Quando o assunto é saúde de quem treina, coração, músculos e articulações costumam ocupar boa parte das preocupações. Os rins, porém, raramente entram nessa conversa até que algum exame apareça alterado. O problema é que a doença renal pode evoluir durante bastante tempo sem provocar sinais evidentes.

Isso significa que disposição para correr, pedalar, fazer musculação ou praticar outro esporte não permite concluir, isoladamente, que a função renal esteja normal. Principalmente entre pessoas com hipertensão, diabetes, histórico familiar de doença renal ou doenças cardiovasculares, prevenção não deveria depender do surgimento de sintomas.

Para a Dra. Renata Asnis, nefrologista, esperar o corpo sinalizar que alguma coisa está errada pode atrasar a identificação de alterações importantes.

“Uma das dificuldades da doença renal é que o paciente pode se sentir bem mesmo quando já existe comprometimento da função dos rins. Por isso, principalmente para quem tem hipertensão ou diabetes, o acompanhamento não deve depender do aparecimento de sintomas. Prevenção significa identificar alterações quando ainda existe oportunidade de evitar ou retardar a progressão”, explica.

Quem treina também precisa conhecer a própria pressão

Exercício físico integra uma rotina saudável, mas não substitui o acompanhamento de fatores que podem comprometer os rins. Um deles é a hipertensão arterial.

A pressão elevada de maneira persistente pode provocar danos progressivos à rede de pequenos vasos envolvidos na filtração renal, muitas vezes sem causar manifestações perceptíveis.

“A pressão alta não controlada mantém os vasos submetidos a uma sobrecarga contínua. Com o passar do tempo, isso pode comprometer a capacidade de filtração. O paciente não necessariamente percebe esse processo acontecendo, o que reforça a necessidade de medir a pressão e acompanhar a função renal regularmente”, afirma Renata.

Para quem pratica atividade física, a mensagem é especialmente útil: conseguir completar o treino normalmente não deve ser usado como parâmetro para concluir que pressão e função renal estão necessariamente adequadas.

Diabetes também entra nessa conta

O mesmo cuidado vale para a glicemia. Quando o diabetes permanece descontrolado, níveis elevados de glicose podem lesionar progressivamente os pequenos vasos dos rins.

Por isso, exercício, controle do peso e alimentação equilibrada podem fazer parte de uma estratégia de saúde, mas não eliminam a necessidade de acompanhar condições já diagnosticadas.

“Hipertensão, diabetes, histórico familiar de doença renal e doenças cardiovasculares são exemplos de situações que justificam atenção maior. O objetivo é justamente não esperar que o organismo dê um sinal tardio para começar a agir”, orienta a nefrologista.

Hidratação não tem uma fórmula igual para todo mundo

No universo fitness, recomendações sobre água aparecem o tempo inteiro. Garrafas enormes, metas diárias e fórmulas para calcular a quantidade ideal fazem parte da rotina de muitos praticantes de exercício.

Mas nem toda orientação genérica serve para todas as pessoas, principalmente quando existe doença renal.

“Proteger os rins não depende de uma única medida. Pressão, glicemia, alimentação, medicamentos e estilo de vida fazem parte do mesmo cuidado. E quem já possui doença renal precisa de orientações individualizadas, inclusive sobre hidratação e alimentação, porque recomendações genéricas nem sempre servem para todos”, afirma Renata.

Isso não significa que hidratação deixe de ser importante durante a prática esportiva. A questão é evitar transformar uma recomendação geral em regra universal, especialmente para quem possui alguma condição clínica.

Anti-inflamatório depois do treino também merece atenção

Outro comportamento que pode aparecer na rotina esportiva é recorrer a medicamentos sempre que surge uma dor após corrida, musculação ou outro exercício.

O uso frequente e indiscriminado de determinados anti-inflamatórios pode representar um risco adicional para algumas pessoas. Por isso, transformar automedicação em parte habitual da recuperação do treino não é uma estratégia inofensiva.

Da mesma maneira, alterações encontradas em exames precisam ser interpretadas dentro do contexto clínico, e não isoladamente.

“Não devemos esperar uma alteração muito expressiva da creatinina para começar a olhar para os rins. Em pacientes de risco, a avaliação da urina também é importante, porque a presença de albumina pode indicar lesão renal. Os exames precisam ser analisados em conjunto e dentro da história daquele paciente”, explica.

Treinar faz parte da prevenção, mas não substitui a prevenção

Prática regular de atividade física, controle do peso, alimentação equilibrada e redução do excesso de sal aparecem entre os hábitos relacionados à proteção cardiovascular e renal. O exercício, portanto, continua sendo parte importante dessa construção.

O cuidado está em não interpretar um corpo ativo como um corpo automaticamente livre de alterações silenciosas.

“Não podemos recuperar todo dano renal já estabelecido, mas muitas vezes conseguimos atuar sobre os fatores que aceleram sua progressão. Controlar bem hipertensão e diabetes é uma das estratégias mais importantes para preservar a função dos rins pelo maior tempo possível”, finaliza Renata Asnis.

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