervisionados.
Cada dia incluía 35 minutos de exercícios aeróbicos (como caminhada rápida), além de 15 minutos de musculação duas vezes por semana e mais 15 minutos de treino de coordenação e equilíbrio, também duas vezes por semana (tudo com 5 minutinhos de aquecimento e desaquecimento).
No início, o ritmo era mais leve, exigindo de 55% a 65% do limite do coração, mas depois de seis meses a intensidade subia para a faixa de 70% a 80%.
+Leia também: Conheça o exercício que afasta a demência, segundo pesquisa
2- Alimentação
O plano alimentar seguiu a dieta MIND (uma sigla que, convenientemente, significa “mente”, em inglês).
Ela consiste em uma fusão das dietas Mediterrânea e DASH (sigla em inglês para Abordagens Dietéticas para Parar a Hipertensão) e foi criada para blindar o cérebro contra o envelhecimento e proteger o coração.
Assim, o cardápio priorizou alimentos como frutas, vegetais, grãos integrais e laticínios magros, com foco especial em reduzir a pressão arterial.
E, para dar certo, os voluntários passavam por duas consultas individuais por ano com um nutricionista, preenchiam diários alimentares toda semana e recebiam ligações regulares de suporte para manter o foco.
+Leia também: Os 6 segredos para turbinar o cérebro de acordo com a ciência
3- Treinamento cognitivo
Não faltou ginástica cerebral. A mente era desafiada em quatro sessões semanais de 25 minutos com jogos de computador na plataforma BrainHQ.
Esses exercícios digitais estimulavam a memória, a atenção, a agilidade de raciocínio e a tomada de decisões. O melhor de tudo é que o próprio programa aumentava ou diminuía a dificuldade de forma automática, adaptando-se ao ritmo de cada pessoa.
Aliás, no site, é possível acessar alguns dos jogos gratuitamente.
+Leia também: Por que ler faz bem à saúde?
4- Gerenciamento do risco cardiovascular
Acredite: para cuidar da mente, também é preciso cuidar do coração.
Alguns estudos, por exemplo, sugerem que a hipertensão pode estar ligada ao Alzheimer por danificar os vasos sanguíneos do cérebro ao longo dos anos, reduzindo a irrigação cerebral e aumentando o risco de lesões que favorecem o declínio cognitivo.
Por isso, entre os participantes da LatAM-FINGERS, o cuidado com a saúde cardiovascular era feito bem de perto, monitorando de seis em seis meses indicadores como pressão arterial, peso, circunferência da cintura, glicose e colesterol.
E tem um efeito “bônus”: esse grupo também aproveitava os momentos de socialização durante as 38 reuniões presenciais do programa, todas lideradas por profissionais da saúde. Um combo de sucesso para mente e coração.
+Leia também: Alzheimer: 14 fatores por trás da doença — e que podem ser evitados
Dados locais inéditos
Essa pesquisa já havia sido feita na Finlândia (com estudo FINGER) e estudos subsequentes semelhantes também foram conduzidos nos EUA e no Japão. Mas esta foi a primeira vez que o teste foi realizado na América Latina.
O médico neurologista Wyllians Borelli, coordenador de pesquisa do Centro da Memória do Hospital Moinhos de Vento e colunista de VEJA, explica que os resultados da região são especialmente animadores devido ao contexto em que os países latino-americanos estão inseridos.
“O que se viu nesse estudo é que o efeito na América Latina é maior do que o visto em outros lugares”, diz. “E isso está sendo demonstrado porque, aqui, a gente tem mais fatores de risco descontrolados, como pressão alta, diabetes e colesterol alto.”
De fato, quase dois terços das pessoas com demência vivem em países de baixa e média renda. Nesses locais, fatores de risco são mais comuns e os sistemas de saúde costumam ter menos estrutura para diagnosticar e tratar a doença.
Assim, de um lado, a América Latina está entre as regiões mais afetadas por esse cenário. Do outro, mostra ser, também, quem mais pode se beneficiar de intervenções.
Com informações de @abril
Fonte: Diário Do Brasil
